Filme de ex-aluno da USP é premiado em festival alemão

O cotidiano das caravanas de imigrantes latinos rumo aos Estados Unidos é o tema do documentário “La Espera”

 25/11/2020 - Publicado há 11 meses  Atualizado: 05/03/2021 as 12:17
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Cena do filme La Espera, produzido pelo ex-aluno da USP Danilo do Carmo – Foto: Danilo do Carmo

O documentário La Espera (A Espera) recebeu o prêmio de Melhor Filme na 36ª edição do Festival de Curta-Metragem de Hamburgo, o Kurzfilm Festival Hamburg, na Alemanha, realizado virtualmente de 5 a 8 de novembro deste ano.

“Os prêmios não são o foco, mas fazem parte do processo de reconhecimento que buscamos”, diz Danilo do Carmo, ex-aluno do curso de Audiovisual do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e codiretor, com Jakob Krese, do documentário recém-premiado no festival alemão. O filme foi selecionado também para outros festivais, como o International Film Festival Rotterdam, na Holanda, e o Guanajuato International Film Festival, no México. O curta-metragem retrata, em 14 minutos, o cotidiano incerto dos imigrantes latino-americanos na trajetória de busca por melhores condições de vida nos Estados Unidos.

A questão da entrada de refugiados latinos nos Estados Unidos ganhou repercussão na imprensa internacional recentemente, com a intensificação desse fluxo e a agressiva postura do presidente norte-americano Donald Trump contra a recepção desses grupos. O filme aproveita esse cenário para trazer o dia a dia das caravanas de refugiados, que se arriscam deixando seus países. Mais precisamente, traz o entardecer e amanhecer no deserto de Sonora, onde os imigrantes de Honduras, El Salvador, Nicarágua, Guatemala e México residem em barracas improvisadas na espera para embarcar no La Bestia, ou “trem da morte”, trem de mercadorias usado com transporte com destino à fronteira norte-americana. 

O drama de refugiados latinos que buscam atravessar a fronteira com os Estados Unidos é o tema principal de La Espera – Foto: Danilo do Carmo

O que pode aparentar um contraste entre a vida dos refugiados e o olhar poético e estético dado pelo documentário na verdade é parte do objetivo da produção, que foge do convencional ao tratar dessa temática. O céu ao pôr do sol sob as barracas e a pouca iluminação vinda de postes, holofotes, fogueiras e faróis de carros fazem do ambiente desértico um objeto de apreciação pelo espectador. “Não é porque as pessoas têm vidas mais humildes que não têm uma vida bonita e que não valha a pena ser vivida. Ter essa beleza poética não é uma contradição, é um reconhecimento estético”, afirma Danilo do Carmo. 

O tema da imigração muitas vezes é relacionado à fuga da pobreza e da violência urbana, mas em La Espera há a situação das mulheres que fogem da violência doméstica, explica Carmo. Enquanto os homens são retratados como jovens aventureiros, mães solos fogem por motivos que são ainda menos reconhecidos pelo governo dos Estados Unidos. “Enquanto os jovens estão lá, se divertindo, contando histórias de terror de mortes no trem, enquanto eles falam das coisas com certa aventura, uma mãe tem uma decisão muito difícil, é um risco que ela está correndo e precisando decidir em relação aos próprios filhos”, descreve Carmo, referindo-se às cenas iniciais do filme. 

A mãe a que Carmo se refere é Lilian Florinda Hernández Lopez, descendente dos povos originários da Guatemala e personagem principal do curta. Carmo conta que o filme faz parte de um projeto audiovisual maior e que o valor de 2 mil euros recebidos como prêmio no festival de Hamburgo será aplicado na produção de um longa-metragem, que sairá em breve. O longa ampliará a visão do tema tratado no curta premiado.

Cena do filme La Espera – Foto: Reprodução/Danilo do Carmo

Durante a sua graduação na ECA, Danilo do Carmo fez intercâmbio na Alemanha em 2013. Mas o que foi definidor na sua trajetória pessoal, segundo ele, veio antes: a oportunidade de estudar alemão nos tempos de colégio, em Santa Catarina. Na Film University Babelsberg Konrad Wolf, estabeleceu contato com Jakob Krese. “A gente teve uma identificação e viramos grandes amigos. Depois de três anos sem nos falarmos, Jakob me enviou uma mensagem e, duas semanas depois, estávamos aterrissando em Tijuana, no México.”  

A produção foi feita entre dezembro de 2019 e março deste ano, acompanhando os imigrantes na travessia. “Nós fizemos uma caravana com os imigrantes, mas fizemos outra caravana que foi a caravana do documentário”, afirma Carmo. Ele destaca que o projeto não teve apoio financeiro. O dinheiro necessário veio de recursos próprios da equipe de produção e contou com trabalho não remunerado. “A realidade brasileira é de pequenas e médias produtoras fazendo projetos com recursos escassos e investimentos próprios, muito dependente de dinheiro público”, completa. 

Segundo ele, o Brasil “está de costas para a América Latina, como herança de uma dinâmica imperial e colonial”. Países como a Alemanha têm mais facilidade em recepcionar produções que tematizem a narrativa latina do que o próprio Brasil, acrescenta. Por esse motivo, o curta ainda não tem data de lançamento no Brasil. 

O trailer do documentário La Espera, de Danilo do Carmo e Jakob Krese, está disponível neste link.


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