A trajetória de Suzana Amaral no cinema e na USP

Egressa da Escola de Comunicações e Artes (ECA), diretora morreu no dia 25, aos 88 anos

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A cineasta paulista Suzana Amaral (1932-2020) – Foto:  Mário Miranda Filho/Reprodução

A trajetória de Suzana Amaral no cinema e na USP

Egressa da Escola de Comunicações e Artes (ECA), diretora morreu no dia 25, aos 88 anos

Por Amanda Ferreira
30/06/2020

Suzana Amaral teve nove filhos, oito antes de entrar no curso de Cinema da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, em 1968. Segundo seu sobrinho, o professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR) da ECA João Paulo Schlittler, a família conta que o primogênito da futura cineasta havia entrado na USP um ano antes para cursar Filosofia, e escapou de ser veterano da mãe porque foi fotografar as barricadas em Paris.

Quando o filme A Hora da Estrela (1986) faturou diversos prêmios no Brasil e no exterior – incluindo o Urso de Prata de Melhor Atriz para Marcélia Cartaxo –, Suzana ficou conhecida como “a dona de casa que virou cineasta”. Embora já tenha afirmado não se incomodar com o rótulo, a diretora nunca se identificou com a imagem de mãe devotada. E fazia questão de ressaltar sua relação de longa data com o cinema: “Dona de casa, até parece! Fazia dez anos que eu estudava cinema, trabalhei na TV Cultura por 18 anos. Ninguém vai fazer A Hora da Estrela de sua cozinha. Até porque eu odeio cozinha, como todo dia fora de casa. Dessas coisas femininas, eu só tive uma porrada de filhos. E isso porque eu gostava de transar”.

No início dos anos 70, já formada, Suzana deu à luz sua filha caçula. Os filhos mais velhos e o resto da família se encarregaram dos cuidados com a criança para que a mãe pudesse se dedicar aos estudos e à vida profissional. Nessa época, ela chegou a ministrar aulas de Fotografia e Roteiro na ECA, além de iniciar seu trabalho como produtora e diretora na TV Cultura, filmando diversos documentários em curta-metragem para o extinto programa Câmera Aberta. De sua passagem pela emissora, merecem destaque o curta-metragem Érico Veríssimo (1975), homenagem póstuma ao escritor, a série Pensamento e Linguagem e A Casa de Bernarda Alba, adaptação da obra de Federico García Lorca.

Pôster do filme A Hora da Estrela – Foto: Reprodução/Saraiva

Entre 1976 e 1979, Suzana faz mestrado em Direção de Cinema na Tisch School of the Arts, na Universidade de Nova York, nos Estados Unidos. Lá – onde foi colega dos cineastas Jim Jarmusch e Susan Seidelman – ela teve a ideia de adaptar A Hora da Estrela para seu primeiro longa-metragem. Também em Nova York, concluiu em 1978 o curso de Atuação e Direção de Filmes no Actor’s Studio.

De volta ao Brasil, a diretora foi premiada no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro com o documentário Minha Vida, Minha Luta, seu trabalho de conclusão do mestrado. O filme serviu como inspiração para a luta por creches na periferia de São Paulo, que naquele momento ganhava força.

Suzana Amaral e Marcélia Cartaxo no set de A Hora da Estrela

Suzana Amaral no set de filmagem de A Hora da Estrela. À direita, a atriz Marcélia Cartaxo, que interpretou a protagonista Macabéa. Foto: divulgação/ECA

A partir da segunda metade da década de 80, com o sucesso de A Hora da Estrela, Suzana presidiu comissões julgadoras de importantes festivais de cinema, como o de Havana (1987) e o de Berlim (1990), além de participar de conferências em países como Estados Unidos e Espanha e dirigir, em 1992, a minissérie Procura-se, para a Rádio e Televisão Portuguesa (RTP). Atuou também como crítica de cinema para a Folha de São Paulo e fez parte do júri de diversas edições da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Entre 1999 e 2001, Suzana teve um breve retorno à docência na ECA, para em seguida firmar-se como professora da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Nesse período, lançou seu segundo longa, Uma Vida em Segredo (2001).

O professor João Paulo Schlittler – Foto: Divulgação/Animafest.hr

Como cineasta, Suzana “sempre buscou a simplicidade, o minimalismo, a naturalidade, como na escolha da Marcélia Cartaxo para fazer Macabéa em A Hora da Estrela, atriz que não ‘exagerava’, porque tinha horror a overacting”, afirma o professor João Paulo Schlittler, que fez o storyboard do filme enquanto ainda era estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Anos mais tarde, o professor viria a colaborar novamente com a tia, desta vez criando a abertura de Hotel Atlântico (2009), terceiro e último longa da diretora. “Eu me lembro das reuniões com o Zé Bob, diretor de fotografia. Ela sempre escutava e respeitava a expertise dos profissionais da equipe. Dizia que diretor tem que saber dirigir ator. Nesse filme, passava horas ensaiando com o Júlio Ribeiro, em uma sinergia incrível entre o ator e diretora.”

Schlittler conta ainda que a cineasta vinha trabalhando nos últimos anos em um novo projeto, “um dos seus sonhos ainda não realizados” e infelizmente interrompido depois de um AVC que Suzana sofreu há pouco mais de um ano. Trata-se do longa O Caso Morel, baseado no romance de Rubem Fonseca. Aliás, a cineasta afirmava que não fazia adaptações, e sim “transmutações”: “Na transmutação eu me coloco também, é uma mistura. É o livro mais eu mesma. Eu o leio e me incluo na transcrição de uma coisa pra outra, então ele muda devido à minha entrada. Tem cenas que não existem no livro e eu fiz acontecer, que eram coisas da minha vida pessoal. É uma incorporação de mim com o autor do livro”.

A morte de Suzana representa uma perda inestimável para o cinema brasileiro, e foi lamentada pela diretoria da ECA e por todo o corpo docente do CTR. Além de Schlittler, os professores Maria Dora Mourão, Carlos Augusto Calil e Fernando Scavone também tiveram a oportunidade de conviver com a cineasta, tendo sido seus colegas durante os anos de graduação.

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