Ex-orientanda de Antonio Candido mostra os caminhos do humanista

No centenário do mestre, a professora Adélia Bezerra de Meneses destaca a obra e o legado de um educador ímpar

Por - Editorias: Cultura
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Atrás, em pé: Antonio Candido, Salete Cara, Adelia Bezerra de Meneses, Gilda Mello e Souza, João Alexandre Barbosa, Ana Mae Barbosa, Ismael Cintra e Berta Waldman; na frente, sentadas: Norma Goldstein e Marisa Lajolo – Foto: Acervo pessoal de Adélia Bezerra de Meneses

“Antonio Candido não é um professor com o qual se aprendia apenas em sala de aula: a sua presença irradiante sempre extrapolou o acadêmico e o literário. Cruzar seu caminho com o dele é erigir um paradigma para a vida.” Em entrevista ao Jornal da USP, a professora Adélia Bezerra de Meneses, do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, traz o cotidiano do professor Antonio Candido (1918-2017) na sala de aula. E compõe o retrato não só do educador, mas também do humanista, do professor sempre generoso e afetuoso, que completaria 100 anos nesta terça-feira, dia 24 de julho.
Adélia faz questão de mostrar uma foto, mantida em seu arquivo pessoal, de um grupo de orientandos de Antonio Candido, com os professores João Alexandre e Ana Mae Barbosa. “Nós nos reuníamos anualmente em torno do mestre, com a presença de dona Gilda”, lembra. “Ela era chamada assim, na USP, não como ‘professora’ Gilda, mas como ‘dona’ Gilda mesmo, com uma infinita dose de reverência e carinho.”
Para esses orientandos de Antonio Candido essa imagem tem um valor documental e afetivo. “Saíamos desses encontros ‘crescidos de coração’, como disse Chico Buarque.” A professora, crítica literária e escritora se refere à canção Assentamento. Importante lembrar que Adélia Bezerra de Menezes é uma estudiosa da obra de Chico Buarque. Lançou vários livros sobre o compositor. Um deles, Desenho Mágico – Poesia e Política em Chico Buarque, ganhou o Prêmio Jabuti. “Essa publicação é minha tese de doutorado. Precisava ser alguém como Antonio Candido para aceitar, como objeto de tese, um autor contemporâneo, aliás, da mesma idade da doutoranda. “O professor me chamava, brincando, de ‘chicóloga’. Foi esse endosso do orientador que abriu as portas da academia à magnífica obra de Chico Buarque.”

“Quando eu morrer, que me enterrem na
beira do chapadão
contente com minha terra
cansado de tanta guerra
crescido de coração”

A sensação era exatamente essa. Sob a orientação de Antonio Candido, todos que estão na foto, crescidos de coração, trilharam com dedicação os caminhos da literatura e da arte, divulgando e pesquisando a cultura brasileira.

“Penso no olhar cálido que ele dirigia aos seus semelhantes e ao mundo, e que contagiava. Sua generosidade não era apenas voltada para as pessoas individualmente consideradas, mas se estendia ao ‘outro’ ampliado.”

“Pode parecer estranha essa tônica no topos do afeto porque, sendo ele um intelectual brasileiro de tamanha envergadura e um professor com poderosa vocação de educador, era de se esperar um testemunho na linha do crescimento intelectual que Antonio Candido propiciava aos seus alunos”, observa Adelia. “Pois bem, isso era inequívoco, bem como o fato de que inevitavelmente se estabelecia entre ele e seus estudantes uma relação afetiva.”

Adelia lembra da postura cuidadosa de Antonio Candido. “Penso no olhar cálido que ele dirigia aos seus semelhantes e ao mundo, e que contagiava. Sua generosidade não era apenas voltada para as pessoas individualmente consideradas, mas se estendia ao ‘outro’ ampliado, ele pensava o indivíduo também no recorte da sociedade.”

Nesse contexto, o professor deixava clara a sua postura política pontuada pela preocupação com o social. “Daí seu empenho para intervir nas estruturas, tendo participado, não por acaso, da formação de dois partidos políticos de viés socialista: o Partido Socialista, em 1947, e o Partido dos Trabalhadores, em 1982”, afirma. “No entanto, essa sua preocupação com o social nunca se traduziu em qualquer panfletismo e, avesso a qualquer conteudismo, em seu manejo com a literatura ele apontava nela antes de mais nada sua ‘eficácia estética’.”

A professora Adélia Bezerra com o mestre Antonio Candido em 2003 – Foto: Acervo pessoal de Adelia Bezerra de Meneses

A Maria Antonia foi o espaço das grandes transformações interiores das gerações que por lá passaram, cerne e foco das nossas utopias, e daquilo que Antonio Candido chamou de “pensamento radical”

“Eram os anos tensos e intensos da década de 60, carregados de esperanças e utopia. Efetivamente, antes do dramatismo de se tornar, em 1968, o lugar onde aconteceu a batalha simbólica da esquerda e da direita (USP versus Mackenzie), a Maria Antonia foi o espaço das grandes transformações interiores das gerações que por lá passaram, cerne e foco das nossas utopias, e daquilo que Antonio Candido chamou de ‘pensamento radical’.”

A professora guardou a foto de um muro pichado, em 1968, no pátio do Grêmio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP. “Essa imagem diz muito do clima que se vivia. Registra o papel histórico que, um tanto confusamente, achávamos que a Universidade devia desempenhar. Ou seja: denunciar as injustiças. Interiorizado, esse escrito se imprimiu a ferro e fogo nos corações de muitos de nós. Isso tudo tem a ver com Antonio Candido, o mestre da Maria Antonia.”

Pichação em muro do pátio do Grêmio da Maria Antonia, na década de 60 – Foto: Acervo pessoal de Adelia Bezerra de Meneses

É em ocasiões como essa, em que se ativa a memória em torno de uma pessoa significativa, que a gente assegura a manutenção de certos valores – pelos quais se vive e pelos quais se morre.

“As múltiplas homenagens que estão sendo realizadas para homenagear os 100 anos de Antonio Candido é uma oportunidade de se transmitir às novas gerações o seu legado. É como a transmissão de uma chama, que passa de mão em mão sem se apagar, e isso é uma das figurações de uma utopia que não morre”, observa a professora. “É em ocasiões como essa, em que se ativa a memória em torno de uma pessoa significativa, que a gente assegura a manutenção de certos valores – pelos quais se vive e pelos quais se morre. E ao mesmo tempo busca-se combustível para a continuidade da reflexão e da ação. Homens como Antonio Candido ajudam na aventura humana.”

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