Especialistas discutem o passado e o destino das universidades

Com professores da USP, seminário sobre educação superior acontece nos dias 1º e 8 de dezembro, em São Paulo

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=212111
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Faculdade de Direito, no Largo São Francisco, em São Paulo: fundada em 11 de agosto de 1827, ela foi incorporada à USP em 1934 – Foto: Reprodução via YouTube / USP

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Quais foram as opções das elites dirigentes do Brasil em momentos históricos decisivos, como no pós-Independência, durante o Estado Novo e a partir da Nova República? Em que medida os modelos universitários europeus, ibero-americanos, anglo americanos ou afro-asiáticos inspiraram as diferentes gerações de juristas, médicos, engenheiros, pedagogos, economistas, cientistas e elites dominantes? A educação superior teve impacto na mobilidade social no pós-abolição? Como as políticas de ações afirmativas mudaram o panorama do ensino superior? Considerando o contexto contemporâneo, qual o papel das universidades na constituição de uma esfera pública razoavelmente autônoma, plural e crítica?

A professora da USP Iris Kantor, organizadora do seminário- Foto: Divulgação / Sintsef Ceara via YouTube

Essas são algumas questões que serão abordadas por especialistas em ensino superior, do Brasil e do exterior, no seminário O Destino Não-Manifesto: Projetos de Universidade para o Brasil em Três Tempos: 1822/1922/2022, que acontece nos dias 1º e 8 de dezembro, no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc, em São Paulo. O evento integra o projeto 3 Vezes 22 – que debate questões relacionadas ao processo de criação e consolidação das universidades públicas no Brasil desde a época da Independência até a atualidade –, uma parceria entre a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), a Pró-Reitora de Cultura e Extensão da USP – os três da USP – e o Sesc. Segundo a organizadora do evento, a professora Iris Kantor, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, “este é o primeiro seminário de uma série de eventos culturais ligados à comemoração da Independência do Brasil e à Semana de Arte Moderna, em 1922, projetando para o futuro o que significaram esses momentos na história do Brasil”.

“O seminário vai discutir a questão da formação das elites técnicas em nível superior no Brasil, mostrando por que os fundadores, como José Bonifácio, entre outros, não conseguiram levar adiante o projeto de criação de uma universidade no País”, afirma a professora. “Naquele momento histórico, em 1822, 1823, as elites optaram por criar faculdades específicas, especialmente em Direito e Medicina, em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro”, continua. Serão debatidos quais eram os modelos que essa geração da Independência tinha em mente e quais experiências traziam da sua própria formação. Segundo Iris, os patriarcas da Independência eram  europeizados e tinham frequentado as melhores universidades da Europa e da América inglesa, mas, ainda assim, naquele momento, optaram pela criação de institutos e faculdades isolados em diferentes províncias, e não por uma universidade sediada na capital do Império do Brasil. Entre a década de 1910 e 1920, houve várias iniciativas efêmeras, como foi o caso da Escola Universitária Livre de Manaus (1909) e da Universidade do Paraná (1912), mas foi só na década de 1930, com a fundação da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1931, da Universidade de São Paulo e da Universidade de Porto Alegre, ambas no ano de 1934, que o sistema universitário brasileiro adquiriu vida própria.

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Programação

Abrindo o seminário, no dia 1º de dezembro, às 10h30, será realizada a mesa-redonda “Projetos de Universidade e a condição colonial”, com moderação da professora Iris Kantor. “A primeira mesa aborda a transição da colônia para o estatuto de Estado independente, retomando experiências em Coimbra, por exemplo, e a tentativa de criar seminários de estudos superiores no Brasil no período colonial, além de passar pelo campo da medicina, das ciências jurídicas e das ciências matemáticas, três áreas importantes na conformação desse ensino técnico e superior”, informa a professora. Uma das palestra será O Seminário de Olinda e Ensino de Economia Política em Coimbra, com Nelson Cantarino, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Faculdade de Medicina da Bahia, a primeira do Brasil, fundada em 1808 pelo príncipe regente Dom João – Foto: Wikimedia Commons / Domínio Público

A segunda mesa, a partir das 15 horas do dia 1º, trata das “Experiências e Expectativas: as universidades americanas”, com moderação do professor Gildo Magalhães, docente do Departamento de História da FFLCH e colaborador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. “A discussão é focada nas experiências latino-americanas e norte-americanas”, relata a organizadora, acrescentando que vem ao Brasil o convidado internacional Neil Safier, diretor da John Carter Brown Library e professor da Universidade de Brown, para falar sobre as universidades de Lima (Peru) e Filadélfia (Estados Unidos). Iris ainda destaca a palestra O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova e a Formação Docente em Nível Universitário, com Diana Vidal, diretora do IEB, que vai abordar a formulação do projeto da Escola Nova, movimento voltado para a reforma da educação que se desenvolveu no Brasil entre o final do século 19 e início do 20.

No dia 8 de dezembro, às 10h30, a terceira mesa, “Manifestos modernistas e o Estado Novo: laicidade e acesso”, terá a moderação de Rogerio Siqueira Monteiro, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. Como informa Iris, o debate se volta à questão da formação da universidade e sua relação com a formação de professores, uma das preocupações da Escola Nova, citando a participação dos professores Bruno Bontempi Jr, chefe do Departamento de Filosofia da Educação e Ciências da Educação da Faculdade de Educação da USP, Marieta de Moraes Ferreira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Márcia Consolim, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

No período da tarde, a última mesa discute a “Universidade brasileira entre a ditadura e a Nova República”, com moderação do professor Fernando Almeida. “São questões contemporâneas, que abordam o impacto da ditadura na universidade”, diz Iris, citando a participação do professor Rodrigo Patto Sá Motta, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), autor do livro As Universidades e o Regime Militar – Cultura Política Brasileira e Modernização Autoritária (Editora Zahar). Ainda serão debatidas as ações afirmativas, comparando Estados Unidos e Brasil, com a professora Márcia Lima, do Departamento de Sociologia da FFLCH, e a relação entre a universidade e as teorias do desenvolvimento, pelo professor Alexandre Freitas Barbosa, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.

O seminário O Destino Não-Manifesto: Projetos de Universidade para o Brasil em Três Tempos: 1822/1922/2022 será realizado nos dias 1º e 8 de dezembro, das 10h30 às 17h30, no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc (Rua Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, em São Paulo). As inscrições custam R$ 15,00 e podem ser feitas neste link. Mais informações no site

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