Coletivo criado por alunos discute audiovisual e política

Grupo promove evento sobre gravação de manifestações de rua no dia 20, às 19 horas, na USP

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=238497
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O curta Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora foi a primeira produção audiovisual da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP – Foto: Reprodução

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É inegável o fato de que o Brasil passa por um momento importante de sua trajetória política, com rupturas e transformações que tornam difícil prever o caminho que estamos seguindo. Ao mesmo tempo, estamos sempre expostos a uma enorme quantidade de conteúdo que de certa forma reflete esse momento. Além das notícias, há os filmes, séries, novelas, músicas e outras produções em diferentes formatos. Como tudo isso se relaciona? Qual o impacto que essas produções podem ter e de que modo retratam nossa realidade?

Para refletir sobre essa e outras questões surgiu o Coletivo Chá de Fita, fundado por alunos do curso de Audiovisual da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. A ideia é discutir a relação entre política não apenas no cinema, mas no campo do audiovisual como um todo.

Essa discussão será retomada na próxima semana. Na segunda-feira, dia 20, às 19 horas, na ECA, o coletivo vai realizar um debate sobre a gravação de manifestações de rua. O encontro terá a participação da documentarista Lívia Perez, doutoranda da ECA e diretora de Quem Matou Eloá? (2015) e Lampião da Esquina (2016).

Como contam Nayla Guerra, Gustavo Maan e Aline Assis, todos do segundo ano da graduação, o coletivo surgiu de uma necessidade de vários alunos de conversar mais sobre o lugar da produção audiovisual na sociedade, algo que não é contemplado pela grade curricular.

“Isso é uma demanda que já vem com outras turmas, de pensar melhor a contextualização das imagens na sociedade, para que servem, como operam”, diz Gustavo. Ele acrescenta que a sua turma, de 2018, foi a primeira do curso após a aprovação de cotas pela Fuvest – a fundação que organiza o vestibular de ingresso na USP -, o que fez com que muitas dessas discussões surgissem naturalmente durante as aulas. “Além disso, também existem muitas pessoas da turma que querem abordar essas temáticas políticas nos seus filmes, e querem pensar em como fazer isso”, completa.

As primeiras reuniões para a criação do coletivo começaram logo no início do ano passado, e vários alunos se interessaram. Entretanto, a greve que ocorreu no departamento meses depois fez com que os planos fossem adiados, e as conversas só foram retomadas em meados do segundo semestre.

Com isso, surgiu a ideia de fazer um festival para inaugurar oficialmente as atividades do coletivo, e assim foi realizada a primeira Mostra Chá de Fita, em abril passado. Além de debates sobre cinema e política, foram exibidos diversos curtas e longas-metragens, todos produzidos por pessoas ligadas ao Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR) da ECA.

“A ideia foi dar visibilidade às produções feitas aqui para pessoas que não são do CTR. Geralmente, só a gente vê esses trabalhos”, explica Nayla. “Queríamos que pessoas de fora também viessem ver, também discutissem audiovisual e política.”

O que é político?

Para montar a programação da mostra, os estudantes buscaram professores, funcionários e outras pessoas antigas do departamento para perguntar sobre o que foi produzido ao longo das mais de cinco décadas de existência do departamento. Já nesse processo surgiu uma dúvida: afinal, o que seria um filme político?

Essa e outras questões foram levadas para os debates, não necessariamente com o objetivo de encontrar todas as respostas, mas sim para levantar os diversos questionamentos discutidos durante a mostra e nas próximas atividades do coletivo.

A seleção de filmes dessa primeira atividade procurou diversificar temas e abordagens, sempre com o objetivo de expandir as possibilidades de discussão. Além disso, também houve a participação de convidados, como os professores Eduardo Morettin e Eduardo Vicente, que recapitularam a importância política do audiovisual brasileiro nas décadas recentes e falaram também sobre o papel fundamental do CTR nessa trajetória.

Foram resgatadas produções pouco conhecidas do CTR, algumas abordando questões bastante atuais, como o documentário Minoria Absoluta (1995), no qual são entrevistados intelectuais negros da USP, como o geógrafo Milton Santos e o sociólogo Clóvis Moura, que falam sobre a relação da negritude com a academia.

Na mesma linha, trouxeram o curta Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora (1968). O filme foi a primeira produção audiovisual da ECA e, em plena ditadura militar, foi também um dos primeiros no País a abordar a temática LGBT com seriedade, através da história de dois jovens universitários que se conhecem em São Paulo.

A Mostra Chá de Fita, em abril passado, se encerrou com o debate Conjuntura Brasileira: Audiovisual, Mídia e Política em 2018, com Roberta Estrela D’Alva, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC, e o jornalista e documentarista Carlos Juliano Barros – Foto: Divulgação/Coletivo Chá de Fita

A partir das discussões levantadas com essa primeira atividade, o coletivo estruturou a programação de suas primeiras reuniões, que aconteceram nas últimas semanas. Os encontros têm debatido temas como a questão do lugar de fala na arte e a possibilidade desta de gerar transformação social e política. Tudo a partir de textos teóricos e exibição de curtas e videoclipes. Na reunião mais recente, por exemplo, realizada no dia 6 deste mês, assistiram ao curta As Tais Cariátides (1984), de Agnès Varda, e o clipe de Envolvimento, da cantora MC Loma.

Para acompanhar as próximas atividades – entre elas, o encontro sobre gravação de manifestações de rua, no dia 20 -, acesse a página do Coletivo Chá de Fita no Facebook. As reuniões são abertas e acontecem, geralmente, segundas-feiras a partir das 19 horas.

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