Ética artística, o maior legado de Maria Alice Vergueiro

Madrinha do teatro experimental, a atriz sempre esteve na vanguarda das artes cênicas brasileiras

 10/06/2020 - Publicado há 1 ano
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Maria Alice Vergueiro (1935-2020) – Foto: Angelina Walkaman /Flickr

“Eu acho que eu já sou meu epitáfio, ‘paladino do teatro experimental’ pode ser meu epitáfio”, dizia Maria Alice Vergueiro em 2012, brincando com todo o reconhecimento que tinha. Oito anos se passaram, e é chegado o momento de realmente usar essa inscrição, pois Maria Alice, uma das maiores heroínas das artes cênicas brasileiras, morreu no último dia 3, aos 85 anos de idade. Sua vida foi marcada ao mesmo tempo pela rebeldia e pela responsabilidade artística, que agora ficam na memória e servem de inspiração para os que ainda virão. 

Nascida em 1935, filha de fazendeiros, Maria Alice cresceu em uma família de classe média alta, que a sustentou boa parte da vida. Foi só depois de cumprir o papel que esperavam dela, casando-se e tendo dois filhos, que decidiu estudar pedagogia na USP. Os estudos caminharam ao lado da encenação e pouco tempo depois a artista estreava nos palcos, com a peça A Mandrágora, no Teatro Arena, em 1962.

A atriz Maria Alice Vergueiro  – Foto Annelize Tozetto – flickr

Formada no início dos anos 1970, passou a dar aulas na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, no setor de Teatro do antigo Departamento de Cinema, Teatro, Rádio e Televisão. “Não existia um curso de artes cênicas como hoje. A Maria Alice foi uma das pioneiras e talvez nem tenha se dado conta disso”, afirma Luiz Fernando Ramos, professor de teatro da ECA. Algumas alunas de Maria Alice na época, Ingrid Koudela e Maria Lúcia Pupo, se tornaram docentes do atual Departamento de Artes Cênicas, seguindo um caminho que a antiga professora ajudou a trilhar. 

Segundo Ramos, outra experiência que Maria Alice antecipou foi a sintonia de alunos e professores no processo criativo nas aulas e oficinas. “Ela se sentia confortável para fazer parcerias e projetos com os alunos, e foi daí que surgiu a amizade artística que gerou o grupo Ornitorrinco”, diz ele. Desligada da ECA em 1974 – segundo o professor, porque “a Universidade não estava preparada para suas ideias de ensino em plena ditadura” -, ela e dois ex-alunos, Luiz Roberto Galízia e Cacá Rosset, fundaram aquele grupo em 1977.

Maria Alice havia se ligado ao Teatro Oficina, fundado no final dos anos 50 por José Celso Martinez Corrêa. Com o endurecimento do regime civil-militar, nos anos 60, os integrantes do Oficina se exilaram em Portugal e Maria Alice foi junto. “Ela participou de toda essa jornada muito próxima do José Celso, mas voltou antes, realizando, com o Ornitorrinco, a peça Os Mais Fortes, em 1977, que a consagraria como madrinha do teatro experimental”, afirma Ramos. Os Mais Fortes reuniu três peças do dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912) e foi apresentada no porão do Teatro Oficina, que na época sofria forte repressão. 

Foi nesse período que surgiu o apelido “dama do underground” ou “dama dos porões”, referências a Maria Alice, que atuava e dirigia essas produções de madrugada e em ambientes alternativos, escondendo-se dos militares. De acordo com o professor, a encenação de Os Mais Fortes ficou marcada como a retomada de um teatro mais radical, que estava praticamente banido do Brasil desde o AI-5, o Ato Institucional Número 5, de 1968, que inaugurou a fase mais repressiva do regime imposto em 1964. “Até hoje o Teatro Oficina busca essa radicalidade para fora dos formatos burgueses, e a Maria Alice está no coração disso.”

Segundo Ramos, aquele espetáculo também ajudou a consolidar o grupo Ornitorrinco. “Nos anos seguintes, ele caminhou para um estudo de Brecht, com apresentações importantes em que Maria Alice também se destacou muito”, diz ele. Herdeira de uma família aristocrata, ela sempre se colocou nesse lugar mais irreverente para romper de certa forma com seu laço burguês. Katastrophé, de Samuel Beckett, com direção de Rubens Rusch, traz um pouco disso ao utilizar como cenário uma tela preta com um buraco no meio, onde só uma boca aparece e fala sobre um indivíduo que não se mostra. “Esses são exemplos de uma atriz que sempre estava fazendo escolhas mais radicais.”

 

Maria Alice Vergueiro em Why The Horse?, a última peça em que atuou – Foto: Bruno Tadashi – Flickr

Outras peças que representam bem essa época na vida da atriz são Pororoca, que ela fez com Magali Biff, e Eletra Com Creta, dirigida por Gerald Thomas. A atriz chega a fazer experiências na televisão no final dos anos 1980 e depois novamente em 2007, com destaque para Sassaricando, de Sílvio de Abreu, em que contracena com Jandira Martini e Ileana Kwasinski. Também fez alguns filmes, como Romance, de Sérgio Bianchi, e Perfume de Gardênia, de Guilherme de Almeida Prado. Mas seu lugar era mesmo nos palcos, onde continuou marcando presença até o final da sua vida. Why The Horse?, em 2017, foi sua última peça, onde encenava o próprio funeral. 

“O grande legado de Maria Alice é ético, de uma artista que teve a coragem de olhar para uma direção de ruptura com a tradição teatral, comportamental e burguesa, e se manter coerente até o fim”, afirma Ramos, que enxerga Maria Alice como uma guia de sua trajetória como ator e pesquisador. Para ele, além da obra em si, o artista precisa de um eixo que o leve para o novo e para a liberdade. “Ele precisa ter convicções e ir até o fim com elas. Maria Alice tinha isso. Por isso digo que o legado dela vai além do seu trabalho e tem esse caráter da ética artística mesmo.”

Mais sobre Maria Alice Vergueiro

Assista ao documentário Pela Desordem Natural das Coisas, produzido em 2012 por Maria Clara Matos, como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC)  de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.


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