Em novo livro, Alfredo Bosi analisa a obra de Leonardo da Vinci

Pintura do gênio renascentista é consequência de sua original concepção de natureza, afirma o professor da USP

Por - Editorias: Cultura

A Última Ceia, 1495-1498, têmpera sobre gesso – Foto: Reprodução

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 processo criativo de Leonardo da Vinci (1452-1519) se inicia com o olhar “ingênuo” sobre a natureza, passa pelo estudo rigoroso das imagens vistas e termina com as projeções do artista, que cria novas formas a partir da análise dessas imagens. Essa descrição dos fundamentos da arte do mestre renascentista está no livro Arte e Conhecimento em Leonardo da Vinci, que o Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, crítico literário e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) Alfredo Bosi acaba de publicar pela Editora da USP (Edusp).

Com 88 páginas, a nova obra de Bosi tem o mérito de destacar a singularidade do pensamento leonardiano, como aponta o professor Lorenzo Mammi, da FFLCH, que assina o texto da contracapa do livro. Segundo Mammi, esse pensamento inclui uma concepção da natureza como uma totalidade orgânica em transformação contínua e, portanto, o interesse por tudo o que é instável, a busca de uma nova relação entre experiência, imaginação e fazer – segundo a qual conhecer a natureza é também recriá-la, no pensamento e na obra – e, finalmente, uma escrita que privilegia a anotação pontual, o aforismo, o provérbio e o ditado popular, em que melhor se manifesta a instabilidade do mundo e do destino. “Bosi mostra como a pintura de Leonardo, que abole os contornos marcados do primeiro Renascimento em prol de uma transição contínua entre atmosfera e corpos, é consequência necessária dessa concepção”, escreve Mammi.

São João Batista, 1513-1516, óleo sobre madeira – Foto: Reprodução

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Bosi cita pinturas de Leonardo como exemplos que confirmam sua visão sobre o artista. “Nas obras da maturidade o artista consumou a sua técnica de paisagista inovador. As pinceladas vão-se fazendo cada vez mais sutis, os lineamentos mais esbatidos, e a cor adquire uma tal diafaneidade que torna quase aéreos os elementos que, pela sua natureza de chão e de pedra, deveriam parecer mais compactos”, escreve o professor. “Os cimos enevoados que se dissolvem no horizonte de A Virgem e o Menino com Santa’Ana (talvez lembrança dos Alpes dolomíticos contemplados nos seus anos milaneses) e a visão cósmica suspensa no tempo que envolve a figura da Mona Lisa são imagens afins ao conceito leonardesco de natureza. A clássica e toscana representação de um mundo finito cede à expressão moderna do desejo de infinito.”

Em Leonardo da Vinci, há uma “feliz simbiose” entre o naturalismo renascente e o neoplatonismo dominante na corte florentina dos Médicis, como analisa o professor em entrevista ao Jornal da USP (leia o texto abaixo).

Bosi nota que, nos escritos de Leonardo, encontram-se vestígios de um platonismo difuso. Exemplo disso é o louvor incondicional que o artista faz das matemáticas, sustenta o professor, citando alguns de seus aforismos: “Não me leia, nos meus princípios, quem não é matemático” e “Nenhuma humana investigação se pode considerar verdadeira ciência se não passa pelas demonstrações matemáticas”.

Entretanto, o professor percebe também as diferenças entre o gênio renascentista e o fundador da Academia. Essas diferenças se impõem quando se trata de considerar o mundo orgânico que Leonardo estuda e desenha, infere Bosi. “Os corpos vivos com suas formas e atos específicos são situados pelo neoplatonismo tradicional em um plano inferior, sujeito à divisão, à dor e à morte. Em Leonardo, ao contrário, tem-se a valorização artística e científica dessa mesma natureza.”

A pintura Virgem dos Rochedos, com sua estranha paisagem no fundo da tela, pode ser a chave para a interpretação do pensamento e da obra de Leonardo da Vinci. “Sob penhascos bojudos e terrosos ladeados por uma folhagem castanho-ouro o artista pintou uma caverna cujas bocas irregulares deixam ver estalagmites alvas como geleiras”, descreve o professor.

Bosi lembra que, no livro VII da República, Platão conta o mito da caverna. Nele, a caverna é uma metáfora de sentido epistemológico, o lugar onde não se pode conhecer a verdade.  Mas, para o artista renascentista, ela assume outro caráter, como analisa Bosi: “Leonardo artista quer ver o que se oculta nas entranhas da caverna, para descrever e desenhar os subterrâneos da existência, assim como Leonardo cientista quer entender a fundo os processos que resultaram naquelas formas, naqueles traços que velam milênios de metamorfoses. Olhar para saber, saber para desenhar, desenhar para pintar, pintar para criar”.

Virgem dos Rochedos, 1491, óleo sobre madeira – Foto: Reprodução

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O gênio que se dizia “homem sem letras”

O contato de Alfredo Bosi com a obra de Leonardo da Vinci é antigo. Em 1961, em sua primeira viagem a Florença, na Itália, o professor assistiu a cursos ministrados por Cesare Luporini – filósofo italiano que havia sido aluno de Martin Heidegger em Freiburg – sobre as relações entre a obra literária de Leonardo e a paixão do artista pelo corpo humano e pela matéria em geral. “Esse veio naturalista do artista resultou em um grande número de desenhos anatômicos e cósmicos, que reapareceriam, sublimados e estilizados, nas telas e afrescos que criou”, explica Bosi ao Jornal da USP. “Havia, portanto, uma simbiose feliz do naturalismo renascente e o neoplatonismo dominante na corte florentina dos Médicis.”

Alfredo Bosi: reflexões sobre o gênio renascentista – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Ao retornar ao Brasil, Bosi se dedicou a outros autores italianos – especialmente Pirandello e Leopardi. Ele só voltou a se debruçar sobre o pensamento de Leonardo da Vinci em 1994, quando proferiu uma conferência no ciclo Arte e Pensamento, organizado por Adauto Novaes. “Foi então que li, encantado, a obra literária desse gênio que se dizia ‘homem sem letras’ para distinguir-se dos eruditos verbosos do seu tempo.”

Segundo Bosi, a conferência foi a “matriz” de Arte e Conhecimento em Leonardo da Vinci, agora lançado pela Editora da USP (Edusp). “De algum modo, retomei meu interesse pela cultura italiana, de que me afastara profissionalmente desde que comecei a ministrar cursos de Literatura Brasileira, a partir da década de 70.”

O professor cita ainda outro momento decisivo para voltar a se ocupar com o artista renascentista: a sua visita, em 1992, ao Clos-Lucé, em Amboise, na França, o castelo onde Leonardo da Vinci viveu seus últimos anos, graças ao mecenato do rei de França, Francisco I. Essa visita é descrita por Bosi nas últimas páginas de seu livro. “Visitei, o coração batendo forte, a casa de Clos Lucé, em Amboise”, escreve o professor. “Tudo está conservado com zelo comovente: o dormitório amplo, a capela onde rezava Ana de Bretanha, a cozinha com lareira e a passagem subterrânea que dava para o castelo.”

 

A Virgem e o Menino com Santa’Ana, 1503-1519, óleo sobre madeira – Foto: Reprodução

 

Mona Lisa, 1503-1519, óleo sobre madeira – Foto: Reprodução
O novo livro do professor Alfredo Bosi – Foto: Reprodução

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Diante da pergunta sobre o que mais o impressiona em Leonardo da Vinci, Bosi fica em dúvida. “É difícil dizer”, ele afirma. “Talvez a fusão de pensamento e criação artística, que torna Leonardo cada vez mais atual. Talvez o ‘obstinado rigor’, seu lema, que Valéry tanto admirava. Talvez a expressividade gestual dos apóstolos na Última Ceia, que Goethe interpretou agudamente ao contemplar em Milão essa obra ímpar. E, por que não?, a graça das fábulas em que os animais se aproximam tanto dos seres humanos.”

Arte e Conhecimento em Leonardo da Vinci, de Alfredo Bosi, Editora da USP (Edusp), 88 páginas, R$ 34,00.

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