Acervo da USP conta a trajetória de Guimarães Rosa

Autor de “Grande Sertão: Veredas”, escritor mineiro faria 110 anos no próximo dia 27 de junho

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“Cordisburgo, pequenina terra sertaneja…” – Foto: Atílio Avancini

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“Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito: lá se desencerra a Gruta do Maquiné, milmaravilha, a das Fadas; e o próprio campo, com vasqueiros cochos de sal ao gado bravo, entre gentis morros ou sob o demais de estrelas.”

Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), em 16 de novembro de 1967, João Guimarães Rosa começou descrevendo a sua terra natal. Na verdade, o depoimento é uma conversa com o amigo diplomata, jornalista e escritor João Neves da Fontoura, que o antecedera na cadeira 2. E também uma resposta, quando o amigo perguntava “Vamos ver o que diz Cordisburgo?”, um questionamento que, segundo Rosa, era feito “com o riso arroucado, quente”, para lembrar também Cachoeira, a cidade natal de Fontoura, “no coração do Rio Grande do Sul”.

Os caminhos infinitos que saem de Cordisburgo – Foto: Atílio Avancini

No discurso, João Guimarães Rosa conta a história de João Fontoura, a quem chamava de ministro, pelo cargo que ocupou à frente das Relações Exteriores em 1946. Uma conversa que talvez tenha anotado, como de costume, em um caderno de bolso, como aqueles tantos que integram o seu acervo bem guardado no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.

Em uma reverência à vida de Fontoura, discursou:

“Mas – o que é um pormenor de ausência. Faz diferença? Choras os que não devias chorar. O homem desperto nem pelos mortos nem pelos vivos se enluta” – Krishna instrui Arjuna, no Bhágavad Gita. A gente morre é para provar que viveu. Só o epitáfio é fórmula lapidar. Elogio que vale, em si, perfeito único, sumário: JOÃO NEVES DA FONTOURA.
Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: “Sobe a luz sobre o justo e dá-se ao teso coração alegria!” – desfere então o salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas.

Três dias depois de ser empossado na Academia Brasileira de Letras, João Guimarães Rosa, que tinha sido indicado para o prêmio Nobel de Literatura, teve um ataque cardíaco. Não resistiu. Mas, como ele mencionou em seu discurso, “as pessoas não morrem. Ficam encantadas”. Guimarães Rosa ficou encantado aos 58 anos.

A capela São José é o patrimônio da cidade – Foto: Atílio Avancini

No próximo dia 27 de junho são comemorados 110 anos de seu nascimento. No célebre depoimento, o escritor continua:

Mais eu murmure e diga, ante macios morros e fortes gerais estrelas, verde o mugibundo buriti, buriti, e a sempre-viva-dos-gerais que miúdo viça e enfeita: O mundo é mágico.
– Ministro, está aqui CORDISBURGO.

O acervo de Guimarães Rosa no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP foi adquirido em 1972, cinco anos depois de sua morte. É a principal fonte para quem pesquisa o autor.”

É a essência do mundo mágico e do sertão de João Guimarães Rosa que os estudantes, professores e pesquisadores encontram no acervo do escritor no IEB. “Esse acervo é composto da biblioteca, com cerca de 3.500 volumes, com uma variedade ampla de assuntos, e há também o arquivo documental, com os seus cadernos de anotações, livros inacabados, fotos e uma infinidade de documentos”, conta a professora Sandra Guardini Vasconcelos, professora do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “O acervo de Guimarães Rosa no IEB foi adquirido em 1972, cinco anos depois de sua morte. É a principal fonte para quem pesquisa o autor.”

As surpresas da paisagem – Foto: Atílio Avancini

Em entrevista ao Jornal da USP e à TV USP (veja o vídeo), a professora fala sobre o escritor, sua obra e o acervo adquirido pela USP. “Guimarães Rosa começa sua carreira literária em 1946, com o livro de contos Sagarana, que foi muito elogiado pela crítica. Dez anos depois, lança duas obras monumentais: Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas. E se torna um escritor reconhecido, definitivamente incorporado na grande galeria dos escritores brasileiros.”

Observar o acervo de João Guimarães Rosa no IEB é contemplar nuances do processo criativo do escritor. Descobrir os livros que ele leu. Ver os originais dos seus livros datilografados por ele em sua velha máquina de escrever e corrigidos com anotações nas margens do papel, feitas a lápis ou canetas de diversas cores. E tentar ler as anotações tremidas por estar escrevendo no lombo de um burro, na travessia da boiada pelo sertão mineiro. Uma viagem que fez em maio de 1952, e entre os vaqueiros conheceu Manuelzão, o grande personagem da obra rosiana.

Fotos do Acervo Fundo João Guimarães Rosa do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Esse acervo instalado no prédio majestoso do IEB ocupa um espaço onde é proibido fotografar ou filmar. A equipe de repórteres teve que aguardar alguns exemplares escolhidos pela professora Sandra e devidamente autorizado por Elisabete Marin Ribas, supervisora do arquivo.

O precioso material vem acondicionado em caixas sobre um carrinho de inox. Sandra veste as luvas de algodão e manuseia com técnica, cuidado. E uma experiência que começou há 40 anos. A professora integrou o primeiro grupo de pesquisadores a entrar em contato com o arquivo de Guimarães Rosa. “Na época eu era aluna de mestrado. Fiquei fascinada pelo Grande Sertão: Veredas e fui me aproximando de outras obras. Tive a honra, o privilégio e a sorte de ser convidada para ser estagiária no IEB para organizar, em 1977, o acervo do escritor”, conta com orgulho. “Fui indicada pela professora Walnice Nogueira Galvão, que pesquisou Guimarães Rosa em seu doutorado, com a orientação do mestre Antonio Candido. De 1977 a 1984, trabalhei na organização do acervo.”

Nos blocos de anotações, é possível ver um escritor que o leitor não conheceu. Um flâneur que contemplava o sertão, as cidades e o ser humano.”

Emociona ver as primeiras páginas do diário da viagem que Rosa fez em 1952 (muitas dessas anotação serviriam posteriormente para a redação de Corpo de Baile), originais que revelam o escritor lapidando cada palavra, lendo e relendo. Um apuro de um escritor artesão e que tornou sua obra uma arte universal, como bem lembrava Antonio Candido. O crítico e professor da USP afirmou: “A gente sentia que o regionalismo dele tinha universalidade dos temas, uma vibração espiritual sobre os grandes problemas que atormentam o homem. A linguagem dele não era documentária, na verdade ele estava criando, inventando uma linguagem plantada em Cordisburgo, mas estava ligada às raízes da língua portuguesa.”

Um dos vários cadernos de anotações de João Guimarães Rosa – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Numa entrevista ao Jornal da USP, em maio de 2006, o professor afirmou: “A linguagem de Guimarães Rosa parece criar uma outra realidade, porque, nela, a palavra ganha uma espécie de transcendência, como se valesse por si mesma. Na obra do escritor mineiro, a palavra é criadora e transcende a matéria narrada”.

Diário de viagem à Paris, de João Guimarães Rosa – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Sandra Guardini Vasconcelos manuseia os blocos que ela organizou no final da década de 1970 com a mesma surpresa, sensibilidade e admiração daquela menina que não imaginava o futuro infinito que a obra de João Guimarães Rosa propiciaria. “Olha só o seu diário de Paris, as suas reflexões. Veja os desenhos”, observa. “Nos blocos de anotações, é possível ver um escritor que o leitor não conheceu. Um flâneur que contemplava o sertão, as cidades e o ser humano.”

Antonio Candido tem razão. O mundo de Guimarães Rosa não era o sertão mineiro. Era o próprio mundo. E a maior dúvida do sertanejo era universal: “Se Deus existe…”

A gente se identifica com suas histórias não só porque elas falam de coisas que a gente conhece, viveu ou poderia viver, mas também, muitas vezes, porque elas trazem ‘realidades’ muito diferentes da nossa, com as quais a gente consegue criar empatia e perceber problemas humanos relevantes.”

A professora Sandra tem orientado diversos pesquisadores sobre a obra de Guimarães. E os trabalhos trazem sempre uma nova face do autor descoberta no acervo. No momento, está orientando o mestrado de Magna Martins, que cresceu em Cordisburgo, contando de cor os contos de Rosa junto com outras crianças do Grupo Miguilin, um projeto que, há 20 anos, forma contadores de histórias. São meninos e meninas de Cordisburgo e arredores que saem pelas ruas lembrando o universo de Grande Sertão: Veredas, Sagarana, Primeiras Estórias.

Cadernos contêm também desenhos de Guimarães Rosa – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

No próximo dia 28 de junho, um dia depois da data do nascimento do escritor, a professora Sandra forma mais um doutor especialista em Guimarães Rosa. “Frederico Camargo também foi estagiário no IEB. O acervo resultou em seu mestrado e doutorado”, explica.

Camargo começou a trabalhar no arquivo em 2008, no final de sua graduação em Letras. “O determinante foi perceber materiais de arquivo que ainda não haviam sido devidamente estudados”, explica. “No mestrado, estudei um conjunto de documentos nomeado ‘Estudos para Obra’. E no doutorado, resolvi analisar algumas narrativas inacabadas de Guimarães Rosa. Tanto num como no outro caso, o acervo do IEB foi central para a pesquisa.”

Sezão, nome anteriormente dado ao livro que depois foi chamado Sagarana – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Apesar de reunir suas pesquisas no mestrado e no doutorado, o trabalho que completa dez anos ainda está em processo. “A gente se identifica com suas histórias não só porque elas falam de coisas que a gente conhece, viveu ou poderia viver, mas também, muitas vezes, porque elas trazem ‘realidades’ muito diferentes da nossa com as quais a gente consegue criar empatia e perceber problemas humanos relevantes”, enfatiza. “Isso talvez seja, de modo muito simplificado e rasteiro, o significado de ‘universal’, e o porquê de leitores estrangeiros poderem gostar de Guimarães Rosa. Nós também, aliás, como moradores da cidade, somos ‘estrangeiros’ a esse universo rosiano.”

Caderno de anotações de Guimarães Rosa feitas durante viagem à Itália – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

No âmbito mais literário, Camargo destaca: “A ‘popularidade’ de Rosa advém de seu invulgar talento técnico na manipulação da língua, na construção de enredos, na descrição de espaços e na caracterização dos personagens, além da grande sensibilidade que ele possui para as questões que condicionam o nosso ‘estar no mundo’. Além disso, um dos méritos de Rosa, válido ainda hoje, foi dar relevância a uma parte marginalizada do País, mostrando suas mazelas e precariedades, mas, juntamente, suas qualidades – humanas, geográficas – e belezas.”

Acredito que o acervo integrado pela biblioteca e documentos é também uma grande obra do escritor.”

“Há muito que se pesquisar no acervo”, lembra Elisabete Marin Ribas, a supervisora técnica do arquivo, que também fez mestrado em Teoria Literária estagiando e pesquisando no IEB. “Acredito que este legado integrado pela biblioteca e documentos é também uma grande obra do escritor.”

Sandra Vasconcelos e Elisabete Ribas no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Elisabete orienta aos que pretendem conhecer o acervo: “O arquivo mantém atendimento personalizado, pois cada pesquisa é única e, para o melhor apoio aos pesquisadores, a vinda para pesquisas é agendada”.

O Atendimento ao Pesquisador funciona de segunda a sexta-feira, das 9 às 13 horas. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 3091-3427 ou pelo site www.ieb.usp.br

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