Evento celebra 30 anos do “Dicionário Musical” de Mário de Andrade

Obra iniciada em 1929 e concluída postumamente 60 anos depois revela o universo musical do modernista

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O Dicionário Musical Brasileiro, de Mário de Andrade – Foto: Divulgação/Casa Mário de Andrade

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“Um dicionário de música que evidencia a influência das manifestações portuguesas e africanas no Brasil, acolhe o emprego de todo o tipo de formas musicais, frases feitas e gírias no cotidiano, registra superstições de instrumentistas, questiona o emprego de termos, ao mesmo tempo em que incorpora colaboração de amigos, é uma obra sui generis, à Mário de Andrade.”

Com essas palavras, a orelha do Dicionário Musical Brasileiro apresenta-se ao leitor. Trabalho robusto, tanto de seu autor quanto da equipe de pesquisadores que se embrenhou em sua edição, concluída em 1989, o volume é tema de palestra neste sábado, dia 30 de março. O evento acontece na Casa Mário de Andrade, dentro do ciclo Livros de Mário de Andrade, no qual obras do modernista são comentadas por especialistas.

Quem vai falar sobre o dicionário é a professora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP Flávia Toni, uma das responsáveis pela edição do tomo. Flávia foi uma das coordenadoras do projeto que trouxe a público o volume, ao lado da folclorista e poetisa Oneyda Alvarenga, discípula do modernista.

Mário começou a reunir material para seu dicionário em 1929, tendo como principais preocupações o nacionalismo e a cultura musical, conforme aponta no texto de apresentação da obra a também professora do IEB Telê Ancona Lopez. “Mário sabia muito bem o que desejava; não permitiria que se perdessem manifestações em vigência fora dos grandes centros, valorizando concomitantemente o registro do passado”, destaca Telê. Segundo a pesquisadora, respeito e interesse amplos, tanto pela cultura erudita quanto pela popular, são traços distintivos das pesquisas feitas pelo modernista.

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Página do Dicionário Musical Brasileiro, de Mário de Andrade – Foto: Reprodução /Dicionário Musical Brasileiro

“Tudo lhe interessa e merece igual respeito”, assinala. “As conclusões dos musicólogos, os estudos de antropologia, as vozes da literatura culta, cancioneiros, a gíria, o depoimento do professor e do caipira, suas descobertas de pesquisador incansável multiplicam as peças deste riquíssimo mosaico montado com fidelidade por Flávia Toni.”

Mosaico é, de fato, um bom termo para falar da documentação reunida por Mário. Foram 3.754 envelopes, cada um dedicado a um verbete, além de mais 110 envelopes complementares com procedimentos de trabalho e outros assuntos. Dentro deles, fichas manuscritas, folhas de cadernetas de bolso, pedaços de papel-ofício, fotografias, cartões-postais, recortes de jornal e páginas destacadas de revistas.

“Quando olho o arquivo e a biblioteca do Mário, vejo que todo o material destinado a entrar no Dicionário Musical Brasileiro estava dentro daqueles envelopes”, lembra Flávia. “Eu não encontro nenhum documento que, eventualmente, ele tenha deixado de fora.”

A professora Flávia Toni, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

O autor de Macunaíma, contudo, jamais deu forma final ao trabalho. Interrompeu definitivamente as pesquisas em 1935, deixando manifesta a vontade de que sua discípula Oneyda Alvarenga assumisse a tarefa, conforme carta escrita em 24 de agosto de 1940. “Ajuntei material que não poderei mais utilizar por inteiro”, escreve Mário. “Aliás, falava outro dia ao Saia (Luís Saia, arquiteto e diretor do Sphan, atual Iphan) sobre deixar meus fichários musicais a você, para você continuá-los e fazer um dia o Dicionário Brasileiro de Música.

Foi o que Oneyda fez mais de 40 anos depois. Em 1982, ela iniciou as pesquisas bibliográficas no IEB, onde se encontram a biblioteca e o arquivo do escritor. A folclorista, entretanto, viria a falecer em 1984, deixando para Flávia a coordenação do projeto, ainda em seu início. A publicação do volume só aconteceria no final da década, em 1989, resultando em um monolito de 700 páginas e cerca de 3.500 verbetes.

“O maior desafio para concluirmos a obra era o fato de ser muito cansativo, fisicamente falando”, revela Flávia. “Naquela época, sem internet, principalmente em torno de 1984 e 1985, era tudo muito braçal. Precisávamos fazer fichas à mão, datilografar, revisar. Muitas vezes tínhamos que datilografar novamente uma porção de coisas.”

O Dicionário Musical Brasileiro, de Mário de Andrade, concebido pelo modernista nos anos 20 e publicado em 1989 – Foto: Reprodução

Segundo Flávia, o tratamento encontrado dentro dos envelopes era desigual, com verbetes mais acabados que outros. Selecionar palavras grafadas de duas ou mais maneiras diferentes – como lundu, londu, landu, calundu – foi outro desafio. Uma preocupação da equipe foi também sinalizar de maneira clara quais textos da edição foram escritos pelo próprio Mário, para que o leitor compreendesse o avanço do autor dentro de cada um dos verbetes.

“A importância do dicionário é, entre outras coisas, mostrar qual o universo de interesses de Mário de Andrade”, reflete Flávia. “Por ali, a gente percebe que ele se interessava pela música do Brasil, pela música africana, pela música de origem indígena. Eventualmente, por alguns aspectos da música de outros países que estavam mais próximos de nós.”

A palestra 30 Anos do Dicionário Musical Brasileiro acontece neste sábado, dia 30 de março, das 16 às 18 horas, na Casa Mário de Andrade (Rua Lopes Chaves, 546, Barra Funda, em São Paulo). As inscrições podem ser feitas neste endereço. Os telefones para informações são (11) 3666-5803 e (11) 3826-4085.

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