Exposição retrata a amizade entre Antonio Candido e Edgard Carone

No dia 18 de setembro, às 19 horas, será inaugurada exposição no Museu Republicano de Itu, incluindo palestra e bate-papo

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=194904
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Edgard Carone, “historiador profundamente documental, que trabalha com história política e econômica e com os documentos originais” – Foto: Acervo USP Imagens

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A coleção do historiador Edgard Carone (1923-2003) – composta de mais de 20 mil livros, além de uma extensa documentação pessoal -, que foi doada em 2005 por sua família ao Museu Republicano Convenção de Itu da USP, configura um dos maiores acervos da história do Movimento Operário do Estado de São Paulo. Com o Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), instalado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e o Archivio Storico del Movimento Operaio Brasiliano (Asmob), preservado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), ela constitui o “núcleo duro” da memória dos movimentos de esquerda no Brasil, especialmente o marxista. Um recorte desse acervo presta homenagem aos 100 anos de nascimento do sociólogo, crítico literário e professor Antonio Candido de Mello e Souza (1918-2017), que foi amigo de Carone, e será mostrado ao público a partir da semana que vem.

A exposição Antonio Candido na Coleção de Edgard Carone será inaugurada no dia 18 de setembro, terça-feira, às 19 horas, na Casa do Barão, em Itu (SP). Na ocasião, será realizada a palestra Candido e Carone: Um Elogio à Amizade, a ser proferida pela professora Marisa Midori, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, seguida de debate com a participação da professora da FFLCH Marina de Mello e Souza, filha de Candido, com mediação de Maria Aparecida de Menezes Borrego, supervisora técnico-científica do Museu Republicano Convenção de Itu. A mostra é organizada pelo historiador Luccas Eduardo Maldonado, mestrando do Departamento de História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, em parceria com José Renato Galvão e Alzira Nóbrega, responsáveis pelos arquivos do museu.

Antonio Candido na zona rural de Bofete, interior de São Paulo, em janeiro de 1948, durante pesquisa de campo para a tese que daria origem ao livro Os Parceiros do Rio Bonito – Foto: Divulgação

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Segundo Luccas Maldonado, a coleção de Carone é uma das maiores bibliotecas de história, da esquerda e do Movimento Operário, e tem um valor histórico “enorme”, embora seja pouco conhecida. “O próprio Carone é um historiador que vem ‘perdendo a evidência’ nos últimos dez, quinze anos, porque ele é um historiador profundamente documental. Ele trabalha com história política e econômica e com documentos originais. Os grandes livros de Carone são coletâneas de documentos e interpretações a respeito da República Velha e da Quarta República”, afirma. A biblioteca foi utilizada na pesquisa para a reedição do livro O Ano Vermelho, escrito no exílio por Luiz Alberto Moniz Bandeira, publicado originalmente em 1967 e relançado 50 anos depois em edição revista e ampliada, com novos documentos e reflexões, e também na mostra realizada em 2017, no Museu Republicano Convenção de Itu, sobre os 100 anos da Revolução Russa.

.Nasce uma amizade

Filho de imigrantes libaneses, Edgard Carone conheceu Antonio Candido através de um episódio com seu irmão Maxim Tolstói Carone (formado na primeira turma da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP), preso em 1940 por sua militância política durante o Estado Novo. Sua mulher há apenas três meses, Flávia de Barros Carone buscou a ajuda de amigos do casal, entre eles Paulo Emílio Salles Gomes, Antonio Candido, Décio de Almeida Prado, Lívio Xavier e Aziz Simão, entre outros. Foi a partir daí que o jovem Edgard Carone se aproximou desse círculo de pessoas, um momento-chave no qual se atravessam uma geração, a história e a política. Como conta o organizador da exposição, “um dos sinais mais bonitos da amizade entre ambos é a tese de doutoramento de Antonio Candido, Os Parceiros do Rio Bonito, em que ele agradece a Edgard Carone no prefácio”, diz Maldonado, acrescentando que, em contrapartida, “Edgard Carone batiza um de seus filhos como Antonio Candido de Barros Carone”.

Edgard Carone em sua biblioteca particular, que foi doada pela família ao Museu Republicano Convenção de Itu da USP – Foto: Divulgação

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A mostra está dividida em seis módulos. Na primeira vitrine estão obras clássicas de Antonio Candido, como Formação da Literatura Brasileira (1959), uma revolução na análise da literatura nacional, e sua tese de livre-docência sobre Sílvio Romero. O organizador lembra um fato curioso: “Naquela época a tese de livre-docência servia de ingresso na USP. Aqueles que não passavam ganhavam o título de livre-docente, mas não integravam o quadro de professores da USP, caso de Antonio Candido e Caio Prado Júnior”.  E continua: “Antonio Candido foi dar aula em Assis, no interior de São Paulo, onde ficou durante vários anos, e no início dos anos 60 prestou concurso e entrou na USP”.  Em 1974, tornou-se professor titular de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Os parceiros do Rio Bonito, de Antonio Candido, em edição publicada pela Editora da USP

A segunda vitrine traz textos de Antonio Candido dedicados ao ensaio e à crítica literária. Segundo Maldonado, ele lança vários escritores. “Ele fez a primeira crítica elogiosa de João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Ou seja, ele é o ‘culpado’ de ter percebido a qualidade desses grandes autores.” Há também várias coletâneas de textos, que ele publicava no Suplemento Literário (1956), caderno de crítica do jornal O Estado de S. Paulo, e em revistas, como Clima e Paralelos.

Memória da Fazenda Bela Aliança, de Edgard Carone, livro esgotado nas livrarias, em que o autor relata o tempo que viveu na fazenda herdada do pai

As colaborações que Antonio Candido desenvolveu ao longo da vida estão na terceira vitrine. São prefácios, apêndices e introduções. Segundo o organizador, o prefácio mais conhecido é o que ele escreveu para Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, que foi publicado na década de 60 pela Editora da Universidade de Brasília (UnB), em que ele cunha o termo “intérpretes do Brasil”. “É nesse prefácio também que Antonio Candido delimita três grandes obras como fundamentais, Casa Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre, o próprio Raízes do Brasil, publicado originalmente em 1936, e Formação do Brasil Contemporâneo (1942), de Caio Prado Júnior.” Outra colaboração foi o prefácio do livro Que Tipo de República?, de Florestan Fernandes, grande amigo de Antonio Candido, publicado em uma época em que ambos estavam vinculados à fundação do Partido dos Trabalhadores (PT).

A quarta vitrine traz a tese defendida em 1954 e publicada em livro dez anos depois, Os Parceiros do Rio Bonito, escrita por Antonio Candido durante pesquisas na Fazenda Bela Aliança, herdada por Carone de seu pai. É na fazenda, localizada em Bofete, no interior paulista, e principal lugar de coleta e desenvolvimento da pesquisa, que Antonio Candido vai se debruçar sobre os meios de vida caipira. Além disso, como relata Maldonado, a tese aborda a questão agrária de uma maneira pouco comum, pensada como problema social. Traz também o livro Memória da Fazenda Bela Aliança (esgotado nas livrarias), escrito por Carone sobre os anos que passou na fazenda, além de algumas fotos.

Criada por um grupo de intelectuais da USP, a revista Clima marcou a crítica paulistana – Foto: Divulgação

Na vitrine cinco estão todas as revistas que Antonio Candido organizou ou com as quais colaborou. Uma das principais é a revista Clima, criada por um grupo de intelectuais da USP, que marcou a crítica paulistana. Publicada entre maio de 1941 e novembro de 1944, teve 16 números, quase todos na exposição, incluindo o primeiro, com prefácio de Mário de Andrade. Outras importantes publicações são a Paralelos, também da década de 40, com Antonio Candido na organização e Carone na direção, e a Argumento, editada nos anos 70 pela Editora Paz e Terra, que circulou até ser cassada pela ditadura militar. Além do grupo da USP, ela trazia como autores a nata intelectual do País, como Otto Maria Carpeaux.

A sexta e última vitrine traz as correspondências que Edgard Carone recebeu de Antonio Candido e da sua esposa, Gilda de Mello e Souza (filósofa, crítica literária, ensaísta e professora da USP), além das dedicatórias nas capas dos livros. Essa vitrine vai além de duas pessoas, como conta o organizador da exposição. “Você consegue enxergar os casais, porque estão presentes a Gilda, esposa de Antonio Candido, e a Flávia, esposa de Edgard Carone”, diz. Como disse a filha de Antonio Candido, Marina de Mello e Souza, em conversas sobre a organização da mostra, “o Carone era de casa” e, em conversas com Maldonado, o filho de Carone, Antonio Candido Carone, dizia ter lembranças do crítico na casa dele. Por isso, a mostra é uma oportunidade para conhecer essa grande amizade entre dois dos mais importantes intelectuais brasileiros.

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A mostra de longa duração Antonio Candido na Coleção de Edgard Carone será inaugurada no dia 18 de setembro, às 19 horas, na Casa do Barão – Museu Republicano Convenção de Itu (Rua Barão de Itaim, 140, centro, Itu, SP), que funciona de terça a domingo, das 10 às 17 horas, com entrada gratuita. Na ocasião acontece palestra e bate-papo (serão emitidos certificados aos participantes). Mais informações pelo telefone (11) 4023-2525, menu 4.

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