Ex-estudantes da USP encenam peça gratuita em São Paulo

Em cartaz em diferentes locais da cidade, grupo se apresenta em um espaço móvel, todo feito de bambu

Por - Editorias: Cultura
Uma das construções utilizadas pelo Teatro Popular Casa de Bambu em suas apresentações – Foto: Edson Luna / Teatro Popular Casa de Bambu

.
O grupo Teatro Popular Casa de Bambu está em cartaz, em São Paulo, com a peça
A ProvaFormado na USP, o coletivo é conhecido por se apresentar em um espaço móvel, todo feito de bambu. Ele se apresenta nos próximos finais de semana de junho, em diferentes espaços da cidade (confira abaixo os horários e locais). A entrada é sempre gratuita.

Baseada na obra É isto um homem?, do escritor italiano Primo Levi (1919-1987), A Prova conta a história vivida pelo autor enquanto era prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz, mantido pelo regime nazista da Alemanha. O roteiro gira em torno de um teste de química a que Primo Levi é submetido. Se for aprovado nesse teste, ele será direcionado para o setor de limpeza do campo de concentração, mas, em caso de reprovação, seu destino será a câmara de gás. Químico de profissão, o protagonista começa a questionar o procedimento pelo qual está passando, desenrolando uma série de acontecimentos.

O espetáculo, que conta ainda com outros dois personagens – o fiscal e o chefe -, discute questões muito presentes na atualidade, como as relações de poder. “É uma hierarquia clara, e no desenrolar da história essas relações se invertem a partir de uma superioridade intelectual do prisioneiro em relação ao seus algozes”, explica João Attuy, um dos atores e fundadores do grupo. Justamente por conter paralelos com a realidade, a peça está em constante recriação. De acordo com a diretora Vera Lamy, “a dramaturgia sofre constantes modificações, para trazer uma relação com a atualidade e com a realidade brasileira. É um processo em andamento”.

A história do Teatro Popular Casa de Bambu começou na Escola de Arte Dramática (EAD) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, como conta Attuy. “O grupo surgiu como uma ideia minha e do meu colega de curso Elton Santos. O objetivo era construir um teatro itinerante, espaço que a gente conseguisse desmontar e onde pudéssemos executar as nossas apresentações.” Ícaro Rodrigues, na época estudante de Letras, completou o trio de atores da trupe.

Feito de bambu, a construção usada pelo grupo se inspira em técnica desenvolvida por nômades da Mongólia – Foto: Edson Luna / Teatro Popular Casa de Bambu

.
O primeiro passo foi idealizar um espaço onde as peças seriam encenadas. “Queríamos um material que fosse resistente e leve”, conta João. Depois de muita pesquisa sobre bioconstrução, eles se depararam com o livro Manual do Arquiteto Descalço (2004), de Johan van Lengen, que despertou o interesse pelo bambu. “A construção que temos se chama
yurt e é desenvolvida pelos nômades da Mongólia. Adaptamos o tamanho e o material, já que originalmente o espaço é menor e de madeira.”

Com o palco pronto, começou a discussão em torno da obra. “Eles me convidaram  para o projeto e começamos uma pesquisa sobre o teatro produzido na América Latina. Convidamos então a Silvana Garcia, que encontrou o texto do Primo Levi adaptado para o teatro pelo uruguaio Carlos Rehermann, traduziu esse texto e nos trouxe”, explica Vera.

Todos os membros do projeto estudaram na USP e as primeiras apresentações ocorreram na Cidade Universitária. “O período na Universidade foi importante para a gente conseguir planejar as ações e refletir sobre os conceitos do trabalho”, conta Ícaro Rodrigues, que complementa: “A primeira leva de bambus, por exemplo, a gente colheu na USP, fizemos tudo lá”.

O grupo virou efetivamente itinerante quando, em 2015, foi contemplado pelo Edital Proac, da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. Para Rodrigues, essa proposta de teatro ressalta a importância de a USP sair de seu espaço para ir ao encontro da sociedade. “O teatro de rua geralmente chega em um espaço público e se estabelece ali. Neste caso, o bambu é vazado, para que as pessoas que passam pela rua também consigam ver, entender e se sintam convidadas a participar.”

Os atores do grupo Teatro Popular Casa de Bambu – Foto: Edson Luna / Teatro Popular Casa de Bambu

.
Atualmente, o grupo se apresenta em diversos locais da cidade, mas o foco é atingir aqueles que normalmente não são contemplados pela arte. “A realização completa desse projeto só se deu quando saímos do centro e fomos para a periferia”, explica João. O projeto é apresentado, por exemplo, nos Centros de Artes e Esportes Unificados (CEUs), o que, para Ícaro Rodrigues, é de grande importância. “Às vezes, conversando com alunos e professores, percebemos que os assuntos da peça têm desdobramentos em sala de aula.”

Mais informações sobre o Teatro Popular Casa de Bambu estão disponíveis na página do grupo.

Grupo se apresenta nos finais de semana de junho

O grupo Teatro Popular Casa de Bambu apresentará a peça A Prova nos próximos finais de semana de junho, em diferentes locais de São Paulo. O espetáculo é gratuito, tem indicação livre e dura 60 minutos. Confira abaixo os horários e locais de apresentação:

Dia 8, às 10 e às 14h30, e dia 9, às 18 horas, no Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso (Avenida Deputado Emílio Carlos, 3.641, Vila Nova Cachoeirinha, São Paulo).

Dias 15 e 16, às 11 horas, na Biblioteca Gilberto Freyre (Rua José Joaquim, 290, Sapopemba, São Paulo).

Dia 19 de junho, às 10 e às 15 horas, no Centro Educacional Unificado (CEU) Caminho do Mar (Avenida Engenheiro Armando de Arruda Pereira, 5.241, Vila do Encontro, São Paulo).

Dias 29 e 30, às 16 horas, no Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes (Rua Inácio Monteiro, 6.900, Conjunto Habitacional Sítio Conceição, São Paulo).

Textos relacionados