Documentário celebra 200 anos de expedição alemã na Amazônia

Produção faz parte do projeto “200 Anos de Spix e Martius pelo Brasil”, que tem participação de professor da USP

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Orla de Belém em 1819 – Foto: Arquivo pessoal/Willi Bolle, Eckhard E. Kupfer, Felipe Delfino e Gustavo Tonetti

A expedição pelo Brasil que durou três anos, percorreu mais de 10 mil quilômetros e coletou cerca de 10 mil espécies, entre vegetais e animais, durou de 1817 a 1820 e foi realizada pelos exploradores alemães Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Martius. No bicentenário dessa viagem, que deu origem à maior obra em língua alemã sobre o Brasil, Reise in Brasilien (Viagem ao Brasil), o professor de Língua e Literatura Alemã da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Stefan Wilhelm Bolle gravou um documentário em que refaz o mesmo percurso dos alemães pela Amazônia. Essa é a última das três partes audiovisuais do projeto 200 Anos de Spix e Martius pelo Brasil, feito em parceria com o Instituto Martius-Staden.

Casa na Ilha do Combu, nos arredores de Belém – Foto: Arquivo pessoal/Willi Bolle, Eckhard E. Kupfer, Felipe Delfino e Gustavo Tonetti

“O projeto cobre todos os três anos de viagem dos alemães, um trajeto que saiu do Rio de Janeiro, passou por Minas Gerais e pela Bahia até chegar à região amazônica”, diz o professor. Bolle e Eckhard Kupfer, diretor do Instituto Martius-Staden, decidiram refazer essa expedição duas centenas de anos depois, mostrando as semelhanças e diferenças dessas paisagens. Como resultado do que documentaram, promoveram a exposição Viagem de Spix e Martius pelo Brasil, em 2018 e 2019, com 21 banners que incluíam tanto as fotos que tiraram quanto ilustrações feitas pelos dois viajantes no século 19. Mas esse paralelo temporal também foi muito bem traçado nos documentários produzidos por eles, sendo o mais recente Refazendo a Viagem de Spix e Martius pela Amazônia.

Comparando a região amazônica de 200 anos atrás e a de agora, Bolle tem como projeto fazer uma topografia cultural do Brasil, e isso fica bem claro no filme. “Eu me baseio tanto na cultura folclórica de festas juninas, boi bumbá, como nos próprios hábitos cotidianos daquele povo, como a alimentação, o pequeno comércio”, afirma ele. E ao longo de todo o documentário essas sequências referentes às festas, mercados e floresta são apresentadas enquanto sua narração se passa ao fundo. Com destaque especial para os alimentos típicos da região, como a mandioca e o açaí, que têm registros desde a sua coleta até as feiras, onde se transformam em outros produtos e são vendidos. 

Verticalização nos bairros de classe alta em Belém – Foto: Arquivo pessoal/Willi Bolle, Eckhard E. Kupfer, Felipe Delfino e Gustavo Tonetti

Entre as diferenças notadas pelo professor que 200 anos proporcionaram está a fisionomia das cidades. “Para quem se aproxima de Belém pelo rio é possível ver a grande verticalização que tomou conta do local, embora alguns edifícios se mantenham preservados, como a Igreja da Sé”, conta Bolle. Mas, também de acordo com ele, algumas situações apontadas por Spix e Martius ainda podem ser percebidas até hoje. “O que não mudou é a enorme diferença social entre a região central da cidade e seu entorno”, afirma. E o filme passa essa ideia muito bem, na medida em que mostra tanto os imponentes prédios como as casas de palafitas na beira dos rios.

Outro aspecto importante do documentário é o alerta que ele faz sobre as questões ambientais. “Quando Spix e Martius viajaram pelo Brasil, a Amazônia ainda estava intacta. O que eles falam é sobre as queimadas no sertão mineiro, apenas. Atualmente a realidade é outra”, diz Bolle. O professor e Kupfer aproveitaram a viagem para percorrer a BR 163, por onde escoam os produtos do agronegócio, que expandiu sua fronteira de forma significativa ao longo dos anos. Nessa linha, o filme também traz o Amazonian Tall Tower Observatory, projeto Atto, que envolve brasileiros, alemães e outros pesquisadores para entender como as mudanças climáticas afetam a floresta tropical. 

O professor Willi Bolle (à direita) e Eckhard E. Kupfer, diretor do Instituto Martius-Staden (ao fundo), em encontro com líderes indígenas e pesquisadores – Foto: Arquivo pessoal/Willi Bolle, Eckhard Kupfer, Felipe Delfino e Gustavo Tonetti

O projeto foi motivado pela importância de Spix e Martius, pelos 200 anos da viagem e ainda por um interesse pessoal de Bolle. “Eu vim para o Brasil em 1966 para estudar este país à luz de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, mas depois percebi que o meu conhecimento brasileiro estava muito ligado ao relato de Reise in Brasilien e que inconscientemente esse foi o meu modelo”, diz ele. Mas, para além do legado deixado pelos dois pesquisadores alemães, o filme também dá voz às pessoas que realmente representam aquela região. “Através desse filme queremos transmitir a história de Spix e Martius, acrescentando o que ocorreu de lá para cá e enfatizando as vozes das pessoas que realmente protagonizam tudo isso.”

O documentário Refazendo a Viagem de Spix e Martius pela Amazônia está disponível neste link.

 

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