Editora Com-Arte lança livro póstumo de Ecléa Bosi

“A Casa & Outros Poemas” será lançado nesta quarta-feira, dia 24, às 18 horas, na Cidade Universitária

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A professora Ecléa Bosi (1936-2017) – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

A Casa & Outros Poemas, livro póstumo da professora do Instituto de Psicologia da USP Ecléa Bosi, que morreu no dia 10 de julho de 2017, será lançado nesta quarta-feira, dia 24, às 18 horas, na Livraria João Alexandre Barbosa, na Cidade Universitária, em São Paulo. Poesias inéditas foram reunidas nesse volume, lançado pela Editora Com-Arte, a editora-laboratório da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

O livro não foi deixado pela professora. Suas mais de 40 poesias foram encontradas por acaso, como conta a filha de Ecléa e do professor Alfredo Bosi, Viviana Bosi: “Depois que a minha mãe faleceu, o meu pai foi arrumar as coisas da minha mãe e se deparou com uma pasta, onde estava um caderno com esses poemas, que ninguém conhecia na família”.

O espanto aconteceu inclusive pelo fato de a família não saber que a Ecléa era poetisa e tinha um grande acervo guardado que não era do conhecimento de ninguém. Viviana conta que “essa foi a grande surpresa. Nós conhecíamos alguns poucos poemas, e os outros ela nunca havia mostrado, mesmo sendo poemas que ela foi escrevendo ao longo de toda a vida dela”.

O encontro desse precioso acervo de escritos pegou a família de imprevisto e então eles pensaram na produção de um livro. “Foi uma surpresa para todos. Resolvemos então digitar os poemas e tivemos a ideia de fazer uma edição de um livrinho mais caseiro. Conversamos com o professor Plinio Martins Filho e ele propôs que o livro fosse editado pelos alunos do curso de Editoração da ECA. Achamos uma excelente ideia”, diz Viviana.

Poesias de uma vida

Os poemas não foram datados pela professora, mas fazem referências a acontecimentos da época em que foram escritos, como Segunda Guerra Mundial, Guerra do Vietnã e a morte de poetisas, como Cecília Meireles. “Ela escreveu poemas para a Cecília porque creio que ela era uma grande inspiração. Também tem um poema para Jorge de Lima e um poema para Rosalía de Castro, uma poetisa galega que a minha mãe traduziu e de quem ela gostava muito também”, afirma Viviana.

“Esse tipo de escrita não é planejada para vir a público, como disse Fernando Paixão na resenha dele. Escrever um poema é um solilóquio, mas, quando você escreve sem intenção de publicar, você tem uma vida para escrever um texto. É um processo de maturação. Maturação da palavra, do som, do ritmo. Não há uma intencionalidade, então isso vai se diluindo na própria história”, explica a professora Marisa Midori, da ECA, uma das responsáveis pela edição.

Os escritos mostram um outro lado da escritora e também apresentam uma variedade de temas. “Os poemas são bem variados. Alguns temas predominam: a cidade, o passado, a memória que foi perdida, a cidade de São Paulo que se tornou mais desumana. Ela era uma grande memorialista, estudava a memória. Há alguns poemas com aspectos mais de denúncias. Alguns que tratam da efemeridade da vida, dos entes queridos e da própria morte. É difícil saber o que está no fundo de cada ser humano. E claro que tem a ver com a reflexão pessoal dela e que está nos poemas impressos”, acrescenta Viviana, que complementa: “Ela estudava pessoas e apresentava para os alunos essas vidas, que aparecem nos poemas. Por exemplo, o poema Trio possui três personagens. O primeiro é uma homenagem a Albert Schweitzer, o segundo é uma homenagem a Chaplin e o terceiro, a Martin Luther King”. Segundo Viviana Bosi, Trio foi publicado há muitos anos no jornal O Estado de São Paulo e é um dos únicos textos conhecidos publicamente.

Homenagem

Alfredo e Ecléa Bosi – Foto: Cecília Bastos/ USP Imagens

O professor Alfredo Bosi teve participação essencial na confecção do livro, inclusive fazendo o papel de editor, desenhando o livro mentalmente, de acordo com a professora Marisa Midori. “Ele disse que queria um livro focado na tipografia, mas que fosse singelo e simples. Queria que a poesia fosse realmente o centro das atenções do livro.”

“Uma das coisas que o professor Alfredo Bosi quis preservar é que ficasse o discurso da própria autora. Claro que a gente pensa logo em alguém fazer o prefácio, mas ele disse que não queria”, lembra Martins Filho. “A única coisa que ele queria era que José Miguel Wisnik fizesse a quarta capa. Ele quer que as pessoas leiam os poemas sem um juízo de um crítico”, destaca. Para Martins, “isso é justo num livro de poesia. Se você coloca alguém já analisando tudo no prefácio, você já está orientando a leitura e contextualizando.”

Toda uma honraria foi feita, conforme Marisa Midori: “É uma homenagem carinhosa que ele faz, tem todo um gesto, um ritual de você ir em uma gaveta imaginária e recolher esses poemas. Isso pressupõe a leitura e compreensão do que está escrito. Existe um resgate da memória e do vivido, dos momentos em que se constrói os poemas, se participa ou não, se eles estavam lá a segredo. Há um aspecto delicado. É uma homenagem desses poemas que estavam guardados e que agora vem a público”.

A publicação e o lançamento

Se os poemas estavam guardados, é possível que Ecléa não queria que eles fossem publicados. Mas Viviana sugere que “talvez ela fosse bastante modesta nesse sentido. Talvez ela não sentisse confiança para mostrar e escrevesse mesmo para si mesma, pelo prazer de escrever”.

A publicação servirá para mostrar que esses poemas possuem um traço, uma especialidade de toda uma vida, diz Viviana. “Apesar de os poemas serem muito nostálgicos, ela era uma pessoa extremamente entusiasta, lutadora, que amava muito a natureza. Ela era uma grande memorialista que adorava contar e ouvir histórias, uma característica muito forte. Era muito acolhedora. Lutou contra as usinas nucleares, lutava pela preservação da natureza. Sempre foi uma pessoa que lutava por justiça e esse era um lado fundamental dela.”


“A nossa expectativa é que as pessoas leiam com esse espírito da construção do livro e da recolha do escrito”, afirma Marisa Midori. “Um escrito de homenagem, de preservar uma memória, contar histórias. Porque para cada poema desse a gente pode imaginar um momento da vida, do Brasil, da vida da Ecléa. Ela que foi tão preocupada com essa arqueologia da memória, com o trabalho das lembranças de velhos, das leituras. Agora é um material completo para preservar essas lembranças”.

A Casa & Outros Poemas, de Ecléa Bosi, será lançado nesta quarta-feira, dia 24, às 18 horas, na Livraria João Alexandre Barbosa (Avenida Professor Luciano Gualberto, 78, Cidade Universitária, em São Paulo). Mais informações nos telefones: (11) 3091-4156 / 4157.

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