Filmes abordam a realidade sob outra perspectiva

Nova mostra do Cinema da USP apresenta até 12 de setembro dez filmes ligados ao realismo fantástico

 19/08/2021 - Publicado há 3 meses
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Mostra traz curtas metragens de diferentes épocas – dos anos 20 até a contemporaneidade -, produzidos no Brasil e no exterior – Foto: Reprodução

 

Algo Estranho Entre Nós, a nova mostra virtual do Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), traz filmes que prometem tirar o público de sua zona de conforto. Não há regras nem parâmetros, só uma linha tênue entre realidade e loucura, “onde abraçar o estranho torna-se um ato de coragem, e pode te fazer suspeitar de tudo aquilo que parece comum”, como está no teaser da mostra, que começou no dia 16 passado e fica em cartaz até 12 de setembro, no canal do Cinusp no Youtube.

Giovanna Mastena Palanga, curadora da mostra – Foto: Reprodução

No total a mostra apresenta dez obras do realismo fantástico, tema que surgiu através de uma pesquisa acerca do imprevisível, como conta a curadora da mostra, Giovanna Mastena Palanga. “Queríamos algo que destoasse do naturalismo das produções”, afirma. Além disso, diz, já na primeira seleção de filmes era possível perceber que havia sempre esse elemento que deformava ou flexibilizava o real de alguma forma. “A mostra traz curtas em que algo de estranho acontece, mas que é naturalizado e levado para a própria narrativa, e não tratado como algo de estranho de fato”, relata.

Segundo Giovanna, a mostra reúne curtas bem variados, que vão desde obras de 1922 até contemporâneos, brasileiros e estrangeiros, desde o cômico até o trágico, passando pelo político, pelo absurdo e pelo sensual. A curadora lembra que, durante a pandemia de covid-19, o Cinusp adaptou sua programação, exibindo mostras virtuais que privilegiam o formato de curtas e médias-metragens, com o objetivo não só de atrair público por conta dos filmes com menor duração, mas, principalmente, de dar espaço para essa produção que fica preterida pelo circuito cinematográfico.

Algo de inexplicável

Cena de A Lenda de Proitner: magia provocada pela mistura de folclore e realismo fantástico – Foto: Reprodução

 

Entre os destaques da mostra está A Lenda de Proitner (Brasil, 1996, 21 minutos), dirigido por Luiza Lubiana, que segundo a curadora beira o gênero do horror, misturando folclore e realismo mágico. A história gira em torno de um garoto preso em uma cabana por um casal, que é obrigado a assistir a agressões. Não só a violência, mas a incorporação do folclore e do realismo fantástico garantem uma ambiência mágica e ao mesmo tempo claustrofóbica e angustiante, intensificada pela trilha sonora de Jaceguay Lins.

Cena do filme tcheco Joseph Kilian: em plena Guerra Fria, uma luta tortuosa contra o controle do regime – Foto: Reprodução

 

Outra “pérola”, como define a curadora, é o filme tcheco Joseph Kilian (1964, 37 minutos), de Pavel Juráček e Jan Schmidt. “Foi um dos primeiros títulos selecionados para a mostra, e também a base para a escolha dos demais”, aponta Giovanna. Realizado sob o contexto da Guerra Fria em Praga, apresenta o contexto daquele momento político a partir de situações alegóricas que colocam o protagonista, em sua busca tortuosa por um antigo amigo, em confronto direto com mecanismos burocráticos e de controle do regime.

Cena do filme Manhã de Santo Antônio: uma comemoração tradicional portuguesa deformada pelo insólito – Foto: Reprodução

 

Manhã de Santo Antônio (2012, 24 minutos), do português João Pedro Rodrigues, perpassa a temática da mostra e também toda a carreira do cineasta, como informa Giovanna. Nesse curta, baseado na tradição de 13 de junho – dia de Santo Antônio, padroeiro de Lisboa –, jovens enamorados ocupam as ruas tomados por uma estranha letargia. Conhecido por inserir em seus filmes uma progressão natural do absurdo, o diretor deforma o tradicional da comemoração portuguesa, fazendo das ruas palco para o insólito.

Cena do filme Wan Ju Wu, que mostra as relações sexuais entre uma boneca e um cliente de bordel – Foto: Reprodução

 

Ainda entre os filmes selecionados, Wan Ju Wu (Espanha, 2019, 16 minutos), de Isabela Bianchi, entre o superficial e o natural, deve tirar o fôlego dos espectadores ao mostrar uma explícita e longa cena de relação sexual entre uma boneca hiper-realista e um cliente do bordel; e o premiado Quintal (Brasil, 2015, 20 minutos), dirigido por André Novais Oliveira e Maurílio Martins, vencedor de melhor curta-metragem no 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2015, que apresenta o limiar entre situações surreais e surpreendentes a partir do retrato cotidiano de um casal de idosos na periferia. Ainda segundo a curadora, serão realizados debates e podcasts, sem datas definidas, que podem ser acessados nas plataformas do Cinusp.

A mostra Algo Estranho Entre Nós, do Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), fica em cartaz até 12 de setembro, no canal do Cinusp no Youtube.  A programação completa e mais informações estão disponíveis no site do Cinusp.


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