“Festival Música Nova Gilberto Mendes” realiza edição on-line

Entre os dias 6 e 16 deste mês, evento vai destacar a diversidade da música contemporânea e de outras artes

 04/11/2020 - Publicado há 1 ano
Por
O músico e pesquisador Márcio Barreto, organizador do Festival Música Nova em Santos – Foto: Christina Amorim

Música, dança e aspectos do cinema. Esses serão os elementos trazidos pelo 53º Festival Música Nova Gilberto Mendes, que neste ano será exibido de 6 a 16 de novembro pelo canal da USP Filarmônica no Youtube, em razão da pandemia de covid-19. As apresentações terão início sempre às 19 horas, gratuitamente, sem necessidade de inscrição.

A 53ª edição do festival é coordenada pelo professor Rubens Russomanno Ricciardi, do Departamento de Música da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, e por Márcio Barreto, músico e pesquisador. O evento acontece desde 1962, idealizado pelo compositor e maestro Gilberto Mendes (1922-2016), que foi professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Segundo Ricciardi – que é maestro titular da USP Filarmônica, orquestra ligada à FFCLRP -, o festival busca valorizar o experimentalismo e a elaboração de novas linguagens e caminhos poéticos, diretrizes deixadas por Mendes.

Segundo Lucas Galon, diretor de arte do festival, a curadoria dos músicos e compositores convidados procura preencher os critérios valorizados por Mendes, como a manutenção da diversidade estética, poética e de tipos de música contemplados. “A tradição do Festival Música Nova é ligada à música de vanguarda, e temos tentado diversificar as correntes da música contemporânea. Neste ano, por exemplo, vamos ter apresentação de viola caipira, além de manifestações de outras artes, principalmente de dança”, afirma.

Márcio Barreto, amigo próximo e estudioso do trabalho de Gilberto Mendes, conta que o músico sempre foi “multifacetado” e, por isso, justamente essa variedade de composição é que sempre o agradou. De acordo com Barreto, Mendes queria que o Festival Música Nova fosse um espaço pela busca de novas expressões da arte, que sempre desse chance aos artistas que iniciam e valor para os artistas consagrados.

Desde suas origens, em 1962, o festival reúne compositores de vários lugares do mundo. Este ano, por causa da pandemia, a organização do festival precisou ser reconfigurada. Nesta edição, os artistas convidados gravaram suas obras remotamente e os materiais foram editados para a transmissão pelo Youtube. Os concertos contarão com obras de compositores de  música contemporânea como o regente alemão Felix Krieger, a compositora cubana Tania León e a compositora, pesquisadora e professora brasileira Valéria Bonafé. Além disso, após cada apresentação, lives ilustrativas serão apresentadas por Ricciardi, Barreto e Galon.

O professor Rubens Russomanno Ricciardi (à esquerda), um dos coordenadores do Festival Música Nova, ao lado do compositor santista Gilberto Mendes (1922-2016), que criou o evento em 1962 – Foto: Arquivo pessoal

Os organizadores do festival concordam a respeito da importância de sua realização durante o período de isolamento. “Nós vivemos uma excepcionalidade no mundo. Enquanto vemos notícias tão negativas, um mundo que parece péssimo, nossa alternativa é resistir, continuar lutando com o espírito guerreiro dos artistas”, comenta Ricciardi. Barreto, por sua vez, ressalta que a utilização de novos instrumentos tecnológicos e de novas mídias pode contribuir para a expansão do público do festival e para seu registro histórico.

Outro marco desta edição é o retorno para Santos, sua sede original e cidade natal de seu idealizador. O festival passou a ser realizado em Ribeirão Preto apenas em 1992, e em 2012, a cidade tornou-se sua sede única. A mudança de Santos para Ribeirão Preto, de acordo Ricciardi, deu-se por vontade de Gilberto Mendes, que desejava que o festival estivesse diretamente ligado à USP, porém em uma cidade menor que São Paulo. Apesar da transmissão on-line, Barreto gravou e produziu obras para esta edição em Santos, com o apoio de artistas santistas. A previsão dos organizadores é que o festival volte a ser realizado presencialmente em sua sede original.

Para Lucas Galon, a transmissão do festival é uma vitória importante para a música. “A música de concerto foi muito atingida pela pandemia, porque não dá para juntar os corais e orquestras. A música midiática não corre tanto esse risco, mas nós dependemos da volta dos teatros, da reunião de muita gente. O festival, nos dias de hoje, é quase um manifesto, um lembrete de que a gente existe e precisa continuar”, afirma o diretor. Por outro lado, ele também vê esta edição como um estímulo para os compositores, já que as conexões e o networking se tornaram mais acessíveis.

Galon também comenta sobre como o festival está relacionado ao cenário da música contemporânea na atualidade: “É uma rede muito grande de elementos poéticos e estilísticos. Eu diria que temos muitos compositores trabalhando na área da eletroacústica no Brasil, além de uma tendência do que chamamos de nova consonância, ou seja, compositores que se valem da recriação de estilos mais antigos. Também temos tendências atuais muito fortes de música experimental de concerto vinculada aos estilos populares urbanos. Essa troca sempre existiu, mas hoje se configura quase como uma corrente”.

O diretor explica que grande parte das inovações da música contemporânea está no Oriente e que o festival, neste ano, teria tido como foco os continentes africano e asiático, mas a mudança para a apresentação remota dificultou o convite aos participantes. “Um grande nome da composição hoje é o japonês Dai Fujikura, que já tinha aceitado vir para o Brasil e participar do festival em 2020, mas não foi possível. O Japão, a Coreia do Sul e a China têm sido países com muitos compositores importantes, muito expressivos e muito jovens”, conta Galon.

O 53º Festival Música Nova Gilberto Mendes acontece de 6 a 16 de novembro, sempre às 19 horas, no canal da USP Filarmônica no Youtube. A programação completa está disponível na página do evento no Facebook. Grátis. Não é necessário fazer inscrição.


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.