Escola de Arte Dramática da USP comemora 70 anos de fundação

Ligada à Escola de Comunicações e Artes, instituição foi criada em 1948 por Alfredo Mesquita

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A Escola de Arte Dramática da USP, na Cidade Universitária – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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O dia 2 de maio marca o nascimento da Escola de Arte Dramática (EAD). Em 2018, a instituição vinculada à Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP comemora 70 anos e, tal qual os atuantes que forma, movimenta-se em múltiplas direções sobre o palco.

Por um lado, a EAD tenta se desviar do açoite da crise financeira que ataca a Universidade e tolheu metade do seu corpo de professores nos últimos cinco anos. O quadro foi enxugado de 20 para dez educadores, com saídas motivadas por aposentadorias e demissões voluntárias. A contratação de artistas convidados, característica do projeto pedagógico da instituição, também foi afetada.

Mesmo com todo esse contorcionismo, a escola insiste em seguir em frente e se prepara para deixar o prédio que divide atualmente com o Departamento de Artes Cênicas da ECA. Segundo a diretora da EAD, professora Sandra Sproesser, a perspectiva é de que a instituição migre para o edifício ao lado, ocupado hoje pelo Departamento de Artes Plásticas. Com a transferência e consequente ampliação do espaço físico, torna-se mais sólido o sonho de ampliação de vagas na escola, um projeto antigo.

“Somos um curso noturno porque nunca tivemos um espaço que nos proporcionasse ter também um curso vespertino”, explica Sandra. Atualmente, a EAD seleciona a cada ano 20 estudantes para um curso de nível técnico com duração de quatro anos, realizado no período noturno. “O curso de Artes Plásticas está indo para onde era o Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP e a gente vai ocupar o prédio junto com o curso de Música”, relata a diretora. “Talvez daqui a dois anos nós possamos ter também um curso vespertino.”

A diretora da Escola de Arte Dramática, professora Sandra Sproesser – Foto: Thales Figueiredo/Jornal da USP

Se o aumento de vagas é um desejo que ainda precisa do estalar de dedos do gênio, a expansão social da escola já é realidade. Neste ano a EAD inaugurou sua política de cotas, reservando vagas para pretos, pardos e indígenas (PPI).

“A chegada à Universidade e à EAD de alunos desses estratos sociais traz mudanças radicais para o funcionamento da escola e para sua perspectiva pedagógica”, reflete o vice-diretor da instituição, professor José Fernando de Azevedo. O professor considera que a instauração das cotas representa a mudança mais radical vivida pela EAD nos últimos anos e ressalta o fomento do debate sobre a presença de negros, pardos e indígenas nas artes como uma de suas principais contribuições.

Azevedo acredita, contudo, que o principal debate trazido pelas cotas não é a simples entrada desses grupos na instituição. “A discussão neste momento é menos a chegada desses alunos à escola, mas, sobretudo, as condições de permanência deles a partir das exigências que uma escola como esta coloca.”

Com essas questões em cena é que a EAD planeja as atividades do septuagésimo aniversário. De acordo com Sandra, as comemorações acontecem ao longo dos dias 2, 3 e 4 de maio e conjugarão festa com fóruns de reflexão envolvendo estudantes, professores e profissionais das artes cênicas.

“Nós temos uma história que se renova e se repensa”, comenta a professora Silvana Garcia – Foto: Thales Figueiredo/Jornal da USP

Junta-se ao debate a recente proposta de extinção do registro profissional e consequente desregulamentação da atividade de artistas e técnicos da cultura, fruto da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 293, pleiteada pela Procuradoria Geral da República. A proposta causou reações negativas na categoria e gerou um ato no dia 16 de abril.

“Nós temos uma história que se renova e se repensa, sempre em conexão com o momento da produção, com o momento em que o teatro se encontra na cidade de São Paulo, no Brasil e no mundo”, comenta a professora da EAD Silvana Garcia.

Questionamento e pensamento crítico

A EAD surgiu em 1948, por iniciativa de Alfredo Mesquita (1907-1986), como uma instituição particular voltada à formação de atores. Durante os primeiros 20 anos foi dirigida por seu fundador, que também arcou com a maior parte de suas despesas. Nessas duas décadas, ocupou diversos locais da cidade, como o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.

Nascido na família de proprietários do jornal O Estado de S. Paulo, Mesquita era figura assídua nas salas de espetáculo paulistanas. Participou de cursos de Artes Cênicas nos Estados Unidos e na França e se dedicou à literatura e à produção de textos dramáticos. Foi em 1942 que fundou o Grupo de Teatro Experimental (GTE), trupe amadora empenhada em realizar trabalhos distanciados do teatro comercial de então. Foi com o GTE que Mesquita se convenceu da necessidade de uma escola de formação de atores.

O vice-diretor da Escola de Arte Dramática, professor José Fernando de Azevedo – Foto: Thales Figueiredo/Jornal da USP

Conforme relata o professor da ECA Armando Sérgio da Silva no livro Uma Oficina de Atores – A Escola de Arte Dramática de Alfredo Mesquita, o teatro profissional da época era dominado por interesses comerciais e subordinado às grandes estrelas, como Procópio Ferreira, Dulcina de Moraes e Jaime Costa. A maior parte de seu repertório era composto de peças ligeiras, com esquemas dramatúrgicos fáceis e uma produção negligente. O foco era a performance do ator principal e, por isso, o texto dramatúrgico era frequentemente desrespeitado e mutilado.

Ainda segundo as palavras de Silva, a EAD vem formar um novo ator para um novo teatro. É a busca pela capacitação de um ator disciplinado, que respeite o texto dramatúrgico e oriente-se para um trabalho de equipe que inspira sua criação.

Nessa primeira fase, sob direção do “doutor Mesquita”, a escola conta com um corpo de professores convidados, entre intelectuais e os principais profissionais da cena teatral. Ensinaram ou dirigiram na EAD durante seus primeiros anos nomes como Antunes Filho, Décio de Almeida Prado, Gianni Ratto, Gilda de Mello e Souza, Renata Pallottini e Sábato Magaldi. Conforme relata Silva, muitos profissionais trabalhavam mesmo sem receber, fazendo o amor pelo teatro suplantar as dificuldades financeiras da instituição.

A primeira crise econômica tomou conta da escola nos anos 1960 e a saída para evitar seu fechamento foi sua venda para a USP. A EAD passou assim a integrar a recém-nascida Escola de Comunicações Culturais (atual ECA), processo iniciado em 1966 e concluído em 1968. Nesse ano, Mesquita deixou o cargo de diretor e se afastou da escola.

“O projeto de 1948 respondia a uma certa elite econômica e intelectual paulistana que tinha um projeto político-cultural do qual a USP faz parte, ao lado do TBC e da Companhia Cinematográfica Vera Cruz”, comenta Azevedo. “Você tem um sistema cultural sendo armado e a EAD faz parte desse projeto que, durante muito tempo, foi sustentado por uma pessoa. É a partir de 1966 que a EAD ganha sua dimensão pública para além da sua finalidade, pelo fato de estar inserida numa universidade pública.”

“Depois da EAD, eu nunca mais vou conseguir dizer nada impunemente”, comenta a estudante Monalisa Silva – Foto: Thales Figueiredo/Jornal da USP

Para Sandra, a mesma missão que inaugurou a escola há 70 anos ainda reverbera em seus palcos. “O ator é esse que atua e transforma e isso é a vocação da escola: a formação nesse sentido do artista, aquele que vai atuar na sociedade não como um reprodutor das formas de poder e das formas repressivas, mas como uma pessoa questionadora e com pensamento crítico.”

“A especificidade da EAD é o fato de os professores fazerem teatro na cidade de São Paulo”, pondera Azevedo. “Se, por um lado, o momento de formação é idealmente apartado da vida profissional, por outro, a presença desses professores, artistas e diretores convidados faz com que a realidade do teatro atravesse o cotidiano da escola e seja já uma reflexão e uma interrogação sobre o artista, o profissional e a própria realidade do teatro.”

“A EAD fornece uma formação que é única”, comenta a estudante do quarto ano Monalisa Silva. “A escola não só dá os instrumentos, como obriga você a tomar uma atitude diante deles. Eu tenho que saber quem eu sou quando estou falando. Eu tive de me entender como mulher, saber se sou negra ou se sou branca, aprender a lidar com isso. Tive de articular um discurso mesmo. Depois da EAD, eu nunca mais vou conseguir dizer nada impunemente.”

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