Cinema da USP traz a criatividade com muito sangue dos filmes trash

A partir de 12 de agosto, mostra de filmes apresenta obras clássicas do gênero mais amado e odiado do cinema

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Nova mostra do Cinema da USP (Cinusp) exibirá filmes do chamado gênero trash – Reprodução/ Cinusp

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Um objeto comum do cotidiano que passa a cometer homicídios, em cenas sangrentas que causam horror – ou risadas – em quem vê, produtores e diretores com pouco orçamento e muita criatividade, que apostam em roteiros mais livres da linha lógica de raciocínio, e um público extremamente fiel. Essa é uma das mais variadas descrições possíveis para o trash. No mundo das grandes telas, os filmes de terror exagerado e com personagens inimagináveis são um dos fatores que marcam essa categoria do cinema. O Cinema da USP Paulo Emílio (Cinusp) organiza a Mostrash: Sangue, Terror e Tripas,  com a exibição de 12 filmes, de 12 a 25 de agosto. As sessões vão ocorrer na Cidade Universitária e, nos finais de semana, no Centro Universitário Maria Antonia da USP. A entrada é gratuita.

A programação conta com A Noiva do Monstro (1955), de Ed Wood, O Diabólico Dr. Z (1966), de Jesús Franco, e Rubber – Pneu Assassino (2010), de Quentin Dupiex, entre outras produções internacionais. Destaque também para Trash – Náusea Total (1987), com direção de ninguém menos que Peter Jackson, que dirigiu a saga O Senhor dos Anéis, trilogia que ganhou 17 estatuetas do Oscar. No cenário do trash brasileiro, a mostra traz O Segredo da Múmia (1982), dirigido por Ivan Cardoso, e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, de José Mojica Marins, que vive o Zé do Caixão na narrativa.

O trash ganhou destaque a partir da década de 50. O dinheiro investido era mínimo e limitava as questões técnicas das produções, fazendo com que efeitos fossem um tanto quanto visíveis e que acabaram por marcar o gênero. A imensa maioria dos filmes trata de terror e usa cenas com muito sangue, mas que não necessariamente causam aflição. Com o passar do tempo e a disponibilidade maior de equipamentos tecnológicos, os filmes puderam trabalhar as limitações técnicas, mas a temática já havia sido adotada. Os efeitos evoluíram, mas o aspecto de apelo visual continuou e ainda continua.

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Produção brasileira, O Segredo da Múmia está presente na programação da mostra – Foto: Reprodução/ Embrafilme – Empresa Brasileira de Filmes S.A.

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Filmes trash seriam produções ruins que tentavam, mas não conseguiam ser levadas a sério. Ironicamente, o ruim apontado pelos críticos de cinema é que se tornou o diferencial nessas produções. “Foi um movimento contrário que ocorreu com esses filmes. Eles mostram como se virar com pouco e sem depender da estética”, conta o curador Rodrigo Azevedo, aluno do curso de Audiovisual da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, responsável pela mostra. Envolvido nesse universo, ele propôs a exibição dos filmes por perceber as variadas referências que podem ser encontradas em filmes que não necessariamente se definem como trash.

“Não cabe um juízo de valor sobre essas produções. Trash é muito utilizado em um sentido pejorativo”, comenta Azevedo. Em sua pesquisa para desenvolver as exibições, o curador procurou filmes que retratassem a qualidade que ele mais destaca no seguimento: abordar temas que são “fora da caixa”. Por sua ousadia e histórico, o trash acaba por não ser produzido pelos grandes estúdios do cinema. Seu acesso e divulgação se tornam mais restritos. Mas a base de fãs é incontestável. “Por essas dificuldades, esses filmes recebem um status de filmes cult. Existe um culto a eles por parte do público, que é muito fiel. Geralmente são realizados por produtoras independentes, que estão livres de amarras comerciais. É uma trama especializada, com venda garantida para um nicho específico.”

Nem tudo nesse ramo é passível de boas interpretações. Os filmes mostram muitos estereótipos em seus personagens, como a figura da mulher reduzida ao contexto sexual, a objeto. Na exibição do dia 21 de agosto, após Massacre na Festa do Pijama, de Amy Jones, haverá um debate sobre a questão com a cineasta Larissa Anzoategui. “É algo que não dá para relevar. É preciso ter um olhar crítico. É preciso evoluir nesse sentido, fazer de uma maneira melhor, ver os filmes e incentivar as pessoas a essa mudança”, complementa Azevedo, que buscou, ao fazer o recorte de filmes, trabalhar com a representatividade, como mulheres dirigindo ou escrevendo os roteiros das produções, por exemplo. “Mas ainda tem estereótipos”, frisa ele.

Zé do Caixão, personagem de José Mojica Marins, é um dos ícones do terror nacional – Créditos Reprodução/ Paranaguá Cinematográfica

A respeito do cenário nacional de produções trash, o curador afirma que há um potencial no Brasil de fazer esses filmes, mas eles ainda são pouco conhecidos. “Isso acontece até mesmo com o Zé do Caixão. É uma figura que todos conhecem, mas, se perguntar quem assistiu aos filmes dele, poucos vão dizer sim”, diz Azevedo, citando o personagem criado pelo cineasta José Mojica Marins. Uma das referências do terror nacional, Zé do Caixão provocou até mesmo um certo embate com a ditadura instalada no Brasil entre 1964 e 1985. “O Cinema Novo, de Glauber Rocha, fazia críticas para o sistema. O Zé do Caixão não necessariamente. Mas a sua forma subversiva era o que agredia a moral da ditadura. Ele precisava de uma liberdade que não dialogava com os ‘valores  da família’.”

Produções do gênero trash já receberam prêmios importantes. Balada do Amor e do Ódio, de Álex de la Iglesia, por exemplo, ganhou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes, da França.

Mostrash: Sangue, Terror e Tripas, do Cinema da USP Paulo Emílio (Cinusp), acontece de 12 a 25 de agosto, de segunda a sexta-feira, às 16 e às 19 horas, no favo 4 das Colmeias (Rua do Anfiteatro, 181 , Cidade Universitária, em São Paulo), e aos sábados e domingos, às 18 e às 20 horas, no Centro Universitário Maria Antonia da USP (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, em São Paulo). Entrada grátis. Confira a programação completa e as sinopses dos filmes.

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