Finalmente na íntegra, Plotino explica o uno e suas emanações

Professores da USP e da Federal da Paraíba traduzem as “Enéadas”, do filósofo que perpetuou o platonismo no Ocidente

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O filósofo Plotino: buscas pela explicação da origem de todas as coisas – Foto: Ostiense Museum via Wikimedia Commons/Domínio público

O uno – origem de tudo e finalidade essencial de todos os seres – é todas as coisas e nenhuma delas é o uno. Ele é radicalmente transcendente, está acima do ser e, por isso, não pode sequer ser nomeado. Dele procedem emanações: o noús (o intelecto divino) e, em seguida, a alma, que se projeta para o mundo, identifica-se com a natureza e se emaranha na encarnação física. Os seres humanos, em última análise originários do uno, devem – através da contemplação do belo – fazer o caminho inverso, retornar até a alma “sem mescla” e dali unir-se ao princípio intelectual, a fim de “ver o que ele (o uno) vê”.

Essas especulações do filósofo Plotino (205-270), que buscam explicar um dos maiores enigmas da humanidade – a origem de todas as coisas -, estão traduzidas na íntegra pela primeira vez no idioma português. Um dos maiores pensadores da Antiguidade, Plotino é autor das Enéadas, que foram vertidas diretamente do grego antigo pelos professores José Seabra Filho, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Juvino Alves Maia Junior, da Universidade Federal da Paraíba (UFP).

Seabra e Maia se debruçam há mais de cinco anos sobre a monumental obra de Plotino, formada por seis livros com nove tratados cada – daí o nome Enéadas, que vem de ennéa (nove, em grego). Em 2014, eles publicaram a Primeira Enéada. A Segunda, Terceira, Quarta e a Quinta Enéadas foram lançadas nos anos seguintes. Agora, os professores começaram a publicar a Sexta Enéada, que está dividida em dois tomos. O primeiro tomo, com os cinco primeiros tratados, já está nas livrarias. O segundo tomo, com os tratados 6 a 9, está previsto para vir à luz em 2020. Bilíngue (grego-português), a edição de todos os volumes é da Editora Nova Acrópole.

Trata-se da primeira edição em português de todos os 54 tratados que formam as Enéadas. Foram publicadas antes, no Brasil, edições parciais da obra de Plotino. Por exemplo, a Editora Vozes lançou, em 2010, a Segunda Enéada, em tradução de João Lupi, a Editora da Unicamp ofereceu, em 2008, a Terceira Enéada, traduzida por José Carlos Baracat Júnior, e a Editora Polar publicou, em 2007, 12 tratados, na versão de Américo Sommerman.

Neoplatonismo

O filósofo Plotino e seus discípulos – Foto: Wikimedia Commons/Domínio público

Plotino é um dos fundadores do que se convencionou chamar de neoplatonismo – ideias inspiradas nas doutrinas do filósofo grego Platão (427-347 a. C.) que se desenvolveram nos primeiros séculos da Era Cristã. Nascido em Licópolis – atual Assiut, no Egito -, ele frequentou por 11 anos a escola do pensador cristão Amônio Sacas, em Alexandria. Depois de participar de uma expedição à Pérsia com o imperador Juliano, instalou-se em Roma e ali fundou uma escola, onde ensinou por 26 anos. Seu pensamento foi responsável por preservar o platonismo no Ocidente, mesmo após o fechamento da Academia de Platão, em Atenas, pelo imperador Justiniano, em 529.

Deve-se a um discípulo de Plotino, Porfírio (233-305), a reunião e a organização dos escritos esparsos do mestre, que receberam o título de Enéadas. Como Seabra e Maia explicam na introdução do volume que traz a Primeira Enéada, na maioria das vezes os textos se referem a comentários, desenvolvimentos e explicações de pensamentos expostos inicialmente por Platão. “Os tratados eram primeiro compostos mentalmente, por inteiro, e depois as reflexões eram passadas para a escrita”, escrevem os professores. “O filósofo escrevia, então, todos os pensamentos que havia elaborado, sem se interromper, como se estivesse a copiar um livro. Atinha-se ao sentido, não se preocupava com a grafia, formava mal as letras, não separava bem as sílabas, e ainda, devido à vista fraca, não relia o que escrevia.”

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Os seis volumes publicados até agora das Enéadas de Plotino: edição bilíngue – Foto: Roberto C. G. Castro

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Os textos de Plotino foram corrigidos e arrumados por Porfírio não em ordem cronológica, mas por afinidade de temas. A Primeira Enéada trata de assuntos relacionados à ética: o homem, as virtudes, a felicidade e o belo. Na Segunda encontram-se discussões sobre o mundo físico – o cosmo, os astros, o movimento e a matéria. O destino, a providência, o amor, a eternidade e o tempo são pensados na Terceira Enéada. Já a Quarta Enéada trata da essência, da imortalidade e da encarnação da alma e a Quinta Enéada aborda o uno e suas emanações. Na Sexta Enéada, os tratados versam sobre o existente.

Tradução

No volume dedicado à Primeira Enéada, Seabra e Maia explicam as dificuldades que encontraram para verter ao português as reflexões de Plotino. Segundo eles, o mestre neoplatônico escrevia da mesma maneira como falava a seus alunos, o que prejudica a compreensão do texto. “Daí ser necessário então ler e reler com atenção trecho por trecho.” Além disso, o filósofo tem por objetivo muitas vezes a contemplação e, por isso, seus escritos podem parecer de início um tanto “aéreos” ou abstratos demais. “Essa abstração se deve ao aspecto especulativo do texto, o que se pode notar, por exemplo, já na base da doutrina plotina das três hipóstases (que podemos entender por fundamentos ou ainda por realidades primordiais), a saber: o uno, a inteligência ou pensamento e a alma.”

Frente a essas dificuldades, os professores buscaram evitar interpretações e se apegar à literalidade, a fim de indicar exatamente o que e como o autor escreveu. “O texto foi traduzido, então, sem alterações: é o mesmo do original grego, e na medida do possível o mesmo vocabulário, a mesma sequência de termos das frases”, destacam Seabra e Maia. “O método foi o de ‘deixar o texto falar'”, acrescentam, citando os ensinos do professor Henrique Graciano Muracho, hoje aposentado, que por mais de 40 anos ensinou grego antigo na FFLCH e é autor de Língua Grega – Visão Semântica, Lógica, Orgânica e Funcional, publicado pela Editora Vozes em dois volumes.

O livro recém-lançado pela Editora Nova Acrópole – Foto: Reprodução

O resultado de todo esse trabalho é o acesso às ideias de Plotino, como se dá ao ler, por exemplo, o parágrafo 18 do segundo tratado da Sexta Enéada, que Seabra e Maia acabam de publicar: “E sobre o belo, se esse é a primeira beleza, as mesmas coisas dir-se-iam quase iguais aos discursos sobre o bem; e se é aquele na ideia tal que resplende, é porque não é o mesmo em todas as coisas e porque o resplender é posterior. E se o belo não é alguma outra coisa que a essência mesma, está dito que é em essência. E se em relação a nós que vemos há [o belo] pelo criar esta impressão, esse agir é ato de mover,  se em relação a esse [belo] há a atividade, é ato de mover. E também o conhecimento é ato de se mover sendo visão do que é e atividade, mas não condição. Assim também esse é sob o ato de mover, e se queres, sob o repouso, ou mesmo sob ambos; e se é sob ambos, é como misturável; e se é isso, o misturável é posterior. E a inteligência é o que pensa que é e um composto de todas as coisas, e não uma certa unidade dos gêneros. E é a verdadeira inteligência o que é com todas as coisas e já todas as coisas que são, e o que é sendo tomado [apenas] como simples gênero é um elemento dela. E sentimento de justiça, moderação e virtude em geral são todos alguma atividade de inteligência; não sendo assim nos primeiros [gêneros], são tanto posteriores ao gênero quanto espécies”.

Enéadas – Sexta Enéada, tomo I, de Plotino, tradução de José Seabra Filho e Juvino Alves Maia Junior, Editora Nova Acrópole, 464 páginas, R$ 60,00

Texto atualizado em 29 de julho de 2019

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