Escritora Edla van Steen morre aos 81 anos

Além de escrever contos, romances e peças de teatro, autora teve atuação destacada no mercado editorial

Por - Editorias: Cultura
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Edla van Steen: “Uma leitora muito arguta”, segundo o professor da USP Marcos Antonio de Moraes – Foto: Reprodução / Acervo pessoal

Morreu nesta sexta-feira, dia 6, a escritora e dramaturga Edla van Steen, em virtude de complicações cardíacas. Ela tinha 81 anos e estava internada há alguns dias em São Paulo, onde vivia há mais de quatro décadas.

Autora de 30 livros, entre romances, contos, entrevistas e peças de teatro, Edla escreveu para adultos e crianças e teve obras publicadas no Brasil e nos Estados Unidos. Recebeu os prêmios Molière e Mambembe e o troféu da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) em 1989, pela dramaturgia de O Último Encontro, seu primeiro texto teatral.

Com o romance Madrugada (1992), foi homenageada com o prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras e o prêmio nacional do Pen Club. Em 2017, ganhou a medalha Cruz e Souza pelo trabalho nas letras brasileiras.

Além da carreira literária, foi colaboradora do jornal O Estado de S. Paulo e atuou na área editorial, sendo responsável por dirigir as coleções Melhores Poemas, Melhores Contos e Melhores Crônicas e a série Roteiro da Poesia Brasileira, com 15 volumes, todas para a Global Editora.

Viver & escrever

Nos anos 80, Edla publicou a série Viver & escrever, que reuniu entrevistas realizadas com 39 autores brasileiros, nomes de primeira grandeza como João Cabral de Melo Neto, Mário Quintana, Rachel de Queiroz e Vinícius de Moraes.

Viver & escrever é um marco do memorialismo brasileiro”, comenta o professor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP Marcos Antonio de Moraes. “Ela fez uma espécie de mapeamento do que era a literatura ou de como se via o mundo literário nos anos 80. Não dá para pensar o que é a experiência do escritor sem pensar na Edla quando vai procurar esses autores.”

Moraes destaca o rigor com que Edla conduzia as conversas do projeto. “Ela marcava uma entrevista com um escritor e levava a máquina de escrever. Ela fazia as perguntas, a pessoa respondia e ela ia datilografando. Ao final, passava o texto para o autor acrescentar, tirar, confirmar informações e assinar.”

Sábato Magaldi

O crítico de teatro Sábato Magaldi, que foi marido de Edla e morreu em 2016 – Foto: Osvaldo J. Santos/Arquivo Jornal da USP

Em anos recentes, Edla dedicou-se a organizar as coletâneas Amor ao Teatro (2014) e Na Plateia do Mundo (2017), reunindo críticas escritas pelo marido e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Sábato Magaldi, falecido em 2016. A dedicação ao companheiro foi registrada em entrevista publicada em dezembro de 2017, no número 68 da Revista do IEB.

“Copidescávamos os textos um do outro”, relatou Edla a Moraes e ao professor João Roberto Faria, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “E eu digitava alguns dele, já que Sábato não chegou a usar máquina elétrica. Preferia a Erica antiga ou a minha Olivetti, e rabiscava em cima. Hábitos de jornalista.”

Em outro trecho da entrevista, a autora comentou a relação do companheiro com sua obra. “Como ele era ocupadíssimo, lia meus livros quando já estavam na prova, e dava sugestões em palavras repetidas ou nas vírgulas. Não vou ser modesta. Ele sempre gostou da minha ficção, dos meus livros Viver & escrever, do meu trabalho na Global, dirigindo várias coleções. A literatura nos uniu.”

Rádio e cinema

Edla nasceu em 12 de julho de 1936 em Florianópolis (SC). Sua mãe lhe rendeu origens alemãs e o pai era belga, cônsul honorário em Santa Catarina. Passou a infância e a adolescência em Curitiba, onde encontrou o primeiro emprego, aos 15 anos: transformava cartas em contos para uma rádio da cidade, criando diálogos e interpretando personagens.

Na década de 50, estrelou o filme Na Garganta do Diabo, de Walter Hugo Khouri, com o qual foi consagrada melhor atriz pela Associação de Cronistas Cinematográficos, Prêmio Governador do Estado de São Paulo e pelo 3º Festival de Cinema de Curitiba. Recebeu também menção especial no Festival Latino-Americano, na Itália. Abandonou o cinema para se dedicar à literatura.

Seu primeiro livro de contos, Cio, foi editado em 1965. Depois dele se seguiram obras como Antes do Amanhecer (1977), Corações Mordidos (1983), Cheiro de Amor (1996) e A Ira das Águas (2004).

“Ela era uma leitora muito arguta”, reflete Moraes. “Ela acompanhava muita coisa que estava acontecendo na movimentação literária do Brasil e conhecia muitos autores, convivia com jornalistas, críticos e professores: era muito bem informada.”

“Pegou-me de surpresa a morte de Edla”, comenta João Roberto Faria, que conviveu com a autora. “A literatura brasileira perde uma das nossas melhores escritoras contemporâneas e eu perco uma amiga de uma generosidade ímpar, que compartilhou comigo os escritos de seu marido Sábato Magaldi quando organizou os dois últimos livros dele.”

Segundo Faria, Edla era uma pessoa culta, alegre e expansiva, que gostava de ter amigos a sua volta. O último contato entre os dois foi na entrevista para revista do IEB, motivada pela doação que a escritora fizera de uma carta inédita de Mário de Andrade a Magaldi. “Gesto de quem tinha apreço pelo nosso patrimônio cultural”, finaliza o professor.

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