Exposição no MAC traz os embates do corpo contra o mundo

Grupo EmpreZa exibe fotos, vídeos e performances que refletem a pressão das instituições sobre o ser humano

 Publicado: 27/09/2021
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Performance Carma Ideológico, do Grupo EmpreZa – Foto: Divulgação/MAC

 

“O corpo nu que se choca contra a parede, independente da orientação, lida constantemente com o mundo. É um corpo que perde sua liberdade no momento de seu nascimento, sendo moldado pelas ideologias. Há um exercício constante, uma batalha incessante contra essa moldagem, quase como um carma que insiste em voltar.” É assim que o Grupo EmpreZa traduz uma de suas performances, Carma Ideológico, que também é título da exposição apresentada pelo Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP. Desde 14 de agosto até 12 de dezembro, o museu expõe uma retrospectiva com registros de performances que o coletivo realiza desde sua criação, em 2001. 

O Grupo EmpreZa (GE) é um núcleo de estudo e pesquisa em performance. Entre suas obras estão produções audiovisuais, mostras fotográficas e happenings (combinações entre as artes visuais e o teatro que envolvem o público com a intenção de chocar ou refletir, contendo críticas sociais). O coletivo nasceu na Universidade Federal de Goiás (UFG), mas reúne artistas de todo o País. São eles: Aishá Kanda, Babidu, Helô Sanvoy, João Angelini, Marcela Campos, Paul Setubal, Paulo Veiga Jordão, Rava e Thiago Lemos.

Carma Ideológico é composta de registros fotográficos e em vídeo das performances realizadas pelo grupo. Durante a mostra, o grupo também fará três performances. Uma delas, a performance Candango, poderá ser vista pelo público na área externa do museu entre os dias 19 e 24 de outubro. As duas outras serão reencenadas para registro em vídeo e disponibilização para o público no mesmo formato.

A exposição empresta o título da primeira performance realizada pelo grupo na Cidade de Goiás. Em Carma Ideológico há um homem nu que se joga contra uma parede de igreja repetidamente. O grupo destaca que o trabalho já foi refeito em diversas ocasiões, em instituições públicas e privadas, instituições religiosas e de Estado. Numa fotografia colocada na entrada da exposição, o corpo se choca contra os pilares do Palácio Gustavo Capanema (antiga Funarte), no Rio de Janeiro, anunciado a leilão um dia antes da abertura da exposição, evidenciando o desmonte cultural que estamos vivendo, de acordo com o coletivo. “Nada mais cármico, para a exposição, do que a constatação de que um trabalho feito há quase 20 anos nos alerte sobre o presente”, ressalta o Grupo EmpreZa, em nota enviada para o Jornal da USP. O conjunto explica que a performance Carma Ideológico reflete a ideia central da formação do coletivo, que se caracteriza pelo uso exaustivo do corpo do performer, pela criação de um estado performático e pela necessidade de fazer desse estado o campo das expressões das memórias inscritas em nossos corpos. “Tais memórias se relacionam com experiências singulares de cada um de nós e que se enlaçam na composição deste coletivo. Desastres, dores, esmagamentos, embates e tensões que perpassam a história de um Brasil colonial e um Brasil contemporâneo, atravessando nossos corpos”, afirma o Grupo EmpreZa na nota.

Performance Impenetrabilidade, do Grupo EmpreZa – Foto: Divulgação/MAC

As performances do Grupo EmpreZa têm como um dos seus principais pilares os limites do corpo. Mesmo sendo uma unidade frágil, é extremamente resistente. O grupo considera que as manifestações artísticas dele elevam essa resistência corporal ao extremo. Durante as performances, há uma relação de catarse (trazer à consciência do indivíduo as emoções ou os sentimentos reprimidos) entre o coletivo e o público. Essa relação pode gerar vários significados, segundo o grupo. “Acreditamos nos infinitos desdobramentos do trabalho.” Por meio de relatos e conversas com as pessoas que assistem e interagem com as performances, o grupo recebe outras perspectivas de seus trabalhos de maneira que ele se expande. 

A origem da mostra são os trabalhos do coletivo que apresentam registros de performances que lidam com o embate entre corpo e instituição, em suas diversas camadas, conforme descrevem os membros do conjunto. Para eles, a própria ideia de carma surge da constatação de que o indivíduo nasce sob a pressão das ideologias e que o corpo está sempre em batalha com essas ideologias. Esse campo de disputas entre corpo e sociedade é fundamental na produção do Grupo EmpreZa. Na mostra, o corpo se choca contra instituições, o Estado, religião, direitos trabalhistas, estatutos, censura, nudez, o outro, constatando um traço cíclico ou cármico das ideologias que regem as sociedades.

“A exposição lida com questões candentes da contemporaneidade e tem potencial de mobilizar o público à reflexão crítica e ao questionamento”, destaca a professora Ana Magalhães, diretora do MAC. Ela conta que, ao longo de sua história, o MAC foi um museu comprometido com as novas formas de manifestações artísticas e os novos meios e processos artísticos. “Isso está no cerne do MAC, como um museu experimental e universitário”, relata a diretora. “Ter o Grupo EmpreZa neste momento é também reafirmar esse caráter e dar visibilidade para uma forma de manifestação (a performance) que, embora presente no acervo do museu, merecia atualização e apresentação de novos grupos, principalmente, de caráter experimental.” 

Performance Bodystorm, do Grupo EmpreZa – Foto: Divulgação/MAC

 

O grupo já esteve em São Paulo algumas vezes, em eventos e exposições coletivas, como na mostra Rumos Itaú Cultural (2009) e no Festival Verbo, e marcou presença como conjunto premiado na exposição do Prêmio Marcantonio Vilaça, em 2015, no MAC. Porém, é a primeira vez que os trabalhos do Grupo EmpreZa são expostos na cidade de forma individual. A equipe de performance comenta que exibir Carma Ideológico é necessário para a discussão entre corpo e instituição no momento político em que há desmonte da cultura no País. “É uma exposição muito relevante na história do coletivo, pois estamos há 20 anos produzindo e enfrentando todo um sistema de apagamento na produção de arte não sudestina”, destaca o grupo no texto enviado ao Jornal da USP.

A exposição Carma Ideológico fica em cartaz até 12 de dezembro, de terça-feira a domingo, das 10 às 19 horas, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP (Avenida Pedro Álvares Cabral, 1.301, Ibirapuera, em São Paulo). Grátis. É necessário o agendamento neste site.


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