Evento analisa relações da música popular e erudita com a política

Encontro ocorre no Instituto de Estudos Brasileiros da USP nos dias 5 e 6 de outubro

Por - Editorias: Cultura
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Aspectos políticos da música ainda são pouco discutidos na academia, acreditam os organizadores do encontro – Foto: Huan777 / Flickr CC

O Laboratório Interdisciplinar do Instituto de Estudos Brasileiros (Labieb) da USP promove ao longo dos dias 5 e 6 de outubro a segunda edição das Jornadas de Estudos Interdisciplinares sobre Música do IEB, com o tema Música e Política. Haverá quatro mesas-redondas, intituladas Música e Feminismos, Música Popular e Política, Música e RevoluçãoDimensões Políticas da Música Contemporânea Brasileira, com exposições de convidados da USP, de outras universidades e de fora do meio acadêmico. Ao final do evento, o Concerto NuSom, do Núcleo de Pesquisas em Sonologia da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, será um momento de produção de música com participação do público.

As jornadas são organizadas por membros do núcleo de pesquisa Música e Ciências Humanas do Labieb, coordenado pela professora Flávia Camargo Toni. Um deles, o pós-doutorando do IEB Pedro Fragelli, explica que o tema do evento tem motivos acadêmicos e sociais. “Escolhemos falar sobre música e política porque acreditamos que os aspectos políticos da música são pouco discutidos no ambiente acadêmico. Geralmente o foco se concentra em questões técnicas, sem que estas sejam articuladas com as questões sociais. Também achamos que seria uma discussão interessante devido ao momento do País, que é, bem ou mal, um momento de polarização; consideramos que seria importante discutir a situação da música nesse contexto.”

Tendo em vista a relevância acadêmica e também as tensões e discussões atuais da sociedade, cada organizador propôs uma mesa. Na primeira, Música e Feminismos, a discussão se dará levando em conta os vários segmentos do movimento feminista. “Decidimos incorporar ao debate o ponto de vista da militância, que tem considerado que há diferentes feminismos. Por exemplo, a luta é uma para uma mulher branca de classe média e outra para uma mulher negra da periferia”, explica Fragelli.

 

A música no atual contexto brasileiro também será tema de discussão no evento do IEB – Foto: Marcos Santos / USP Imagens


Já na mesa sobre Música Popular e Política, o foco será principalmente a canção e as culturas negras. “A periferia é onde o caráter político da música me parece estar mais presente atualmente, principalmente com o rap. Então, com essas duas primeiras mesas, que tratam mais da música popular, mas não somente da música popular, procuramos trazer os movimentos sociais para o debate acadêmico, de modo a estimular a articulação entre a Universidade e a sociedade.”

As outras duas mesas abordam principalmente a música erudita. A mesa de encerramento, Dimensões Políticas da Música Contemporânea Brasileira, contará com dois depoimentos pessoais. O crítico João Marcos Coelho falará como “testemunha ocular da resistência da música nova na ditadura”; por sua vez, o ex-professor da Universidade Estadual de Campinas Livio Tragtenberg relatará sua experiência como “decompositor”.

Na sessão Música e Revolução, haverá exposições sobre a música em diferentes contextos revolucionários.  A primeira delas terá como foco o trabalho conjunto do dramaturgo Bertolt Brecht e do compositor Kurt Weill durante o processo revolucionário na Alemanha, entre 1919 e 1923. Depois, a Nova Canção Chilena e o papel desse movimento artístico no processo político que culminou com a eleição de Salvador Allende no Chile, em 1970. Por fim, com base em um ensaio de Mário de Andrade sobre a música de Dmitri Shostakovich, Pedro Fragelli fará uma exposição sobre como o autor de Macunaíma pensou o caráter revolucionário da música em geral e da música da Revolução Russa em particular.

Para Mário de Andrade, a música é a arte revolucionária por excelência – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens



“Para Mário de Andrade, a música é a arte revolucionária por excelência, isto é, a expressão artística que tem as melhores condições de fazer estourar uma revolução”, explica Fragelli. “Isso se deve, resumidamente, ao elemento rítmico, que move o corpo do ouvinte, produz ‘dinamogenias’. Trata-se do componente dionisíaco, irracional da música, e que tem a qualidade de transformar os indivíduos isolados em uma massa que segue um mesmo movimento. Isso seria o núcleo da força revolucionária da música, para Mário de Andrade.”

Uma vez realizada a revolução, entretanto, outros aspectos da música ganhariam importância, na visão de Mário. “Após o processo revolucionário, é necessário reafirmar e confirmar os valores e as ideias da revolução, de modo que a função política da música implica a valorização de elementos, por assim dizer, mais racionais. A melodia, por exemplo, passa a predominar sobre o ritmo.” De acordo com Fragelli, Mário de Andrade encontrou em certos momentos da obra de Shostakovich a capacidade de fazer música erudita, dentro dos procedimentos da tradição musical burguesa, mas com uma força proletária, ou seja, música erudita que é expressão orgânica das classes populares e dos ideais da Revolução de Outubro.

“Esse texto sobre Shostakovich, que Mário terminou poucos dias antes de morrer, concentra as preocupações principais do pensamento musical andradino em sua fase madura. Elas seriam, fundamentalmente, a função social da música e a possibilidade de interação da música erudita com as classes populares. Para Mário, a própria noção de arte erudita é uma aberração da sociedade burguesa. No socialismo, essa distinção entre música erudita e música popular poderia ser abolida.”

O pós-doutorando do IEB Pedro Fragelli – Foto: Marcos Santos

Após os debates, a apresentação do NuSom, da ECA, tem o objetivo de fazer com que as Jornadas, além de discutir, também produzam música, tornando-se um evento teórico e artístico. “Esse concerto, que não é exatamente um concerto, tem a proposta de quebrar a relação tradicional entre o público e a música, de maneira que o público participe e interaja com a música. Acho que isso condiz com a proposta do evento todo, que é romper, na medida do possível, a barreira entre a Universidade e a cidade”, diz Fragelli.

As Jornadas Interdisciplinares de Estudos sobre Música do IEB acontecem no dia 5 de outubro, das 9h30 às 16 horas, no Auditório 2 do IEB, e no dia 6, das 10 às 16 horas, no Auditório 1 do IEB. Além de Pedro Fragelli, participaram da organização do evento Virgínia Bessa, Camila Frésca, Danila Ávila e Flávia Toni. A apresentação musical do Nusom da ECA será no Espaço das Artes, também no dia 6, das 17 às 18 horas. Ambos os eventos têm entrada gratuita e sem necessidade de inscrição. A programação completa está no site do IEB. O endereço dos auditórios do IEB é Avenida Professor Luciano Gualberto, 78, na Cidade Universitária. O Espaço das Artes fica na Rua da Praça do Relógio, 160, também na Cidade Universitária.

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