Fernando de Azevedo e a defesa da educação para todos

Nesta semana, evento e exposição no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP lembram a obra do educador

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O educador Fernando de Azevedo – Foto: Acervo de Imagens do IEB

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Educador, sociólogo, administrador, escritor e jornalista, com formação em Direito pela USP, Fernando de Azevedo (1894-1974) é considerado figura-chave da educação. Participou de momentos emblemáticos no âmbito educacional, como a criação do Ministério da Educação – na época Ministério da Educação e Saúde –, em 1930, a elaboração do Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, de 1932, a concepção da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em 1961, e a promoção da Reforma Universitária de 1968. Também elaborou o anteprojeto e o projeto que deram origem à Universidade de São Paulo, em 1934.

Para relembrar sua trajetória, o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, que possui a salvaguarda de seu acervo, promove nesta semana, entre os dias 12 e 14 de junho, o evento Educação no IEB: Interfaces Possíveis com o Acervo Fernando de Azevedo, reunindo especialistas da USP, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade de Taubaté (Unitau), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Universidade Estadual Paulista (Unesp). Além desse encontro, será inaugurada na ocasião a exposição Em Defesa da Educação Pública: Fernando de Azevedo no IEB (1927-1968), que ficará em cartaz até 18 de outubro.

O acervo de Fernando de Azevedo foi doado ao IEB em 1970, ainda em vida, pelo próprio educador. Ele contém mais de 16 mil documentos que retratam a trajetória do intelectual. A professora Diana Gonçalves Vidal, diretora do IEB, conta que a coleção inclui correspondências, fotografias e recortes de jornal, além de manuscritos e datiloscritos originais. “Há documentos preciosos, muitos deles presentes na exposição”, afirma Diana, que durante quatro anos, entre 1996 e 2000, investigou o acervo de Fernando de Azevedo, como uma das primeiras bolsistas do Programa Jovens Pesquisadores, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

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As folhas inicial e final do decreto de criação, em 1934, da Universidade de São Paulo, que contou com a elaboração de Fernando de Azevedo, estarão na exposição Em Defesa da Educação Pública: Fernando de Azevedo no IEB (1927-1968) – Foto Marcos Santos / USP Imagens

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Entre as raridades, há vários originais, como o datiloscrito de A Cultura Brasileira (1943), obra emblemática de Fernando de Azevedo, com mais de 500 páginas. Como ele mesmo dizia: “Para entender o Brasil é preciso entender a cultura brasileira”. Encontra-se no acervo também o datiloscrito original do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932. O original do manifesto de educadores Mais uma Vez Convocados, de 1959, e nove álbuns de recortes sobre a Reforma Educacional empreendida por ele no Rio de Janeiro, entre 1927 e 1930, fazem parte do acervo.

A diretora do IEB destaca a importância da correspondência de Fernando de Azevedo. A partir de 1931, como editor da Coleção Biblioteca Pedagógica Brasileira, da Companhia Editora Nacional, ele trocou várias cartas com os autores. Diana ressalta ainda sua atuação na USP, onde ele ingressou como professor no ano de sua criação, em 1934, passando por períodos democráticos e ditatoriais, do Estado Novo e da ditadura militar. “Ele já estava aposentado, em 1961, mas continuou com sua interlocução com a Universidade”, informa. Segundo ela, “é um arquivo importante para quem quer entender a educação e todo o debate em torno da educação pública no século 20, até a década de 70”.

“Fernando de Azevedo aparece no debate público, ele se faz público. Ele assume a instrução pública em São Paulo e no Rio de Janeiro, e tem uma atividade política, como liberal, que não é pouco expressiva”, diz. O acervo reúne documentos importantes, todos em defesa da concepção de uma educação pública, laica e gratuita, informa Diana. Para ele, educação era um direito do cidadão e um dever do Estado. Ele luta por uma educação igualitária, comum para a elite e para o povo. “A ideia é que as pessoas vão ascender aos postos de comando pela meritocracia, colhendo dentro da população os melhores talentos”, afirma Diana.

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A diretora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, Diana Gonçalves Vidal (à esquerda), e Mônica Aparecida G. da Silva Bento, supervisora técnica de serviço do Laboratório de Conservação e Restauro, trabalharam, respectivamente, na seleção e restauração dos documentos – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

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Segundo Diana, trata-se de um discurso poderoso porque ainda hoje é pouco conquistado. “Atualmente, a educação pública no Brasil não atende a toda a população, não é igual para todos e não dá igual oportunidade a todos. Fernando de Azevedo defendia que todos os níveis da educação fossem gratuitos, do ensino primário à universidade. É por isso que ele se engaja na criação da USP. Ele acredita em uma universidade que também seja pública, ou seja, esses talentos vão tendo oportunidade de florescer e o País vai ser governado pelos melhores. Esse é o pensamento liberal, que hoje voltou, de certa forma, a ser atual”, comenta Diana.

A diretora do IEB ainda fala do papel de Fernando de Azevedo na formação de professores. “Junto ao manifesto de 1932 existe a semente de uma proposta de que a formação para o magistério tinha que ser feita em nível superior e, preferencialmente, em nível universitário”, informa. “Em 1932, também é criado o Instituto de Educação, no Rio de Janeiro, e no ano seguinte, em São Paulo, que propõe a elevação de uma escola de magistério para uma escola de professores pensada em nível superior.”

Formação de professores na USP

“Quando a USP é criada, Fernando de Azevedo inclui o Instituto de Educação, que ficava na Praça da República, como uma das unidades da USP, e, pela primeira vez no Brasil, existe um ensino de formação de professores não só em nível superior, mas universitário”, relata Diana, acrescentando que a partir daí se tem um projeto de ensino de professores de formação ampla, não só de formação profissional, mas de cultura geral. “Ele acredita que, nesse âmbito da universidade e da formação de professores, é possível criar uma ciência pedagógica adaptada ao Brasil.”

“Era um projeto de Brasil e um projeto de educação para o Brasil. É claro que existiam vozes dissonantes, havia um embate entre católicos e liberais que dominou toda a discussão sobre educação entre os anos 30 e 70, enquanto Fernando de Azevedo está presente no cenário – ainda nos dias de hoje esse embate continua –, e o tempo todo ele vai defender que é dever do Estado dar a educação.”

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Um dos nove álbuns de recortes sobre a Reforma Educacional empreendida por Fernando de Azevedo no Rio de Janeiro, entre 1927 e 1930 – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

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No período de 1934 a 1938, o Instituto de Educação é tido como uma das unidades pertencentes à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), hoje Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). “A partir de 1938, durante o Estado Novo, o embate pende para o lado dos católicos e não dos liberais, e um movimento tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo vai tirar de dentro das universidades essas escolas de formação para professores – no Rio, ligada à então Universidade do Distrito Federal e, em São Paulo, à USP –, voltando a ser uma formação de nível médio”, como relata Diana.

Em 1939, uma lei cria os Departamentos de Educação dentro das universidades, em âmbito nacional. Na USP, ele fica ligado novamente à FFCL, mudando a característica. Diana explica que na Escola de Professores todo aprendizado era aplicado e testado no jardim da infância e na escola primária, mas quando se cria o departamento é retirada essa formação de longa duração, restando só uma formação profissionalizante. Somente em 1959, com a criação da Escola de Aplicação da USP, é que se volta a ter uma escola associada ao nível primário.

Nesse momento, Fernando de Azevedo tem uma atuação muito importante, como diz Diana, com a instalação do Centro Regional de Pesquisas Educacionais. Em 1956, o Ministério da Educação (MEC) cria o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, com sete polos espalhados pelo Brasil, e um deles está em São Paulo. Constituído por um convênio entre a FFCL e o MEC, o prédio é construído na USP, onde funciona hoje a Faculdade de Educação. O centro é construído em 1956 e três anos depois se torna uma escola de demonstração, originando mais tarde a Escola de Aplicação da USP – que vai trabalhar desde o nível primário até o ensino médio.

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Carta de Fernando de Azevedo enviada a Antonio Candido, em 18 de março de 1973, agradecendo pelas palavras do amigo durante um evento no Instituto de Estudos Brasileiros da USP -Foto: Marcos Santos USP Imagens

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Apesar de inaugurada em 1969, a Faculdade de Educação é tão antiga quanto a própria USP, defende Diana, porque ela vai sendo conformada a partir de vários eixos, desde o Instituto de Educação, o Departamento de Educação e o Centro Brasileiro de Pesquisas Brasileiros até a própria Faculdade de Educação. “Ela passa a existir como faculdade em 1969, mas como formação para o magistério existe desde 1934. Então, ela tem 85 anos, como a USP, e isso é importante não pela efeméride em si, mas para mostrar o compromisso da USP com o ensino público”, afirma.

Diana ainda lembra um fato curioso: uma entrevista em que o professor Antonio Candido – que foi um dos assistentes de Fernando de Azevedo – cita um episódio ocorrido no final da década de 30, em que Armando Salles de Oliveira questiona como fazer para aumentar o número de alunos na FFCL. Fernando de Azevedo respondeu: “Fácil, é só dar um comissionamento aos melhores professores que estão atuando no ensino público, dando a eles a possibilidade de continuar recebendo um salário e frequentar a faculdade, que encho essas salas”. “E realmente isso acontece, demonstrando desde então a preocupação da Universidade com a educação básica”, diz. “Ele também tem um papel importante na construção do pensamento dentro da Universidade, sempre ligado à sociologia, área que ajuda a implementar na USP.”

Em defesa da educação, seu maior ideal, Fernando de Azevedo redigiu, em 1965, durante a ditadura militar, um documento – que está presente no acervo e estará em exposição – em que se manifesta contra a prisão dos professores da USP Mario Schenberg, Fernando Henrique Cardoso e Florestan Fernandes e também contra a perseguição a intelectuais pelas suas ideias. Nas suas próprias palavras: “Se na ordem do dia está realmente uma política de reconstrução nacional, não é perseguindo, por suas ideias, professores, cientistas, escritores e artistas, não é humilhando-os nem mantendo-os sob constantes ameaças que se conseguirá promovê-la, sejam quais forem as forças materiais com que possam contar. Pois o que reside à base e é fator preponderante dessa reconstrução em qualquer de seus setores é a educação, a ciência e a cultura.”

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Recorte do jornal A Revolta dos Jovens, de 2 de julho de 1968, sobre o movimento estudantil, em que Fernando de Azevedo afirma que as reivindicações relativas à reestruturação das universidades são inteiramente justas – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

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O evento Educação no IEB: Interfaces Possíveis com o Acervo Fernando de Azevedo será realizado de 12 a 14 de junho, das 10 às 18 horas, no Espaço Brasiliana (Avenida Professor Luciano Gualberto, 78, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis, sem necessidade de inscrição.

A exposição Em Defesa da Educação Pública: Fernando de Azevedo no IEB (1927-1968) será inaugurada durante o evento e pode ser visitada até 18 de outubro.

Mais informações podem ser obtidas na página do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.

 

Linha do tempo

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Fotos: Acervo de Imagens do IEB

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