Cinusp traz novo recorte para o cinema “noir”

Curador de “30 Tons de Noir” fala sobre a mostra e a retomada de um debate perdido na história do cinema

Por - Editorias: Cultura
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Cais das Sombras (1938), de Marcel Carné, está entre as obras francesas da mostra - Foto: Divulgação
Cais das Sombras (1938), de Marcel Carné, está entre as obras francesas da mostra – Foto: Divulgação

O Cinema da USP (Cinusp) dá início à temporada de mostras de 2017 trazendo ao público, gratuitamente, a mostra 30 Tons de Noir – em referência ao cinema consolidado nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. Em cartaz desde o fim de janeiro, a mostra, que não se restringe em exibir as produções do que se convencionou chamar “noir americano”, permanece em exibição até 19 de fevereiro deste ano.

Apesar de não existir uma definição precisa sobre o que é ou o que caracteriza o film noir, no geral, são filmes esteticamente compostos de fotografia em preto e branco, com baixa iluminação – o que confere uma ambientação sombria e pessimista à narrativa, refletindo os aspectos sociais e psicológicos dos personagens – e que, comumente, rejeitam os rígidos padrões morais da época que foram produzidos. Características que, de um modo ou de outro, estão presentes nos 30 filmes que compõem a mostra.

De acordo com Thiago Oliveira, responsável pela curadoria, apesar de ser um termo francês, a palavra noir se popularizou após ser utilizada, em 1946, por críticos da França para nomear um grupo de filmes norte-americanos produzidos anteriormente, ainda na mesma década. A partir daí, convencionou-se chamar cinema noir, a grosso modo, toda produção norte-americana de caráter pessimista dos anos 40 e 50. “Essa mostra tem um tom bem diferente porque não faz esse recorte”, explica o curador. Segundo ele, a mostra retoma um debate que se perdeu na história do cinema: a relação do noir americano da década de 40 com a cinematografia francesa da década de 30.

Thiago Oliveira, curador de 30 Tons de Noir fala sobre a mostra - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Thiago Oliveira, curador de 30 Tons de Noir, fala sobre a mostra – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Segundo Oliveira, apesar de ficar conhecido por fazer referência à produção norte-americana mencionada, nos anos 30, críticos de cinema franceses já usavam o termo film noir para se referir, em tom pejorativo, às obras produzidas na época consideradas excessivamente pessimistas – semelhantes às produções estadunidenses surgidas dez anos depois. Tais obras serviram de parâmetro aos críticos para dar nome à produção americana. “Isso foi quase que totalmente apagado da história do noir e a gente tá retomando isso”, ressalta.

Com uma mostra que inclui não só os clássicos do noir norte-americano – entre eles O Falcão Maltês (1941), de John Huston, e Laura (1944), de Otto Preminger -, mas, também, produções francesas da década de 30 – como O Demônio da Algéria (1937), de Julien Duvivier, e Cais das Sombras (1938), de Marcel Carné – o curador conta que busca salientar a relação existente entre os filmes e a influência do cinema francês no que se convencionou chamar cinema noir americano.

O curador mostra a Sala Paulo Emílio, umas das salas em que os filmes são exibidos - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
O curador mostra a Sala Paulo Emílio, umas das salas onde os filmes são exibidos – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Outros tons de noir

A mostra conta, também, com clássicos franceses do período pouco exibidos no Brasil – como A Quermesse Heroica (1935), de Jacques Feyder, e Boulevard do Crime (1945), de Marcel Carné – e com produções que representam a incorporação ao cinema estadunidense de traços do cinema europeu, dada a imigração de realizadores devido à Segunda Guerra Mundial – como é o caso de Fritz Lang, presente na mostra com os filmes M, O Vampiro de Dusseldorf (1931) e Almas Perversas (1945), refilmagem produzida nos EUA do filme A Cadela (1931), do francês Jean Renoir, ambos já exibidos.

Conforme o curador destaca, a mostra apresenta, ainda, representantes do legado do noir francês para outros cinemas. Segundo ele, vale ressaltar a influência  do filme Toni (1935), de Jean Renoir – de caráter extremamente realista, baseado em notícias de jornais – para o neo-realismo italiano, surgido dez anos depois. O filme teve como assistente de direção Luchino Visconti, que, segundo Oliveira, herda muitos dos traços de Toni e, ao produzir o filme Obsessão (1943) – também presente na mostra – viria a ser um dos primeiros realizadores do cinema italiano citado. “Toni é um filme precursor de muita coisa. Ele tanto representa a mostra como mostra todo um legado que se dará na Itália”, afirma.

Serviço
30 Tons de Noir
Quando: até 19 de fevereiro de 2017
Quanto: grátis
Onde: Sala Cinusp Paulo Emílio
Colmeias – Favo 4, Rua do Anfiteatro, 181 – Cidade Universitária, São Paulo-SP
Sessões de segunda a sexta-feira, às 16 e 19h
Sala USP Maria Antonia
Rua Maria Antonia, 294 – Vila Buarque, São Paulo-SP
Sessões aos sábados, às 16, 18 e 20h, e aos domingos, às 18 e 20h

Confira a programação completa.

Mais informações: (11) 3091-3540, das 9h às 17h

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