Evento destaca movimentos contra ditaduras no Brasil

Neste sábado, no Memorial da Resistência, em São Paulo, encontro vai mostrar exemplos de oposição ao arbítrio

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Movimento de resistência contra o custo de vida durante a ditadura militar – Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo

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Mostrar como a sociedade civil não ficou inerte diante das imposições de regimes totalitários e autoritários do século 20 é o objetivo da Jornada Educativa Vozes da Resistência no Brasil: Nazismo, Neonazismo e Ditaduras, que acontece neste sábado, dia 1º de setembro, no Memorial da Resistência, em São Paulo. O evento é promovido pelo Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer) do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, em parceria com a B’nai B’rith e o Goethe-Institut de São Paulo, e vai discutir os movimentos de contestação que contaram com o apoio de partisans (guerrilheiros políticos), estudantes, operários, trabalhadores rurais e distintas comunidades oprimidas (negros, judeus, intelectuais, artistas, cientistas, jornalistas), que se levantaram contra a censura e a violência institucionalizada.

Edição do boletim Maria Quitéria, do Movimento Feminino pela Anistia, de 1977, confiscado como prova de “crime político” durante a ditadura militar – Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo

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As Jornadas Educativas – realizadas de 2002 a 2014, em parcerias com várias instituições e com a Secretaria Municipal de Educação – agora são retomadas e direcionadas para educadores, com dois objetivos: divulgar conteúdos pedagógicos para o ensino fundamental, médio e acadêmico e tornar conhecidas as pesquisas do Núcleo de Estudos Arqshoah -Vozes do Holocausto, mantido pelo Leer, visando a combater os discursos de ódio em circulação e a conscientizar os educadores para fundamentar suas aulas em pesquisas, além de fortalecer a democracia em curso.

Cartão de Registro e Nacionalidade de Rosa Helena Bodansky, emitido pelo Movimento Áustria Livre – Foto: Acervo particular/Arqshoah/Leer-USP

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A conferência de abertura, Intolerância reciclada: antissemitismo, xenofobia e neonazismo – Ações pedagógicas de resistência, será ministrada pela professora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Leer. Na palestra, a professora vai trazer para a atualidade os movimentos de repressão. “Vamos mostrar o crescimento de partidos de extrema-direita, e como representantes dos movimentos neonazistas voltaram a ocupar as ruas não só na Europa, mas também nos Estados Unidos e no Brasil”, relata, citando lugares em que há registros de violência praticada por neonazistas, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo ela, são registros que estão nos arquivos policiais, com mapeamentos atualizados.

Charges e recortes de jornais de oposição à ditadura militar confiscados e arquivados pelo Deops – Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo

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Na sequência, “Levem adiante aquilo que começamos”: a resistência da Rosa Branca ao nacional-socialismo será o tema da palestra de Yasmin Cobaiachi Utida, que vai falar sobre o movimento que surgiu em junho de 1942, na Alemanha, quando um grupo de estudantes alemães começou a distribuir panfletos contra o regime nazista. Atuante em Munique e Hamburgo, é o mais conhecido movimento de oposição ao regime em atuação durante o Terceiro Reich. Também será exibido o documentário Os Resistentes – Testemunhas da Rosa Branca (Alemanha, 2008), com direção e produção de Katrin Seybold, com diálogos em alemão e legendas em português traduzidas por Yasmin – resultado da sua dissertação de mestrado em Germanística na FFLCH, apresentada em dezembro de 2016. Segundo a professora, esse é um “exemplo magnífico” de como um curso de tradução pode levar para a sala de aula uma temática tão relevante. “É importante conscientizar os alunos não só para discutir, analisar e traduzir, mas também para fazer uma reflexão”, diz.

A Arte do Protesto Contra o Nazismo, óleo de Lise Forell (1924-2018) – Foto: Arqshoah/Leer-USP

.Reação armada e intelectual

A palestra Resistência antinazista nas comunidades de língua alemã no Brasil (1933-1945), de Raissa Alonso, mestranda em História Social na FFLCH, vai abordar três grandes movimentos – Áustria Livre, Pró-Alemães Livres e França Livre -, a partir de uma documentação praticamente inédita, segundo Maria Luiza. “A ideia é mostrar como o Brasil não ficou alheio a esses protestos antifascistas e antinazistas, vindos das comunidades de refugiados que já estavam fugindo da repressão na Europa e que, chegando aqui, na década de 40, articularam intelectuais, ativistas e artistas”, conta a professora.

Mostrar como, durante o Holocausto – a matança de 6 milhões de judeus pelo nazismo -, cidadãos comuns e grupos judaicos se organizaram e conseguiram formar frentes de combate ao regime nazista é assunto da palestra O legado dos partisans: histórias de coragem, resistência e cidadania, a ser ministrada pela professora Blima Lober, do Programa de Pós-Graduação em Estudos Judaicos da FFLCH. Maria Luiza conta que alguns partisans que lutaram contra o nazismo vieram para o Brasil e foram entrevistados pela equipe do núcleo Arqshoah. “São histórias de personagens reais que vivem na sociedade brasileira, com relatos interessantes para serem divulgados nas salas de aula”, afirma. Alguns depoimentos já foram publicados na coleção Vozes do Holocausto (Editora Maayanot) e está previsto o lançamento, ainda neste ano, de mais dois volumes.

Intelectuais nas frentes de resistência contra a ditadura militar: edição da revista Novos Estudos, do Centro Brasileiro de Planejamento (Cebrap), confiscada pelo Deops – Foto: Proin/USP-Arquivo Público do Estado de São Paulo

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O cartunista mineiro Henfil (1944-1988), um dos grandes representantes da resistência à ditadura no Brasil, colaborador do semanário O Pasquim e um dos ícones do combate ao regime militar por meio da sátira e do humor, será assunto do professor Marcos Silva, do Departamento de História da FFLCH. Ele é autor do livro Rir das Ditaduras – Os Dentes de Henfil (Fradim – 1971/1980), volume integrante da Coleção Entr(H)istória, responsável por publicar títulos de professores vinculados ao Programa de Pós-Graduação em História Social da USP. Segundo Maria Luiza, também é importante desconstruir a ideia de resistência apenas armada. “Têm aqui um papel fundamental os intelectuais e artistas que se posicionaram contra os movimentos de repressão através de suas obras, como pinturas, esculturas, ensaios e crônicas.”

Encerrando a jornada, o tema Movimento(s) negro(s) na ditadura militar será abordado por Karin Kössing, do Projeto Integrado Arquivo do Estado/Universidade de São Paulo (Proin). A partir de um projeto de iniciação científica realizado no arquivo do Deops, foram descobertos muitos documentos sobre o movimento negro no Brasil. Entre os prontuários, foram localizados ativistas fichados na época da ditadura militar como subversivos da ordem, comunistas e perigosos para a segurança nacional. Segundo Maria Luiza, a pesquisadora chegou à conclusão de que não há um único movimento. “São várias frentes articuladas por diferentes ativistas com ideários diferenciados”, conta a professora. A palestra ainda vai abordar, como a própria pesquisadora definiu, a “ideologia do etiquetamento”. Ou seja, como a polícia foi etiquetando esses diferentes grupos, com ações de violência e prisões, tentando fragilizar essas frentes de resistência contra a ditadura.

Recorte de jornal sobre a formação do Movimento Negro Unificado (MNU), de 1978 – Foto: Acervo Deops/SP Arquivo do Estado de São Paulo

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Levar esses temas como sugestões para ações educativas em sala de aula é o grande mérito das Jornadas Educativas, diz Maria Luiza. Segundo ela, é importante trabalhar conteúdos que possam mostrar indignação diante da injustiça, da violência e da violação dos direitos humanos. “A intenção é que esses alunos e professores olhem para o seu cotidiano em busca de exemplos que já aconteceram e que agora podem ser reciclados e reelaborados, mas com objetivo pedagógico.”

A Jornada Educativa Vozes da Resistência no Brasil: Nazismo, Neonazismo e Ditaduras acontece no dia 1º de setembro, das 9h30 às 17h30, no Memorial da Resistência (Praça General Osório, 66, Luz, em São Paulo). O evento é aberto ao público e gratuito. As vagas já estão esgotadas, mas a mesma jornada será realizada na segunda semana de outubro no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Para esse evento, as inscrições já podem ser feitas pelo e-mail leer@usp.br.

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