Concertos exibem Beethoven em instrumentos históricos

Em apresentações neste mês, Conjunto de Música Antiga da USP vai recriar a sonoridade ouvida pelo compositor

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=192913
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Músicos tocam instrumentos do século 19, que recriam a sonoridade da época – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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O Conjunto de Música Antiga da USP, sob a regência do maestro William Coelho, vai fazer neste mês a primeira montagem sul-americana com instrumentos históricos da Sinfonia nº 5, de Ludwig van Beethoven (1770-1827). No programa constam ainda outras peças do compositor alemão: a Abertura Coriolano e o Concerto para Piano nº 3, este com solo do fortepianista russo-israelense Zvi Meniker, professor da Hochschule für Musik Hannover, na Alemanha. As apresentações acontecem nos dias 10 de setembro, segunda-feira, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, na Cidade Universitária; no dia 11, terça-feira, no Theatro Polytheama, em Jundiaí (SP); e no dia 14, sexta-feira, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

Um dos instrumentos de sopro, réplica feita por luthier especializado – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Segundo a professora Mônica Lucas, do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, que organiza o evento, “os concertos vão ser executados com instrumentos da época de Beethoven e com uma orquestra que tem exatamente a dimensão da orquestra que estreou essas três obras”. No palco, cerca de 40 músicos, incluindo músicos brasileiros e argentinos convidados, interpretam o programa intitulado Beethoven Histórico, marcando o início da 2ª Semana de Música Antiga (leia a matéria abaixo).

“A apresentação foi possível graças à compra, realizada pela USP em 2013, de instrumentos históricos”, afirma a professora. Entre os instrumentos adquiridos estão a sacabuxa (precursor do trombone moderno), trompetes naturais e trompas lisas (que não têm pistos) – “em que a afinação é feita toda na boca”, como diz o maestro William Coelho – e um fortepiano (precursor do piano moderno), além de alguns instrumentos de cordas (produzidos com tripa animal).

O maestro William Coelho e a professora Mônica Lucas: oportunidade única para assistir a um concerto histórico – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Primeiro do gênero em uma universidade brasileira, o Conjunto de Música Antiga da USP utiliza instrumentos dos séculos 18 e 19.  “A sonoridade tem um timbre e um colorido diferentes, com uma articulação bem distinta”, afirma Coelho.  O maestro destaca ainda a afinação. “A nota lá é trabalhada em orquestras com uma afinação de 440 herz. Algumas chegam até 443 herz. Mas, no período clássico, a vibração era de no máximo 430 herz, afinação que será utilizada nestes concertos. Assim, as notas soam um quarto de tom abaixo”, explica, acrescentando que essa é uma diferença expressiva.

Além disso, o maestro diz que o “temperamento desigual” também faz parte do concerto. “Em algumas tonalidades essa afinação confere um brilho, ou algo que evoca alegria e luminosidade, e em outras provoca uma sensação de desconforto e melancolia e chega a soar para ouvidos modernos como desafinação.” Segundo ele, essas diferenças de entonação conferem caráter para cada tonalidade e são propositais. “Até o período clássico, os compositores ainda usavam afinações distintas. A partir do Romantismo é que o temperamento começou a ficar igual e se perdeu essa característica única de cada tonalidade.”

Partituras originais

Os concertos vão se iniciar com a Abertura Coriolano, composição criada em 1807 e inspirada na tragédia homônima do poeta e dramaturgo vienense Heinrich J. von Collin, que, segundo o maestro, era para soar como abertura para um espetáculo teatral que nunca chegou a acontecer. “Essa peça está em dó menor, o que costura o programa, que traz três obras de Beethoven escritas nessa tonalidade”, afirma.

Na sequência, será apresentado o Concerto para Piano n° 3, composto em 1800 e estreado em 5 de abril de 1803, com o próprio Beethoven ao piano. O solista será o russo Zvi Meniker, especialista em instrumentos antigos. O encerramento se dará com uma das composições mais conhecidas e executadas de Beethoven, a emblemática 5ª Sinfonia, escrita entre 1804 e 1808, a primeira do compositor escrita em tonalidade menor.

Detalhe da partitura da Sinfonia nº 5, na versão do musicólogo Cleaver Brown – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Segundo o maestro, também está presente nas três obras o contraste de caráter. “Na Abertura Coriolano há um caráter trágico e melancólico, com notas curtas, quase agressivas, e dentro da mesma peça um trecho melódico e suave. No Concerto nº 3 isso também acontece, especialmente entre os movimentos, e na 5ª Sinfonia os quatro movimentos trazem a polarização desses caracteres ambíguos”, afirma.

Outra novidade são as partituras. O maestro conta que, em 2017, saiu uma nova edição da 5ª Sinfonia de Beethoven, discutindo as muitas versões da obra que existiam, desde os manuscritos do compositor, passando por análises de partes de orquestra que estão espalhadas pelo mundo e pela revisão feita pelo próprio Beethoven, até os dias de hoje. “A partitura é do grande musicólogo Cleaver Brown, que propõe algumas soluções na sua execução, e que será interpretada nos concertos”, explica o maestro.

Ensaio do Conjunto de Música Antiga no Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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A partitura original do Concerto nº 3 também é raríssima e traz uma curiosa história. Segundo a professora Mônica Lucas, na estreia da obra, o maestro que virou as páginas das partituras para Beethoven conta, num livro de memórias, que as notas eram só “hieróglifos egípcios”, ou seja, abreviaturas, na qual não se lia nada. “É conhecido que Beethoven era relapso em sua escrita e seus manuscritos têm muitos erros. Provavelmente ele tocou de memória e improvisou”, diz Mônica.

“Só em 1804 saiu a primeira edição dessa partitura, mas dois anos depois ele reescreveu o concerto para um aluno tocar, só que em um piano maior; assim foram colocadas notas a mais”, conta. “A versão tocada pelo próprio Beethoven nunca mais foi executada. A partitura original de 1804 só foi reeditada em 2015, e é essa versão que será ouvida nos concertos”, ressalta. Tanto o maestro como a professora lembram que é uma oportunidade única para se revisitar um repertório e uma sonoridade históricos tão singulares.

O fortepiano adquirido pela USP: instrumentos históricos permitem mais proximidade da música original de Beethoven – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Os concertos do Conjunto de Música Antiga da USP acontecem nos dias 10 de setembro, às 12 horas, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, em São Paulo); 11 de setembro, às 20 horas, no Theatro Polytheama (Rua Barão de Jundiaí, 176, Centro, Jundiaí); e 14 de setembro, às 21 horas, no Sesc Vila Mariana (Rua Pelotas, 141, Vila Mariana, em São Paulo). As primeiras duas apresentações têm entrada franca. Para a última os ingressos variam de R$ 6,00 a R$ 20,00.

Semana de Música Antiga discute a obra de Beethoven

A 2ª Semana de Música Antiga, promovida pelo Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, será realizada entre os dias 10 e 13 de setembro, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. O evento vai reunir pesquisadores em poética musical dos séculos 16 ao 18, que vão abordar aspectos teóricos da obra de Beethoven, tema central desta edição. Entre as palestras, destaque para a análise da 5ª Sinfonia, com a professora Yara Caznok, da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Também serão realizados workshops práticos e concertos que dialogam com a temática. Além do programa Beethoven Histórico, na abertura, a programação inclui os concertos Harmoniemusik, com o naipe de sopros da orquestra (dia 11), Viagem Musical – Passeio pelos Estilos Musicais Setecentistas, com a Orquestra Arte Barroca (dia 12), e Os Mestres de Beethoven, música de câmara de autores que serviram de referência a Beethoven, como Haydn, Johann Christian Bach e Johann Stamitz, interpretados pelos músicos argentinos convidados (dia 13).

A 2ª Semana de Música Antiga acontece de 10 a 13 de setembro, das 9 às 17h30, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. A programação completa do evento está disponível neste link.

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