Educação é a arte de cultivar o humano, mostra novo livro

Com críticas à visão utilitarista da pedagogia atual, obra recupera o legado educativo e cultural do Ocidente

 23/06/2022 - Publicado há 5 meses
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O livro que será lançado em live no dia 28 de junho – Foto: Reprodução

Educação é a arte do cultivo do humano. Ela está voltada para a formação integral do ser humano, em suas várias dimensões. É um processo de humanização da pessoa, que – nascida “inconclusa”, “não acabada” – se realiza e concretiza suas potencialidades através da educação. Por isso, ela não pode ser confundida com a mera transmissão de conhecimentos e técnicas com o fim de obter maior produtividade, vantagens e lucros.

Essa visão da prática educativa está exposta no livro Educação Como Processo de Formação Humana – Uma Revisão em Filosofia da Educação Ante a Premência da Utilidade, que os professores Marcos Sidnei Pagotto Euzebio, da Faculdade de Educação da USP, e Vicente Zatti, do Instituto Federal do Rio Grande do Sul, vão lançar no dia 28 de junho, terça-feira, às 18 horas, durante live a ser transmitida pela plataforma Youtube. Resultado do pós-doutorado de Zatti na Faculdade de Educação da USP, concluído em 2021 sob a supervisão de Euzebio, o livro está disponível gratuitamente, na íntegra, no Portal de Livros Abertos da USP. “Não se trata de negar que o sistema educacional possua uma função de utilidade econômica, mas, sim, de demonstrar que a sua função primeira é formar o humano, e a aprendizagem dos conhecimentos úteis para a reprodução material da vida está subordinada a uma formação cultural mais ampla, não o contrário”, escrevem os autores na obra. “Educação não tem como função primeira transmitir conteúdos, profissionalizar, capacitar para competir no mercado, mas formar a humanidade no ser humano.”

No livro, Euzebio e Zatti destacam que a visão da educação como “processo de formação humana” remonta à Antiguidade grega. Na Ilíada e na Odisseia, poemas épicos do século 9 antes de Cristo atribuídos a Homero, está presente um conceito que desde então moldou a cultura grega – a areté. Esse conceito – que pode ser traduzido como “excelência”, o mais alto grau de uma qualidade – estabeleceu um ideal de ser humano e foi um dos pilares da paideia grega, a educação dada aos meninos gregos. “Paideia significa cultura enquanto ‘estado de um espírito plenamente desenvolvido, tendo desabrochado todas as suas virtualidades, o do homem tornado verdadeiramente homem’”, escrevem os autores, citando um dos grandes historiadores da educação, o francês Henri-Irénée Marrou (1904-1977). “Portanto, a paideia não se restringe a uma técnica educativa, muito menos à formação para a realização de um ofício. Ela é entendida como um exercício em direção à virtude e excelência para a realização de um ideal de ser humano.”

Educação na Grécia antiga: conceito de areté estabeleceu ideal de ser humano – Foto: Reprodução

Ainda na Antiguidade, o modo de educação grego foi transferido para o mundo romano com o nome de humanitas – a expressão com que o filósofo Varrão (11-27 a.C.) e o orador Cícero (106-43 a.C.) traduziram a palavra paideia. “Com  a  transformação  da  educação  romana  pela  escola  de  tipo grego, ocorre a difusão do ideal de formação pela cultura, a paideia, reelaborada nos termos da humanitas”, explicam Euzebio e Zatti. Eles citam como exemplo a concepção de retórica de Cícero, que não tem um sentido utilitário, mas se caracteriza pela ampla formação do orador, incluindo conhecimentos de filosofia, direito e história, entre outros. “Ao elaborar a humanitas a partir da ideia de uma cultura geral, efetivada com conhecimentos de muitos assuntos e de uma cultura digna de um homem livre, Cícero está retomando o potencial formativo da paideia.”

Educação na Roma antiga: humanitas preservou o ideal grego de areté – Foto: Reprodução

Esse mesmo ideal antigo chegou à modernidade com o nome de Bildung, o conceito que caracteriza a pedagogia alemã do século 18, segundo Euzebio e Zatti. Herança da paideia grega, a Bildung – termo que pode ser traduzido como “formação” – reflete “a essência da própria educação, a formação do homem enquanto homem em sua integralidade, formação do ser humano como um fim em si mesmo, e não o adestramento ou capacitação em função de fins exteriores”, como escrevem os autores. Euzebio e Zatti investigam as ideias de pensadores alemães que foram fundamentais para a consolidação da Bildung – entre eles, Kant, Humboldt, Schiller e Goethe – e a transformação dessa noção feita por Friedrich Nietzsche. “A Bildung é uma referência que nos permite reelaborar a ideia da Antiguidade clássica da educação enquanto uma arte entendida como processo de formação integral do ser humano”, escrevem. “Fornece, assim, um contraponto à ordem vigente, sempre empenhada em conter a educação dentro de parâmetros instrumentalizados de utilidade, eficiência e competência.”

Até pensadores que promoveram revoluções no pensamento ocidental, como o filósofo alemão Karl Marx, preservam ideias sobre educação relacionadas com a areté grega, a humanitas latina e a Bildung alemã. Um conceito da pedagogia marxista é a formação “omnilateral”, que leva em conta a totalidade das dimensões humanas com o objetivo de desenvolver plenamente o ser humano – continuam Euzebio e Zatti. “Essa forma plena de constituição do humano é oposta à formação unilateral, característica tanto dos animais quanto dos processos de alienação provocados pela divisão social do trabalho.”

O trabalho ocupa lugar central na proposta pedagógica de Marx, segundo Euzebio e Zatti. “O trabalho humano possibilitou o nascimento do homem por meio de si mesmo, possibilitou sua autocriação histórica”, escrevem, reproduzindo ideias do pensador alemão. “Assim, o trabalho é atividade vital pela qual o homem afirma a si mesmo, humaniza a natureza, superando seus determinismos, e constrói sua liberdade. Esse reino da liberdade criado pelo homem, a partir do trabalho sobre a natureza, tem como base material a totalidade das forças produtivas. Ter à disposição essa totalidade das forças produtivas permite o desenvolver-se omnilateralmente. O trabalho enquanto atividade vital, como trabalho não alienado, permite o desenvolvimento pleno, omnilateral, do homem tomado com fim em si mesmo.”

Outro pensador analisado por Euzebio e Zatti é o também alemão Jürgen Habermas. “Embora Habermas praticamente não discuta temas ligados à pedagogia, é central em seu pensamento a ideia de educação em seu sentido mais amplo de processo de formação”, destacam.  

A educação hoje: utilitarismo prevalece sobre a formação humana - Foto: Reprodução/Freepik

A educação hoje: escolas são pressionadas a conferir ao saber um caráter utilitarista  – Foto: Reprodução/Freepik

 

Euzebio e Zatti reservam o último capítulo do livro à análise da skholé, o termo com que os gregos antigos designavam o espaço e o tempo dedicados à formação do indivíduo – correspondente à atual “escola”. Segundo eles, a escola, no sentido de skholé, não é preparação para o mundo do trabalho, mas separação das imposições do trabalho, a fim de que a criança tenha tempo livre para se formar. “Embora na escola também esteja presente o aprendizado tendo em vista a profissionalização, fundamentalmente, em sua forma, a escola não diz respeito a isso, mas à skholé, tempo livre que possibilita a liberdade requerida para a formação humana”, destacam os autores. “Esse espaço-tempo livre torna possível uma educação desinteressada, cuja finalidade é a formação do ser humano como fim em si mesmo. Daí a importância de uma sociedade assegurar às suas crianças e jovens uma escola pública criadora dessa possibilidade.”

Educação Como Processo de Formação Humana – Uma Revisão em Filosofia da Educação Ante a Premência da Utilidade, de Vicente Zatti e Marcos Sidnei Pagotto Euzebio, Faculdade de Educação da USP, 189 páginas. Disponível gratuitamente no Portal de Livros Abertos da USP. O livro será lançado no dia 28 de junho, terça-feira, às 18 horas, com transmissão ao vivo pela plataforma Youtube.

Modernidade introduziu utilitarismo no processo educativo

Foi na modernidade que a ideia de educação como forma de realização do ser humano – predominante no Ocidente desde a Grécia antiga – começou a ser substituída por uma visão utilitarista da prática educacional, segundo Marcos Sidnei Pagotto Euzebio e Vicente Zatti em Educação Como Processo de Formação Humana. Eles citam como exemplo dessa mudança o pensamento do filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), para quem o conhecimento deveria ser aplicado à indústria e utilizado para transformar as condições concretas de vida. “Os sistemas educacionais, a partir de então, afirmam a relação entre poder e conhecimento de modo a pensar a educação escolar principalmente em função daquilo que o aluno vai fazer com os conhecimentos”, escrevem os autores. “Essa herança moderna encontra na atualidade solo fértil: um mundo globalizado, em ritmo acelerado e constante de transformações, com exigências crescentes por eficiência e produtividade, o que torna cada vez mais premente a utilidade dos saberes.”

O filósofo inglês Francis Bacon: utilitarismo aplicado ao conhecimento – Foto: Reprodução/Wikipédia

De acordo com Euzebio e Zatti, essas exigências por eficiência e produtividade afetam diretamente a educação. Para eles, a escola é cada vez mais compelida a desenvolver um currículo cujos conhecimentos tenham a utilidade como sua finalidade. “A premência da utilidade tende a conferir à educação um caráter utilitarista, afastando-a da tradição filosófico-pedagógica ocidental, que compreende a educação como processo de formação humana.”

“Se as escolas e universidades têm uma função educativa, então elas estão implicadas com a formação humana, seu compromisso primeiro não é com o mercado”, concluem os autores. “Portanto, as investidas recentes no sentido de restringir a escola e a universidade àquilo útil economicamente, enquanto se remete a exclusividade da tarefa de educar à família, representam a negação do legado cultural ocidental.”


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