Aversão à humanidade é tema de mostra do Cinema da USP

Filmes serão exibidos até 24 de fevereiro na Cidade Universitária e no Centro Universitário Maria Antonia

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=221377
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Aconteceu perto da sua casa
Violência gratuita
Taxi driver
Sozinho contra todos
Salò ou os 120 dias de Sodoma
Relatos selvagens
Para sempre Lilya
O diabo, provavelmente
Nu
Não matarás
Laranja mecânica
Felicidade
Cronicamente inviável
Battle Royale
O animal cordial

Ao partir da desconfiança, passando pela antipatia e até o ódio mais violento, a nova mostra do Cinema da USP (Cinusp) traz 15 obras que analisam as várias faces da crueldade com que pessoas tratam as outras socialmente. Denominada Cinema e Misantropia, a exibição abre a programação de 2019, convidando o público a encarar frente a frente o lado mais sombrio do ser humano.

A mostra acontece entre 28 de janeiro e 24 de fevereiro, de segunda a sexta feira, em sessões às 16 e às 19 horas, no Cinusp, na Cidade Universitária, e nos finais de semana, às 18 e às 20 horas, no Centro Universitário Maria Antonia.

A curadoria reúne clássicos do cinema mundial, ícones da temática distópica, sucessos de bilheteria e até um mockumentário. Um dos curadores da pesquisa, Luis Henrique dos Santos, comenta que os vários sentidos da palavra “misantropia” foram estudados para expandir e ao mesmo tempo delimitar a seleção de longas. A palavra de origem grega, literalmente entendida como “ódio ao ser humano”, pode adquirir muitas abordagens e leituras, que possibilitaram à mostra ser diversificada.

“São filmes que nos deixam com a sensação de ‘odeio a humanidade’ depois de assistir. Causam incômodo e sensação de desiludido com a vida”, explica Santos sobre um dos critérios de seleção. Outro ponto em comum entre os filmes é ter personagens, protagonistas ou coadjuvantes e ambientes que sejam misantropos.

Um antropófobo, que significa “pessoa que tem fobia a seres humanos”, costuma ser caracterizado por uma persona que interage apenas pela violência, principalmente física, mas a exibição traz as muitas aparências que um misantropo pode ter. Os protagonistas se vestem de assassinos ocasionais, um adolescente de classe média, uma garçonete, um milionário e até mesmo um casal.  “Pensamos em diversificar os personagens, não apenas o psicopata. A gente pensou em outros que também representam a misantropia”, comenta o curador.

O cinismo, o sadismo e a violência que florescem em personagens que se sentem injustiçados e aquém do restante da humanidade os levam a diversas expressões de brutalidade. As cenas fortes de violência, que provocam desconforto no espectador, caracterizam as produções, tornando-as polêmicas e até proibidas em alguns países. Luis Henrique dos Santos vê o cinema como uma forma de trazer essa discussão. “Ele tem esse papel de provocar reflexões possíveis no espectador, mesmo que implique mostrar verborragicamente na tela uma cena muito violenta, com que você provavelmente não teria contato.”

“São películas que trazem situações que não se veem comumente. Não é como se fizesse parte do cotidiano lidar com a mente de um psicopata”, continua. De fato, não é habitual se deparar com pessoas como o protagonista Alex DeLarge, do clássico consagrado do universo distópico Laranja Mecânica, dirigido por Stanley Kubrick em 1971. Em um futuro paralelo, violentas gangues de jovens se tornam um problema social. Alex é o líder de uma delas, que violenta física e sexualmente e mata pessoas ouvindo música clássica. Ao ser preso, torna-se cobaia de um sistema de reabilitação que o torna incapaz de cometer atos agressivos – por mais que deseje.

As longas sequências da gangue em ação e do desespero do protagonista como uma “laranja mecânica” requerem estômago do espectador. Com uma boa recepção na época, gerando até indicação ao Oscar de Melhor Filme de 1972, o longa de Kubrick harmoniza com a ideia de misantropia.

Os 120 Dias de Sodoma é considerado um dos mais polêmicos da mostra do Cinusp. A película italiana de 1976 foi até proibida na então Alemanha Ocidental, acusada de “incitar à violência e pornografia”. Baseado no livro homônimo do Marquês de Sade, quatro libertários fascistas sequestram 16 jovens e os aprisionam em uma mansão, usando-os para satisfazer seus mais perversos desejos. Escatologia, tortura, violência sexual, sadomasoquismo e morte são estampados na tela para o público assistir. A produção ainda foi marcada pelo assassinato de seu diretor, Pier Paolo Pasolini, meses depois da estreia da produção.

O curador Luis Henrique dos Santos conta que, partindo do extremo oposto da obra kubrickiana, a curadoria buscou expressões mais implícitas dessa ojeriza entre seres humanos. Lançado em 1998 e classificado como uma “comédia dramática”, Felicidade trata a misantropia de forma subliminar. O longa fala das perversões de uma comunidade norte-americana que, a fim de suprir suas frustrações sexuais, recorre ao pior de si mesma em busca da felicidade e do prazer.

A mostra Cinema e Misantropia acontece de 28 de janeiro a 24 de fevereiro nas salas do Cinema da USP (Cinusp) da Cidade Universitária (Rua do Anfiteatro, 181, Colmeias, Favo 4) e no Centro Universitário Maria Antonia (Ceuma) da USP (Rua Maria Antonia, 258/294, Vila Buarque, em São Paulo). Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3091-3540. A programação completa da mostra está disponível no site do Cinusp

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