“É tempo de sermos juízes da própria consciência”, diz historiador

Em palestra na USP, Jean-Yves Mollier abordou as várias faces da censura que persistem na cultura e na literatura

Por - Editorias: Cultura
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O historiador francês Jean-Yves Mollier e a professora Marisa Midori – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O historiador Jean-Yves Mollier, professor da Universidade de Versalhes Saint-Quentin-en-Yvelines, na França, e especialista em história do livro, esteve na USP na manhã de quinta-feira, dia 17, para uma conferência do Instituto de Estudos Avançados (IEA), com o tema Quem tem medo dos livros?. O evento foi coordenado pela professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Marisa Midori e aconteceu na Sala de Eventos do IEA.

O encontro se enquadra na temática do medo, escolhida pela rede internacional Ubias (University-based Institutes for Advanced Study) para ser debatida neste ano em universidades de todo o mundo, em diversas áreas do conhecimento. Segundo a professora Marisa, embora possa parecer um tema curioso, “o medo é uma tônica no nosso mundo, em diversas esferas de nossas vidas e de nossa sociedade, e está presente também nos livros e em sua história”.

O medo dos livros suscitou ao longo da história uma série de episódios de censura, que, segundo o professor Mollier, “tem faces diferentes dependendo da época e do país”. Essas faces, ele enumera, seriam de ordem religiosa, política, moral e, mais recentemente, mercadológica.

Jean-Yves Mollier – Foto: Marcos Santos/USp Imagens

O professor cita uma cena do livro O Vermelho e o Negro, de Stendhal, em que um menino está lendo em cima de uma árvore e, quando é encontrado pelo pai, é repreendido por ele. “Em vez de ficar feliz por ver seu filho lendo, o pai, um operário iletrado, assim como o resto de sua família, diz que o menino está perdendo tempo quando deveria estar trabalhando e o repreende por pertencer a um universo diferente do de sua família. Isso é um exemplo da aversão aos livros enraizada no campo francês desde a Idade Média e, mesmo no início do século passado, com a alfabetização já plena na França, ela ainda persistia.”

Um dos maiores símbolos de censura, o Index Librorum Proibitorum, lista publicada pela Igreja Católica em 1559 que continha obras proibidas para os fiéis, durou até 1966, quando a instituição o revogou, declarando “confiar na consciência madura dos cristãos”. Outro exemplo dado por Mollier foi a criação de um registro oficial na França, que resultou no catálogo da Biblioteca Nacional do país. No entanto, a intenção original do registro, instituído na época da monarquia, era poder controlar o que era publicado na época, para evitar publicações críticas à Igreja, por exemplo.

Capa do livro O Vermelho e o Negro, de Stendhal – Foto: Divulgação

O historiador lembra também que a censura só deixou de existir na França pela falta de verba pública para pagar os censores do governo, e não por uma decisão parlamentar democrática. “Governos ao redor do mundo todo praticaram censura, ninguém escapou. Na Alemanha nazista e no franquismo espanhol queimavam-se livros. Não preciso falar para vocês, brasileiros, sobre a ditadura militar no País, e houve também as ditaduras na Argentina e no Chile.”

“Nos países muçulmanos, a sharia proíbe livros até hoje, grandes escritores árabes são assassinados ou vítimas de atentados. Não é fácil, mesmo hoje, escrever de maneira heterodoxa em certas partes do mundo, e o medo dos livros, como se vê, ainda está muito próximo de nós”, completa.

Mollier afirma que a moda e a publicidade são ótimos meios de se estudar e observar como a censura moral muda ao longo do tempo e ao redor do mundo. “Não se sabe, por exemplo, de nenhuma sociedade no mundo em que o incesto seja permitido. Isso é censura moral, assim como a proibição de que mulheres usassem saias acima do joelho até os anos 1960.”

Embora os exemplos de censura religiosa, política e moral hoje não sejam tão hegemônicos e universais, o professor atenta para uma censura mais recente e, segundo ele, mais insidiosa: a do mercado. “É muito fácil encontrar um editor para publicar um livro, existem muitos editores. Mas há também um volume enorme de livros a ser publicado, e quem faz com que esses livros cheguem às vitrines e prateleiras das livrarias, isto é, ao público, são os divulgadores pagos pelas editoras. Assim, uma editora com mais dinheiro conseguirá que seus livros sejam divulgados com muito mais facilidade.”

Capa do livro Mein Kampf, de Adolf Hitler – Foto: Divulgação

“Até os anos 1990, havia um equilíbrio nas editoras: eram publicados os livros comerciais, que seriam um sucesso de vendas e trariam muito dinheiro na certa, mas também se publicavam outros de menor apelo comercial, mas que tinham grande qualidade literária. Hoje, com a ascensão de financistas aos cargos altos das editoras, pensa-se apenas no lucro, no balanço, no valor da empresa, e perde-se a relação com o que se produz. Esse é o cerne da censura contemporânea”, explica o historiador.

Questionado sobre as reedições de Mein Kampf, de Adolf Hitler, que estão sendo lançadas pelo mundo desde que a obra caiu em domínio público, o professor se diz favorável. “Sou a favor de reedições críticas de Mein Kampf, precisamente porque hoje, com a internet, é impossível impedir a difusão de ideias, e lá as ideias de Hitler podem ser não só publicadas, mas exaltadas. Veja, na própria França, durante a ocupação nazista, era proibido que se traduzisse o livro para o francês, para evitar que o povo soubesse os planos que Hitler tinha para o país. É preciso que haja reedições com contextualização histórica adequada.”

Ainda falando sobre o fascismo, Mollier afirma que ele nunca volta com a mesma face: hoje tem um viés muito mais religioso do que na época de Hitler, quando era político. “Vejam, eu sou da geração do Woodstock, quando sonhávamos com um mundo em que se fizesse amor, não guerra. Sem nostalgia: cada geração deve encontrar seus meios de resolver os problemas que estão postos. Mas é tempo de perceber que há algo errado e, assim como a Igreja, 400 anos depois, finalmente julgou seus fiéis maduros o bastante para saber o que ler e o que não ler, reivindicar o direito de sermos juízes da própria consciência.”

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