Áudios inéditos mostram João Gilberto informal, mas sempre rigoroso

Gravações feitas na Bahia entre 1959 e 1960 são divulgadas agora pela Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles

 11/06/2021 - Publicado há 4 meses  Atualizado: 14/06/2021 as 22:22
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O ativista cultural baiano Carlos Coqueijo, responsável pelas gravações, e João Gilberto em 1963 – Foto: Acervo pessoal/Carlos Coqueijo

 

Neste mês em que João Gilberto (1931-2019) faria 90 anos, a Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles (IMS), divulgou um material inédito do cantor e compositor baiano. Esse material é composto de três fitas de rolo, que registram 38 músicas interpretadas por João Gilberto, 20 delas nunca gravadas em disco.

As fitas foram captadas pelo ativista cultural, jurista, músico e cronista baiano Carlos Coqueijo (1924-1988), de quem João Gilberto era amigo. Duas delas, gravadas na residência de Coqueijo, em Salvador, nos anos de 1959 e 1960, em reuniões informais nas quais João Gilberto toca violão e canta. A terceira foi captada em um show de João e Vinicius de Moraes, na Associação Atlética da Bahia, em 1960.

Como revela o material disponível na Rádio Batuta, João Gilberto ficou à vontade para interpretar canções que já eram do seu repertório, outras que ainda incluiria em discos e outras que jamais viria a gravar, fazendo em algumas delas duo com sua então esposa, Astrud Gilberto. As gravações foram transferidas para cassete por Aydil Coqueijo, viúva do ativista cultural, e depois digitalizadas. Todo o material foi entregue à pesquisadora Edinha Diniz, que o cedeu à Rádio Batuta, vindo a público somente agora. Do conjunto inédito estão, por exemplo, Jeito de Flor, única parceria de João Gilberto com Ronaldo Bôscoli, e Sem Você, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Também se pode ouvir comentários do próprio João Gilberto nas gravações.

“Quando escutamos um disco de João Gilberto, por mais que a sua voz e o seu violão pareçam espontâneos, esse é um dos efeitos da sua dedicação, do tempo que levou estudando, praticando, experimentando.”

Para o pesquisador e crítico Walter Garcia, docente de Música do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP e organizador do livro João Gilberto, há quatro aspectos que devem ser destacados a respeito das gravações divulgadas pela Rádio Batuta. O primeiro, segundo ele, é este: “Quando escutamos um disco de João Gilberto, por mais que a sua voz e o seu violão pareçam espontâneos, esse é um dos efeitos da sua dedicação, do tempo que levou estudando, praticando, experimentando”. E esse processo, lembra o professor, decorria da ideia e do sentimento de que a perfeição só poderia ser alcançada durante a execução da música, “ou, como notou o pesquisador Otávio Filho, João Gilberto buscava a perfeição na comunhão ‘com o tempo e o espaço e as condições (muitas vezes pouco ideais)’”.

O professor Walter Garcia: João Gilberto não deixava de estudar uma música, mesmo depois de gravada – Foto: Reprodução/YouTube

“Em outras palavras, uma interpretação podia ser considerada perfeita hoje, mas não amanhã, porque o artista, as pessoas à sua volta, o lugar, a situação, tudo, enfim, estaria diferente”, comenta Garcia. E continua: “Por isso o estudo não era interrompido depois de uma gravação, como nos mostra o registro de Brigas, Nunca Mais, na casa de Carlos Coqueijo, em 10 de setembro de 1959. Essa canção havia sido interpretada por João, meses antes, para o LP Chega de Saudade, e ele não parou de buscar soluções harmônicas e rítmicas. Daí o porquê de algumas composições terem sido gravadas mais de uma vez ao longo da sua obra: a cada nova gravação, novos recursos musicais eram utilizados. Por outro lado, daí também algumas composições nunca terem sido gravadas, nem mesmo apresentadas em público”, explica Garcia. O professor cita como exemplos Jeito de Flor, “’boa para tocar, mas ruim para cantar’, como escutamos João dizer na casa de Coqueijo”, e a letra de Comigo é Assim, que ainda não estava ‘no sangue’”. Em resumo, diz Garcia, o estudo era útil, mas, por razões diversas, poderia não gerar um produto.

“A sua música, afinal de contas, era executada com prazer e proporcionava, como ainda proporciona, prazer.”

O segundo aspecto destacado por Garcia “é que João Gilberto, seja informalmente, na casa de seu amigo Carlos Coqueijo, seja no show que dividiu com Vinicius de Moraes na Bahia, em 29 de outubro de 1960, demonstra pleno domínio não só da voz e do violão como de vários gêneros de música popular, desde os repertórios de Francisco Alves e Orlando Silva até canções de tradição oral”. Para verificar isso, o professor recomenda escutar Despedida de MangueiraCigana, Cavalo Marinho e Borboleta Bonitinha, além de comparar o canto de João Gilberto em Comigo é Assim com o estilo de Jackson do Pandeiro e o de Germano Mathias. Ou ainda comparar o violão de João em Let’s Fall in LoveCheek to Cheek com a guitarra de Barney Kessel, e Foi a Noite com as canções praieiras de Dorival Caymmi.

Já o terceiro aspecto, como diz, é que havia diversão junto da pesquisa séria. “Na casa de Carlos Coqueijo, em mais de um momento, João Gilberto brinca. A sua música, afinal de contas, era executada com prazer e proporcionava, como ainda proporciona, prazer”, analisa.

Esse aspecto leva ao último: “Lorenzo Mammì já observou, com grande acerto, que ‘física e musicalmente, João Gilberto não sai de casa’, e que ele parecia se alojar ‘por completo numa dimensão da memória’”.

O professor finaliza comentando a importância dessas gravações que agora chegam até o público: “Para quem teve a sorte, como eu tive, de assistir a apresentações de João, escutar algumas de suas interpretações na casa de Coqueijo é recordar passagens de seus shows: a mesma precisão, o mesmo rigor, a mesma sensação de que o artista está à vontade – exigindo de nós, todavia, a mais completa atenção para que a sua música aconteça”.

As gravações inéditas de João Gilberto estão no site da Rádio Batuta, com links para a Fita 1, Fita 2 e Fita 3.


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