Entre a poesia e a realidade, Maria Bonomi faz a arte da cidade

Sua gravura sai pelas ruas e se torna arte para todos. Uma história apresentada em livro por Patrícia Pedrosa

 

 09/04/2021 - Publicado há 8 meses  Atualizado: 15/04/2021 as 18:32
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Popessuara, 2016, xilogravura de Maria Bonomi, coleção da artista – Foto: Atelier Maria Bonomi

 

A arte de Maria Bonomi – com os seus sulcos, ranhuras, linhas infinitas – sai pelas ruas das cidades do Brasil dialogando com a população. Em São Paulo, está nas estações Jardim São Paulo e Luz do Metrô, na conhecida Igreja da Cruz Torta, nas fachadas gigantescas de um edifício na Avenida Paulista, na esquina com a Rua Bela Cintra e no Memorial da América Latina, entre outros lugares. É essa conversa poética de seis décadas que Patrícia Pedrosa, artista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) registra no livro Maria Bonomi com a Gravura: do Meio como Fim ao Meio como Princípio. A edição é um lançamento da Rio Books.

Patrícia Pedrosa, autora de Maria Bonomi com a Gravura – Foto: Thaís Stutzel

“Neste trabalho procurei abordar as mutações que a artista operou na gravura com a gravura e, a partir dela, desde o pensamento moderno até a contemporaneidade”, esclarece a autora. A trajetória de mais de seis décadas de Bonomi é apresentada em uma seleção de 18 obras produzidas entre 1957 e 2016. “Minha meta foi destacar as que evidenciam as transgressões e os saltos que Maria dá com a gravura como se fosse um grande trampolim, como ela mesma define.”

A pesquisa de Patrícia sobre Maria Bonomi resulta de sua dissertação de mestrado, apresentada em 2016 no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFRJ, sob orientação da professora Maria Luísa Tavora. “O percurso artístico de Maria Bonomi, em sua longa carreira e seu afinamento de pensamento com o seu tempo, opera as relevantes transformações da arte na contemporaneidade, tanto no âmbito da forma quanto na linguagem: os conhecimentos sobre a gravura e suas condições de existência múltiplas, híbridas, permeáveis e ampliadas”, explica Patrícia. “Com abordagem conceitual da gravura como linguagem expressiva, dirige-se não somente para as pessoas estudiosas da gravura ou da arte contemporânea, mas para um público que entende a arte como um sistema vivo, no qual o impulso é legitimado, composto por organismos adaptáveis e mutantes, num campo onde tudo pode ser alterado e transformado.”

 

“Deixei meus olhos e coração passearem entre as imagens. A obra de Maria Bonomi me arrebatou.”

 

Maria Bonomi, doutora por notório saber pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, está sempre à disposição dos jovens artistas. Em seu ateliê, recebe e orienta os alunos da USP e de outras universidades. É referência na arte e também no ensino, compartilhando técnica, conhecimento e vida.

Patrícia Pedrosa com Maria Bonomi  – Foto: Atelier Maria Bonomi

 

“Quando me decidi pelo mestrado, eu tinha duas certezas: a orientação de Maria Luísa Tavora, que havia sido minha professora de História da Arte na graduação, e a área, a gravura contemporânea”, lembra Patrícia. “Maria Luísa me deu as seguintes direções: ‘Em primeiro lugar, que você ame as obras que pretende analisar, que se identifique com elas. Em segundo lugar: busque um artista gravador com obras a que você tenha acesso, porque o embate com a sua arte tem que ser presencial, físico, não se estuda arte por foto’. E a minha pesquisa fluiu assim. Deixei meus olhos e coração passearem entre as imagens. A obra de Maria Bonomi me arrebatou.”

Amor Inscrito, alumínio, instalação, 2009, de Maria Bonomi, exposição em Madri, 2013 – Foto: Lena Peres

 

Patrícia segue a orientadora abrindo caminhos. Nascida em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, é gravurista e também concilia a sua arte com o ensino e a pesquisa. O livro é estruturado em três capítulos. No primeiro, busca a história de Maria Bonomi na pré-história da gravura. “O processo moderno da gravura, resultando em impressão, foi empregado pelos antigos egípcios na impressão de tecidos e é conhecido pelos chineses desde o século 2”, escreve a autora. “Chega ao Ocidente em meados do século 12, através de Veneza, cidade que possuía vínculos comerciais com o Oriente. Seu desenvolvimento está ligado à entrada do papel na Europa, através da rota das caravanas, no século 14.”

Mas, apesar da volta na história, a autora não perde o foco do objeto da pesquisa. “Maria Bonomi alia o artesanal da xilogravura no seu processo mais antigo – a mão com goivas e buris na madeira de fio, a impressão com colher de bambu no papel de arroz – ao digital, numa ampliação de processos que liga duas extremidades técnicas separadas apenas pelas datas que marcam suas invenções.”

Circumstantiam, 2014, instalação, de Maria Bonomi – Foto: Lena Peres

 

Patrícia faz uma análise da obra Circumstantiam, de 2014. É uma instalação escultórica composta de 15 xilogravuras entre cabos e espelhos suspensos. “Foi especialmente concebida para o átrio do prédio do Sesc Belenzinho, em São Paulo. Essas xilogravuras foram produzidas segundo o método tradicional, impressas em papel japonês, a seguir escaneadas, reimpressas no processo digital e montadas em estrutura tridimensional pendente, flutuando no espaço”, explica.

 

“A artista abre outros horizontes, expandindo o lugar da gravura, alterando sua identidade para além de um meio enquanto fim em si mesmo”

 

No segundo capítulo, o leitor acompanha a gravura nos anos 1950 e 1960. “Nesse cenário, Maria Bonomi, iniciada na tradição da gravura moderna, ganha espaço com seus questionamentos voltados aos limites das poéticas modernas, nos quais o meio funciona como autodefinição”, comenta a professora Maria Luísa Tavora, que assina o prefácio do livro. “A artista abre outros horizontes, expandindo o lugar da gravura, alterando sua identidade para além de um meio enquanto fim em si mesmo. Interessa-se e lança-se para o espaço. O princípio gráfico migra para instalações e obras em espaços públicos.”

Capa do livro de Patrícia Pedrosa – Imagem: Rio Books/Divulgação

No terceiro capítulo, a pesquisadora estabelece paralelos entre obras de Maria Bonomi e a de outros gravadores. Seleciona, para tanto, obras de Emanoel Araújo, Rossini Perez e Regina Silveira, que também exploraram as possibilidades das matrizes.

O livro Maria Bonomi com a Gravura traz um depoimento da artista na contracapa. Nele, ela afirma: “A linha do tempo e as influências do entorno são dissecadas e explicitamente registradas. Nada escapou. Há também uma garimpagem pontual de textos de outras autorias e a captura de resultados fundamentais. Nunca me senti tão despida mas motivada no passado, presente e futuro. Até minhas experiências e indecisões foram promovidas à matéria-prima para todos os leitores”.

Maria Bonomi com a Gravura: do Meio como Fim ao Meio como Princípio, de Patrícia Pedrosa, Editora Rio Books, 140 páginas, R$ 75,00.

 

 


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