Quando o jornalista Tchékhov foi ao inferno

Lançada no Brasil, obra do escritor russo revela os horrores praticados na maior ilha penal do império czarista

 

Gutemberg Medeiros


 

O escritor russo Anton Tchékhov – Foto: P. I. Seryogin/ Wikimedia Commons

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Uma obra de fundamental importância lançada no ano passado foi pouco abordada pela imprensa: a tradução direta do russo de A ilha de Sacalina, de Anton Tchékhov (1860-1904), feita por Rubens Figueiredo, com sensível posfácio de Samuel Titan Junior, professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Trabalho completamente único entre a vasta produção do autor russo, contemplando jornalismo, contos, novelas e teatro, a obra repercutiu internacionalmente em seu tempo e esperava-se há anos a edição brasileira.

Verdadeira odisseia abre-se aos olhos do leitor com a viagem empreendida por Tchékhov, em 1890, para a maior ilha penal do império czarista, localizada no extremo leste siberiano. Maior do que a Grécia, a ilha resumia a síntese do pior possível em termos de castigos e maus tratos, que incluíam chibatadas, penas capitais, péssimas condições prisionais e até tornar a população carcerária, abaixo de sua condição legal de cidadãos, sob a guarda do Estado, em servos dos habitantes livres. Bibliografia dispersa e pouco expressiva sobre essa realidade, aliada a boatos incertos, constava em São Petersburgo e Moscou. Mas nada de concreto se sabia sobre essa ilha.

Há várias formas de abordagem possíveis a essa rica obra, mas opto por vê-la como um  texto de fronteira entre jornalismo e literatura, praticamente um precursor do que depois se chamaria livro-reportagem. Ao percorrer essa vasta produção, de 437 páginas, fica uma primeira e forte impressão: uma estação no inferno. Narrado na primeira pessoa do singular, de forma tão sutil e com tamanha preocupação com a objetividade o tempo todo, até parece em muitos trechos que estamos ante o fluxo de narrativa na terceira pessoa do singular onisciente e onipresente.

Isso porque o narrador cumpre uma de suas premissas fundamentais: narrar acima de tudo com descrições de ambientes e pessoas o mais detalhada e obsessivamente possível, não dar opiniões ou julgamentos antes disso. E, quando o faz, é breve em suas observações. O próprio Tchékhov, em correspondência após a sua volta, afirmou: “Enquanto vivi em Sacalina, eu sentia em minhas entranhas só uma queimação, como se tivesse engolido manteiga rançosa, mas agora, na minha lembrança, Sacalina surge como um verdadeiro inferno”.

Na ida, o itinerário se iniciou em Moscou, em 21 de abril de 1890, passando pelo Rio Kama, Perm, Tiutmen, Tomsk, Irkutsk, Rio Amur até Sacalina. Como não havia a via férrea Transiberiana, a viagem foi entrecortada e sacrificante de carruagem, trem, barco e a cavalo, fora a permanência necessária em vários pontos ao longo do trajeto extenso. Até que, em 5 de julho de 1890, chega à cidade de Nikolaivsk, o extremo oriental da Rússia e o ponto do continente mais próximo à ilha de Sacalina.

Estética do olhar

Desde o nascimento da grande imprensa ocidental, tal como nos anos 1830, na França, até a sua estabilização industrial e já globalizada, como se viu nos Estados Unidos cerca de 50 anos depois, viveram-se grandes transformações. Entre elas, o jornalismo passou a privilegiar, cada vez mais, a informação em detrimento da opinião. Nos países centrais em termos de capitalismo moderno, essa transição estabelece-se nos anos 1880.

Uma das premissas do jornalismo é o olhar. Já na volta, em carta dirigida ao seu amigo e editor Aleksei Suvórin, Tchékhov faz questão de afirmar: “Eu vi tudo; portanto, a questão agora não é o que eu vi, mas como vi”. Para, em carta seguinte, corrigir-se em nome da precisão: “Vi tudo, menos a pena capital”. Suvórin era o maior barão da imprensa no império russo, o equivalente ao que foi no Brasil Assis Chateaubriand. Para ir a Sacalina, obteve de Suvórin a carteira de jornalista de um dos seus jornais. Calcula-se que leu 65 trabalhos sobre a ilha penal e o dobro quando voltou para escrever o livro.

Subversão dos papéis sociais

A edição brasileira da obra de Tchékhov – Foto: Reprodução

Tchékhov empreende a viagem cuja tônica é seu olhar e a construção da narrativa: ele busca exatamente o que é diferente, surpreendente ou que provoque indignação. Essa é uma das grandes matérias-primas do jornalismo moderno: buscar a diferença e descrever o ser humano nessa condição ou ambiências distintas ou estranhas. Ele descreve desde os que vivem em regime semiaberto aos em fechado. Os primeiros estavam em relativa liberdade, não acorrentados, com direito a sair do cárcere e ir aonde queriam, sem escolta. Eles vivem dessa forma por ser impossível fugir dessa ilha longe da costa. Os que vivem em regime fechado são os de delitos mais graves ou os que tentaram a fuga. Nesse sentido, ele lança mão de recurso normal nas lides jornalísticas, o chamado perfil, ao descrever em detalhes vários dos prisioneiros – desde as suas particularidades físicas até o fato de terem sempre algemas às mãos e casaco cinza de ovelha, que serve como roupa e de cama até nos invernos glaciais.

Um dos poucos momentos em que o narrador deixa a fria descrição do que viu é quando constata que todos os funcionários da ilha, até os que não tinham relação com a administração prisional, empregavam presos da forma mais descarada para as tarefas domésticas, sem pagar salário algum a esses criados, alimentados às custas do Estado. Ou seja, ele denuncia que não mais se está ante um presidiário, mas um escravo sob as ordens de determinado senhor e sua família.

O capítulo 21 foi o que mais repercutiu entre leitores russos e estrangeiros, dedicado aos castigos corporais. Há a descrição de parte de uma pena: das 90 chibatadas, o autor só conseguiu manter-se na primeira metade da sessão de castigo. A descrição é enriquecida pelo fato de o narrador ser também médico, aferindo maior objetividade e não menos indignação.

A vida como ela é

Ao contrário de Liev Tolstói (1828-1910), que deixou a sua visão estética em O Que é Arte?, Tchékhov não deixou obra com esse feitio. Porém, nas mais variadas vezes em que foi inquirido via carta, quase sempre por jovens escritores, deixou por escrito seus posicionamentos sobre criação literária. Em Cartas para uma Poética (Editora da USP), organizado e traduzido do russo por Sophia Angelides, ele afirma que o escritor tem que escrever o que vê, pois a “literatura artística é denominada artística porque descreve a vida tal como ela é na realidade. Por mais horrível que seja, ele (o escritor) é obrigado a combater o seu asco, sujar a sua imaginação com a imundície da vida”. Em outro momento, o autor revela uma receita de como escrever um conto de qualidade: ausência de palavrório prolongado de natureza político-socioeconômica, objetividade total, veracidade nas descrições das personagens e dos objetos, brevidade extrema, ousadia, originalidade – “fuja dos chavões” – e sinceridade. Nada longe das premissas jornalísticas.

Sacalina não ficou apenas no livro que abordamos neste texto. Mas em muitos outros. A primeira coisa que Tchékhov fez após seu regresso foi organizar uma coleção de livros para as escolas de Sacalina, as quais, como ele escreveu a alguém, apenas existiam no papel. Pois tudo quanto as crianças aprendiam lhes era ensinado pelo ambiente da prisão.

 

Gutemberg Medeiros é jornalista, mestre e doutor pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

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