Aldir Blanc: o escultor de ventos

Compositor escreveu alguns dos versos mais cantados da música popular brasileira

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O compositor Aldir Blanc – Foto: TV Cultura/Reprodução

A Lei da Anistia tinha sido decretada em 1979. Finalmente, os exilados estavam voltando ao Brasil. Um deles foi ao show no Canecão, Rio de Janeiro. No caminho para o banheiro, cruzou com um sujeito alto, de barba e cabelos fartos e espichados. Deduziu quem era e, sorrindo, disse-lhe:

– É você, não é? Eu pretendia terminar os meus dias lá fora e voltei por causa dessa música, seu f.d.p.

Esse foi o primeiro contato entre o sociólogo Betinho e o letrista da música que o trouxe de volta ao seu país:

Meu Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil

Com tanta gente que partiu num rabo-de-foguete

Aldir Blanc, letrista e escritor, também partiu num rabo-de-foguete. Foi na madrugada desta segunda-feira, 4 de maio de 2020, com 73 anos, mesmo dia em que foi encontrado morto outro grande artista brasileiro, o ator Flávio Migliaccio. Vítima de covid-19, Blanc se juntou ao irmão do cartunista Henfil, personagem chapliniano da mais célebre de suas músicas, O Bêbado e a Equilibrista.

Se é um dilema para o Jornal da USP não poder homenagear nominalmente todas as pessoas que estão sendo vitimadas por essa pandemia, de certa forma elas estão representadas por Aldir Blanc, que tão bem soube trazer à luz de sua poesia os sujeitos sem fama, das ruas e dos bairros onde a vida cotidiana costura os dramas anônimos.

Ele que, para retratar os personagens de suas composições, precisou driblar a censura. Como foi o caso da canção Mestre-Sala dos Mares. Na mesma entrevista a José Reinaldo Marques, da Associação Brasileira de Imprensa, na qual contou seu primeiro encontro com Betinho, Aldir Blanc lembrou que no prédio da Censura alguém disse a ele: “Vocês estão errando. Estão trocando os versos, mas a palavra ‘negro’ permanece. Vocês estão fazendo apologia do negro e a nossa orientação aqui é para não aceitar esse tipo de coisa. Já te dei o toque, agora vê o que você arruma”.

Aldir, então, usou uma estratégia que havia aprendido na gravadora RCA. Tornou a música meio surrealista, com “baleia” e “polacas”, e substituiu o “almirante negro” por “mestre-sala dos mares”. Deu certo. A música foi liberada, “mesmo falando em sangue, chibata, glória a todas as lutas inglórias e tudo mais”, recorda Aldir Blanc aos risos.

O compositor dos personagens equilibristas pelas vias tortas da vida não poderia deixar que o negro saísse de suas músicas. O impedimento não tolheu. Ao contrário, deu-lhe asas para criar imagens memoráveis, como a da canção mencionada.

Palavras ao vento

No documentário Dois pra Lá, Dois pra Cá, o artista plástico Mello Menezes evoca os encontros de uma turma de jovens na praia. Eram os anos 60. E, no meio daquela garotada toda querendo curtir, apareceu uma dupla que causou frisson geral. Um era Sílvio da Silva Júnior, que ia dedilhando um violão encantador. O outro, nosso letrista Aldir Blanc, encadeava versos com a companhia das cordas que ressoavam. Os rapazes iam chamando as moças, ávidos pela curtição. Mas tinham que esperar. Pois um ou outro dos rapazes mais sensíveis e, como conta Mello Menezes, sobretudo as moças, queriam ficar ali mais um pouco para terminar de ouvir os versos potentes. Ao final, o que se tinha era um monte de jovens chorando de emoção.

“O poder desse cara de usar a palavra, isso não aconteceu depois de adulto. Desde rapaz ele tem o poder de, através da palavra, pegar a pessoa e sacudir. É o que ele fazia na praia”, resume Menezes.

Se alguém unir o vento arenoso dessa praia à brisa fresca das noites nas janelas, estará certo. As serestas são a base da formação de Aldir Blanc. A atração pela riqueza das letras, a capacidade de criar imagens fascinantes, tudo isso marcou profundamente o compositor. Na sua cabeceira musical estão Silvio Caldas, Onésimo Gomes, Orlando Silva, Lamartine Babo, Ary Barroso e, mais à frente em sua vida, Cartola e Nelson Cavaquinho.

Os livros também integraram seu repertório cultural. Seus mais de 15 mil, espalhados em pilhas como os morros de sua cidade, testemunham essa paixão. Dos Monteiros Lobatos da infância, passando pelas aventuras de detetives, até chegar em Jorge Amado, Guimarães Rosa, Adonias Filho, Drummond, apaixonado que estava pelos autores brasileiros depois de ser impactado por Carlos Heitor Cony e Sérgio Porto – este, também conhecido, ou até mais, pela alcunha de Stanislaw Ponte Preta.

Livros que incluem também seu repertório de estudos da psique. Ele, que se especializou em psiquiatria depois de quase abandonar o curso de medicina já no final. Um amigo, na brincadeira, dizia que ele não batia bem da cabeça. Talvez tivesse um pouco de razão. Aldir gostava mesmo é de bater bem nos instrumentos de percussão, o que era cada vez mais inconciliável com a preparação para a carreira médica. Foi esse amigo de curso que o demoveu da ideia de largar a faculdade e encontrou para ele um local que julgava mais adequado à sua personalidade: ali na Enfermaria Pedro Pernambuco Filho, no Engenho de Dentro, um centro psiquiátrico onde a precariedade era gritante. Aguentou um ano e depois abriu seu consultório particular, que, não raro, expandia suas sessões para a rua ou um bar próximo.

O trauma da perda de suas filhas gêmeas, em 1974, encerrou sua carreira médica. Na época, já era um letrista consagrado, o preferido de Elis Regina.

Suas composições dividiram inspiração com parceiros como Guinga, Djavan, Moacyr Luz e tantos outros. E, claro, o mais emblemático de todos os parceiros: João Bosco. Como cronista, passou por jornais como Última Hora, Jornal do Brasil, Estadão e aquele que marcou sua trajetória como uma das lendas da comunicação brasileira: O Pasquim, que passou a integrar em 1975. Também escreveu livros e seguiu sempre se atualizando na bibliografia da psicoterapia e psicanálise.

Há tempos recluso e cercado por seus livros, acostumou-se a ver seus versos ganharem a autoria do imaginário popular. Sim, porque a maioria de suas composições goza de grande popularidade, elas voam pelos assobios e pelas cantarolas balançando nos ônibus da cidade, descendo ladeiras e queimando nos lábios cheios de sol das manhãs, mas nem sempre os que as cantam saberão que seu autor é Aldir Blanc. Para ele, tudo bem. Até melhor.

Em entrevista a Fernando Ramos, por ocasião dos seus 70 anos, Aldir Blanc confessou uma de suas grandes emoções na vida: “Um dia, andava de ônibus e ouvi um garoto começar a cantar, batucar e assobiar loucamente Kid Cavaquinho, enquanto eu, sentado uns dois bancos atrás, tinha que me dominar para não chorar. É só isso o que importa para mim”.

Como muitos dos personagens de suas letras, Aldir Blanc é soprado pelo vento de vozes tão anônimas quanto ele é na boca de seus cantores do cotidiano. E tudo bem…

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