Felliniano mesmo era Federico

Fellini, que teria feito 100 anos em janeiro, vai muito além dos adjetivos. O cineasta ganha mostra especial no CCBB e no Cinesesc

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Federico Fellini: o diretor ganha megamostra com todos os seus filmes no CCBB  – Foto: Shaka – via domínio público / Wikimedia Commons

 

Um rinoceronte em um barco salva-vidas. Uma loiraça envolta em um tubinho preto mergulhando nas águas da Fontana di Trevi. Um fotógrafo que persegue celebridades a todo custo e que teve seu nome transformado em substantivo. Uma ninfomaníaca que vaga por uma cidadezinha no interior italiano fascista. Sonho, fantasia, o grotesco. Tudo cabia nas telas dos filmes de Federico Fellini – e mais: tudo cabia na imaginação quase imponderável do cineasta, para muitos o mestre do cinema  italiano, que teria feito cem anos no último dia 20 de janeiro. Mas um século é muito pouco para Fellini, suas obras têm o condão de resvalar na eternidade, de ir além de um processo cinematográfico para tocar a vida – não como ela é (ou era), necessariamente, mas como o diretor a via e a percebia. Duvida? Então, tudo isso pode ser colocado à prova desde o último dia 26 e até 23 de março em uma megamostra organizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil. Serão apresentados todos os filmes de Fellini, Il Maestro, como o próprio evento se intitula. São 25 títulos, desde Mulheres e luzes, de 1950, seu primeiro filme, até A voz da lua, seu último trabalho, rodado em 1990. A mostra, mais curta, ganhará espaço também no Cinesesc, de 12 a 18 de março.

 

Anita Ekberg na Fontana di Trevi, em cena do filme La dolce vita– foto: Reprodução

 

Em uma carreira de quase 50 anos, Fellini ganhou uma Palma de Ouro em Cannes, concorreu a 12 Oscars de melhor filme estrangeiro e levou quatro, um feito que cineasta nenhum ao redor do mundo chegou perto de alcançar. O prêmio em Cannes foi graças a La dolce vita, aquele que tem a voluptuosa Anita Ekberg se banhando na já citada Fontana, um iconoclasta jornalista vivido por Marcello Mastroianni (um dos favoritos de Fellini) e seu amigo fotógrafo Paparazzo, aquele que virou sinônimo. Mas a obra de Fellini vai muito além dos prêmios – que ele aceitou de muito bom grado, frise-se, tamanho era seu ego. Sua criatividade era ainda maior. Ao tecer suas narrativas cinematográficas com tramas que iam do absurdo ao barroco, do onírico ao lírico, da fantasia plena a uma crua (e muito peculiar) realidade, Federico Fellini criou uma carreira sólida, incontestável e única. Digamos, felliniana.

 

Marcello Mastroianni, um dos atores favoritos de Fellini – Foto: via domínio público / Wikimedia Commons

 

Marcello, Giulieta e Nino

 

Para isso, ele não contou apenas com sua imaginação incontrolável – que ele expunha também nos storyboards de seus filmes, já que era também um exímio desenhista, chegando a ganhar a vida como cartunista antes de fazer sucesso no cinema. Para chegar aonde chegou, Fellini se cercou de pelos menos três figuras essenciais na sua obra: o ator Marcello Mastroianni, muitas vezes vivendo o alterego do cineasta; sua mulher e companheira de toda uma vida, Giulietta Masina — musa de filmes como Julieta dos espíritos e Ginger e Fred – e o compositor Nino Rota, autor das trilhas de seus filmes. Ao lado desse trio, Fellini criou algumas das obras mais icônicas do cinema mundial.

 

Giulieta Masina em cena de Julieta dos espíritos. A atriz foi companheira de uma vida inteira do cineasta italiano – Foto: Divulgação

 

Algumas delas, com um viés de crítica política, como Amarcord – para muitos, sua obra-prima – e o feroz e miseravelmente atual Ensaio de orquestra. O curioso nisso é que o cineasta não se sentia muito à vontade com cobranças ideológicas. “Minha natureza não é política. E o discurso político me confunde na maioria das vezes. Não o compreendo. Mas confesso isso como uma fraqueza, como uma de minhas carências”, revelou ele em uma de suas inúmeras e memoráveis entrevistas.

 

Cena do filme Amarcord, de 1973, para muitos, a obra-prima de Fellini – Foto: via domínio público/Wikimedia Commons

 

Se carecia de compreensão política, o mesmo não se pode dizer de sua imaginação prolífica. Mas que, curiosamente, não era transplantada para os roteiros de seus filmes. Fellini não gostava de escrever roteiros, mas sim de imaginar seus filmes. Tanto, que a roteirização ele deixava para gente escolhida a dedo – como Tonino Guerra, autor dos roteiros de Amarcord, E la nave va e Ginger e Fred. Mesmo assim, ele não sossegava, e mexia em tudo o que podia, mesmo na finalização dos filmes, como mudar os diálogos quando a dublagem já estava quase pronta. No final, ele tinha sempre razão. Não era fácil trabalhar com Federico Fellini nem conviver com sua mente inquieta. Mas valia a pena.

Maiores informações:

CCBB recebe retrospectiva completa do cineasta Federico Fellini

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