Exposição exibe a relação entre ribeirinhos e o Rio São Francisco

Mostra fotográfica será aberta nesta quinta-feira, dia 9, às 14 horas, no Instituto de Estudos Avançados da USP

Por - Editorias: Cultura
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Índios xokós, que habitam as margens do Rio São Francisco, em Sergipe – Foto: Michele Amorim Becker

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A partir desta quinta-feira, dia 9 de agosto, o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP recebe em seu saguão a exposição de fotografias 
O Homem e o Rio: Histórias de Índios e Quilombolas do Baixo São Francisco. Organizada pelo grupo de pesquisa Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do IEA, a mostra, que fica em cartaz até 6 de setembro, tem curadoria de Michele Amorim Becker, jornalista, pesquisadora e professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

As fotos, feitas por Michele Amorim Becker e Evaldo Becker, também professor da UFS, são resultado de uma pesquisa feita a partir de 2012 na Comunidade Indígena Xokó, de Porto da Folha, e na Comunidade Quilombola de Resina, de Brejo Grande, localizadas em Sergipe, no Baixo Rio São Francisco. Financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), tratou-se de um estudo sobre ética socioambiental.

Mulheres quilombolas dançam maracatu durante romaria feita no Dia de São Francisco – Foto: Michele Amorim Becker

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Atividades variadas das comunidades tradicionais ribeirinhas são retratadas nas 15 fotos da exposição. Uma delas mostra o cacique xokó com guerreiros indígenas, tirada durante a Festa de Retomada da Terra, comemorada todos os anos em 9 de setembro. Nesse dia, eles abrem a comunidade para visitas, recebendo pessoas de Sergipe e de Alagoas. Em outra, um grupo de mulheres quilombolas dança maracatu, durante uma romaria feita no Dia de São Francisco, em 5 de outubro de 2014, até a foz do rio. 

Além de fotos das comunidades, há também imagens do próprio Rio São Francisco e das paisagens que o envolvem. A barragem da Usina Hidrelétrica de Xingó, um marco histórico importante para as comunidades, inaugurada em 1994, é uma das intervenções humanas na natureza ribeirinha que estão presentes na exposição. Por causa dela, a vazão do rio vem diminuindo desde 2013, passando de 1.300 m³ para menos da metade, 550 m³, o que provocou uma série de interferências nessas comunidades e no rio, assim como a invasão do mar em seu leito.

Paisagens do Rio São Francisco e aspectos da vida ribeirinha serão mostrados na exposição – Fotos: Evaldo Becker e Michele Amorim Becker

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A partir da barragem do Xingó, o espectador é convidado, através das imagens, a percorrer o Rio São Francisco até sua foz, passando pela Comunidade Indígena Xokó e pela Comunidade Quilombola da Resina. No final, desemboca em uma emblemática imagem do Farol do Cabeço, que fica no antigo povoado do Cabeço, a última comunidade ribeirinha localizada no lado sergipano da foz do Velho Chico, também compartilhada pelo Estado de Alagoas.

A imagem foi tirada quando ainda havia uma faixa de areia pela qual era possível chegar ao farol. Nela, um pescador da Comunidade Quilombola da Resina pula do alto da construção metálica branca e enferrujada. “Ele subiu, foi no alto do farol, disse que ia pular e pulou”, apesar do perigo iminente de fazer isso. “Eu fiquei embaixo e pensei: ‘Se ele vai pular, eu vou fotografar'”, relata a pesquisadora. Depois da construção da barragem, o mar entrou no leito do rio, fazendo com que o povoado fosse retirado para uma localidade a dois quilômetros da margem do rio.

Ao longo da exposição, as fotografias são atreladas a textos de pensadores que foram importantes para a pesquisa e a depoimentos de membros das duas comunidades, coletados durante a pesquisa por Michele Becker. Além disso, estão presentes documentos como a Carta Xokó, redigida pelos índios xokós no Seminário Culturas e Histórias dos Povos Indígenas, do qual tiveram a oportunidade de participar na UFS, em 2013.

Mesa-redonda

Uma mesa-redonda com a participação de Evaldo e Michele Becker acontece na abertura da exposição, às 14 horas desta quinta-feira, dia 9. A proposta, em sintonia com a exposição, é tratar da relação entre o homem e o rio, abordando principalmente as comunidades do Baixo Rio São Francisco retratadas na exposição. Evaldo vai falar, com uma abordagem filosófica, sobre a questão da ética em conflitos socioambientais por causa do uso da água, tema que ele vem pesquisando há anos no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da UFS.

Já Michele vai tratar da comunicação de riscos e participação das comunidades, discutindo “se é possível e o que está faltando para essas comunidades participarem dos processos de decisão”. Ela diz que esse direito é garantido a esses povos pela Constituição e pela Resolução 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil.

As fotografias que serão mostradas na exposição foram emolduradas por índios xokós – Foto: Michele Amorim Becker

.“Eles não têm opinião nenhuma, muitas vezes nem sabem o que está acontecendo, apesar de estarem muito mais mobilizados do que na época em que se discutia a transposição”, explica. Hoje os ribeirinhos participam de associações,de movimentos sociais, mas, no momento de tomada de decisão, a opinião do especialista ou gestor tem mais importância do que a das pessoas que vivem nas comunidades, ela acrescenta.

“Sobretudo agora, em que a água já está sendo transposta, é salutar ficar atento para verificar se todos os riscos e impactos que foram apresentados no estudo de impacto ambiental do projeto realmente estão se apresentando e com que gravidade isso vem acontecendo, se é maior ou menor do que se esperava”, comenta Michele .

Histórico

Uma primeira versão da exposição a ser inaugurada no IEA foi apresentada na Université du Québec à Trois-Rivières, no Canadá, em 2015, quando Michele fazia o doutorado-sanduíche e Evaldo, o pós-doutorado, em Quebec. Com outros dois artistas daquela universidade, Javier Escamilla e Lorraine Beaulieu, eles participaram da exposição Les Rivières et des Hommes, cuja temática envolvia a relação do ser humano com o rio, tanto da perspectiva brasileira, com o São Francisco, quanto da canadense, com o rio Saint-Maurice, importante na região.

Uma exposição mais ampla também foi feita no Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia de 2016, que aconteceu na UFS. Agora, eles trazem a mostra para o IEA, com as fotografias emolduradas por Yatan e Inajar, índios xokós. Utilizando um pirógrafo, os artesãos cravaram na madeira traços representando os desenhos que os membros de sua comunidade utilizam no corpo em ocasiões especiais, como rituais e festas.

A exposição fotográfica O Homem e o Rio: Histórias de Índios e Quilombolas do Baixo São Francisco fica em cartaz a partir desta quinta-feira, dia 9, até 6 de setembro, de segunda a sexta-feira, das 8 às 18 horas, no saguão do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP (Rua da Praça do Relógio, 109, térreo, Cidade Universitária, em São Paulo). A mesa-redonda homônima, com Michele Becker e Evaldo Becker, acontece nesta quinta-feira, dia 9, às 14 horas, na Sala Alfredo Bosi do IEA. Entrada grátis. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3091-8677.  

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