Ciclo de seminários revela o universo das relações França-Brasil

Palestras mostram a presença dos viajantes franceses dos séculos 18 ao 20 na cultura brasileira

Por - Editorias: Cultura
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Portrait au gilet vert (1837), Eugène Delacroix – Imagem: Reprodução/Enviada pela pesquisadora

São as relações França-Brasil presentes em nossa história, literatura e artes que o Ciclo de Seminários História das Relações Franco-Brasileiras: França e Brasil em Textos e Telas do Século 18 ao Século 20 apresenta na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. A programação, com entrada gratuita a todos os interessados, começou no último dia 7 de maio e continua nos próximos dias 21 de maio, 4, 11 e 18 de junho, sempre às segundas-feiras, das 9 às 17 horas.

A ministrante de todas as palestras é a historiadora Ana Beatriz Demarchi Barel, professora da Universidade Estadual de Goiás (UEG). “A literatura revela aspectos da natureza dessas relações e, ao mesmo tempo, recria o universo franco-brasileiro, interagindo com a realidade histórica e provocando modificações”, observa.

“Estamos apresentando uma seleção de textos importantes escritos por viajantes franceses ao Brasil no século 19, discutindo suas especificidades e propondo a leitura de alguns trechos significativos das obras. É um recorte relevante de projetos representativos dessa produção.”

Mapa da África e norte da Espanha, de 1832 – Imagem: Reprodução/Enviada pelapesquisadora

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Les femmes de Alger, de Delacroix – Imagem: Reprodução/Enviada pela pesquisadora

No dia 21 de maio, o tema será “Viagens Marinhas, Viagens Imaginárias: Relatos de Viajantes Franceses ao Brasil no Século 19”. Ana Beatriz pretende abordar o legado dos inúmeros viajantes europeus que elegeram o Brasil como destino para suas viagens. “Quer se trate de projetos pessoais ou de missões diplomáticas, científicas e artísticas, esses viajantes deixaram registros de sua estada em nosso país.” De uma lista extensa de nomes, Ana Beatriz escolheu as obras de Jean-Baptiste Debret (Voyage pittoresque et historique au Brésil – 1834‐1839), Ferdinand Denis (Le Brésil, ou histoire, mœurs et coutumes des habitants de ce royaume – 1822), Lettres familières et fragments du journal intime de Ferdinand Denis à Bahia (1816‐1819), e Adèle Toussaint‐Samson (Une parisienne au Brésil – 1883).

As palestras que Ana Beatriz está apresentando resultam também da residência em pesquisa na Biblioteca Mindlin entre 2016 e 1017. “Nesses dois semestres, desenvolvi o projeto de pesquisa ‘Representações e Redes Transatlânticas: Relações França-Brasil nos Escritos de um Viajante Oitocentista’”, explica. “Nesse trabalho, aprofundei algumas questões sobre a viagem de Ferdinand Denis ao Brasil através da análise de sua correspondência familiar, de seu diário pessoal e de documentos encontrados nos Arquivos Diplomáticos da França”.

É uma forma de explicitar que durante séculos uma ideia de Brasil foi sendo construída e definida pelo olhar estrangeiro.”

Todos os temas são, segundo Ana Beatriz, de interesse para estudantes, professores e pesquisadores das áreas de ciências humanas, letras, história, artes visuais, relações internacionais, geografia e também de botânica. “É uma forma de explicitar que durante séculos uma ideia de Brasil foi sendo construída, uma imagem de Brasil foi sendo definida pelo olhar estrangeiro que, muitas vezes, idealiza ou, por outro lado, distorce esse universo, projetando certos desejos e ‘fantasmas’ sobre um espaço que se pretende ocupar, colonizar”, ressalta. “Ao mesmo tempo, os desenhos, aquarelas, álbuns, diários, correspondências, textos literários e historiográficos também informam sobre os projetos desses viajantes, fornecendo-nos chaves para compreender o olhar europeu.”

Visão do Paraíso com Palmeiras Buritis no Cerrado do Mato Grosso (1827), de Adrien Taunay – Imagem: Reprodução/Enviada pela pesquisadora

Através do material literário e iconográfico produzido pelos viajantes pesquisadores, é possível entender o Brasil de hoje. “Os textos literários e historiográficos, desenhos, aquarelas, álbuns, diários nos colocam diante de um espelho, mas nem sempre nos reconhecemos nessa imagem que o estrangeiro construiu de nós. Ainda hoje, temos certos comportamentos como nação que são respostas a um certo lugar que nos reservaram. E nem sempre ele é bom para nós. Rever essas ideias é sempre importante para construir nossa própria identidade.”

No século 19, após a Independência, em 1822, o Brasil aproxima‐se da França, adotando os parâmetros culturais franceses como referência.”

O Ciclo de Seminários prossegue no dia 4 de junho, com o tema “Revista Nitheroy, 1836, Paris, França: A Certidão de Nascimento do Brasil Romântico”. “No século 19, após a Independência, em 1822, o Brasil aproxima‐se da França, adotando os parâmetros culturais franceses como referência para a montagem de nosso aparelho de Estado”, esclarece Ana Beatriz. “Um dos instrumentos mais importantes para a explicitação desse projeto é a revista Nitheroy. Publicada em Paris, em 1836, configura‐se como momento de fundação do Brasil independente nas letras e como marco do surgimento oficial da estética romântica em nosso país.”

Baía de Guanabara Vista da Ilha das Cobras (1828), de Félix Taunay – Imagem: Reprodução/Enviada pela pesquisadora

No dia 11 de junho, o tema “Delacroix e o Marrocos: O Oriente na Pintura de um Romântico” traz uma análise de trechos do diário de Eugène Delacroix à luz de seus quadros e aquarelas. “Essa produção pictórica e escrita se insere, muitas vezes, em projetos expansionistas promovidos por Estados no contexto colonialista”, observa a historiadora. “Pretendemos apresentar aos interessados quadros e aquarelas do mais importante pintor do romantismo francês e que contribuem para uma produção de pintores viajantes, sobretudo dos que viveram antes da construção da ideia de Oriente.”

Iracema (1884), de José Maria de Medeiros – Imagem: Reprodução/Enviada pela pesquisadora

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Operários (1933), de Tarsila do Amaral – Imagem: Reprodução/Enviada pela pesquisadora

O encerramento do ciclo será no dia 18 de junho, com o tema “Pontes entre o Romantismo e o Modernismo Brasileiros”. Ana Beatriz traz um tema instigante para a reflexão sobre a arte e a literatura brasileiras. Parte dos projetos de José de Alencar e Machado de Assis até Oswald e Mário de Andrade. “Alguns conceitos ativados nas polêmicas do século 19 voltam à tona nas discussões de 1922, desta vez, porém, alteradas por questões específicas do século 20 e relacionadas com o agitado momento histórico dos loucos anos 20”, afirma. “Se o século 19 está mais diretamente ligado ao universo carioca e suas idiossincrasias, o 20 passa, obrigatoriamente, por São Paulo e suas reivindicações. Em ambos os momentos, conceitos como nação, nacionalismo, identidade são discutidos. Quem somos nós, brasileiros, na literatura romântica e na literatura modernista? Que dizem essas obras a nós, leitores de um século 21, em que esses mesmos conceitos nunca foram tão questionados num mundo globalizado e, no entanto, profundamente intolerante?”

As próximas palestras do Ciclo de Seminários História das Relações Franco-Brasileiras: França e Brasil em Textos e Telas do Século 18 ao Século 20 acontecem nos dias 21 de maio, 4, 11 e 18 de junho, sempre às segundas-feiras, das 9 às 17 horas. A entrada é gratuita, mas é preciso fazer inscrição com antecedência pelo telefone (11) 3091-1154 ou pelo e-mail bbm@usp.br. A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP fica na rua da Biblioteca s/nº, Cidade Universitária, em São Paulo.

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