A metáfora e o fato. “Cálice”

“É mais fácil reconhecer o sabor da liberdade quando se experimenta a privação”

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Fotomontagem: Vinicius Vieira/Jornal da USP

Por Janice Theodoro da Silva

 

Pai, afasta de mim esse cálice

Pai, afasta de mim esse cálice

Pai, afasta de mim esse cálice

De vinho tinto de sangue

Gilberto Gil e Chico Buarque

 

A tormenta passou.

Passou?

Esse era o meu sentimento em relação ao período da ditadura militar no Brasil. A liberdade tem gosto, musicalidade, forma. É mais fácil reconhecer o sabor da liberdade quando se experimenta a privação. Ter limite para falar, escrever, ouvir, limite para ver teatro, cinema, olhar uma escultura, um corpo nu. Romper com a liberdade é, de certa forma, romper com a vida. Tudo ao redor fica sem luz ou brilho. Sobram vestígios, metáforas, uma estética minimalista, ou uma risada hermética. Escutem a música Cálice e sintam o ficar calado.

Conheci de perto a repressão. Chorei o amigo morto, vi e ouvi a tortura. Não há esquecimento possível. Procurei a dignidade para enterrar meus mortos na elaboração do relatório da Comissão da Verdade da USP, instituição onde me formei, na vida e nos saberes, lugar onde trabalhei, fiz amigos, daqueles para quem contamos segredos.

Policiais em ação durante a ditadura militar – Foto: Wikimedia Commons

Olhava a ditadura como coisa do passado. Mudei muito com o passar dos anos. Considerava inevitável repensar as instituições democráticas. Buscava a gênese das coisas mais no miúdo, no desenho rabiscado pelos filhos e netos, com a gênese na natureza, críticos às questões de gênero e poder.

De repente, tudo mudou. Foi um susto.

O pensamento conservador reapareceu com força. Com ele reviveram a ideia de família, fechada, trancada com chaves, com papéis e gêneros rígidos, nações com fronteiras e conflitos, criando um profundo mal-estar com as migrações e instituições internacionais. Na sequência, a instrumentalização do conflito, a valorização da força e da violência arbitrária. As palavras fascistas e antifascistas, próprias de uma conjuntura específica, voltaram a qualificar pessoas e circunstâncias. Símbolos nazistas reapareceram pintados em muros. Antigos argumentos políticos e palavras retornam sugerindo perseguições: um pesadelo.

Parei para pensar se era loucura, velhice ou fato.

Era fato.

Fatos antigos, parte deles recuperada pela Comissão da Verdade da USP por meio de uma pesquisa rigorosa em diversos arquivos brasileiros, realizada por estudantes da USP, nomeados individualmente em relatório da instituição. A história é como o mar: olhando para o horizonte, parece sempre igual, mas na praia tudo muda. A força das águas é grande, vence até pedra, e o que parecia terra, lugar seguro, muda, hora avança, hora recua.

Vamos aos fatos.

 

Esse silêncio todo me atordoa

Atordoado eu permaneço atento

Na arquibancada pra a qualquer momento

Ver emergir o monstro da lagoa

Gilberto Gil e Chico Buarque

Manifestação contra a ditadura militar – Foto: Wikimedia Commons

Reproduzo pequenos trechos do relatório (volume I, acessível na internet) sobre as perseguições a pesquisadores brasileiros, para a justa recuperação da memória e da história.

Trata-se de informações retiradas de documentos do SNI (Serviço Nacional de Informações, órgão criado em 1964 pelo governo militar), cujos originais estão depositados em arquivos públicos brasileiros. O relatório reproduz os documentos e os insere no tempo, no espaço e na história, de forma a facilitar a leitura.

Seguem fragmentos do texto original do relatório da Comissão da Verdade da USP.

“O objeto da informação é a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Trata-se de avaliação realizada pela Agência Central do SNI sobre a Assessoria Especial de Segurança e Informação Aesi/USP.

É possível hoje, por meio de evidências documentais, identificar os riscos a que estavam sujeitas a Universidade e as instituições de pesquisa, com a avaliação política que o serviço de segurança da USP (Aesi) fazia de seus pesquisadores (…).

O informe citado neste artigo descreve pormenorizadamente a estrutura da Fapesp e seu funcionamento para, em seguida, desqualificar inúmeros pesquisadores brasileiros e estrangeiros em razão de suas supostas posições políticas. 

O professor Oscar Sala, na época diretor da Fapesp, foi denunciado segundo o Informe nº 868, de 13 de novembro de 1975, elaborado pela Aesi/USP. Nesse documento, o professor foi considerado subversivo e responsável por manter, na Fapesp, 400 assessores científicos secretos, supostamente para dinamizar o trabalho de infiltração marxista no País.

Já o Pedido de Busca nº 692/19/AC/75, de 1º de janeiro de 1976, da Agência Central do Serviço de Informações da Presidência da República (SNI), não só discordava da informação produzida pela Aesi/USP sobre o professor Sala como considerava Krikor Tcherkesian, funcionário da Aesi/USP (…)“inidôneo quer sob o ponto de vista moral, quer sob o prisma funcional”.

Com relação ao Informe nº 868/Aesi/USP 1975, a conclusão do SNI/Agência Central é a seguinte:

  1. discorre corretamente sobre a estrutura e funcionamento da Fapesp;
  2. apresenta, sobre educadores e cientistas da USP, dados nem sempre verdadeiros;
  3. insere-se num contexto de luta pelo controle administrativo da Fapesp e o manejo de suas vultosas verbas;
  4. não é, em essência, documento válido e merecedor de crédito (P. 375-381 e p. 382-383).

O documento sobre a Fapesp e as denúncias sobre o professor Oscar Sala servem como parâmetro para avaliar as diferentes posições entre a Aesi/USP e o SNI, de grande importância para a história da Universidade. (…)

O documento anexo, com origem na Aesi/USP, elaborado por Krikor, denunciava como “focos esquerdizantes” as seguintes instituições: 

  1. a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp),
  2. a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC),
  3. o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e o
  4. Centro de Estudos Rurais e Urbanos.

Além das seguintes pessoas: Frédéric Mauro, Paul Israel Singer, Maria Isaura Pereira de Queirós, Michel Foucault, Antonio Barros de Ulhôa Cintra, Warwick Stevan Kerr, Alberto Carvalho da Silva, Oscar Sala, William Saad Hossne, Jayme Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti e Alberto Bononi.

O historiador Frédéric Mauro foi acusado de ter editado na França um livro sobre a história do Brasil com críticas à “Revolução de 1964”. Já Paul Singer sofreu acusação por divulgar dados sobre situação familiar, nível de vida, ocupação e rendimentos de trabalhadores no Estado de São Paulo. Maria Isaura Pereira de Queiroz, por sua vez, foi acusada de difundir ideologia marxista em unidades universitárias e meio rural e Michel Foucault, por pronunciar-se em assembleia universitária por ocasião do episódio Vladimir Herzog (p. 375-381).

Além das denúncias nominais, o informe condenava o apoio financeiro da Fapesp a projetos de pesquisa científica com o suposto propósito de “deturpar fatos históricos”. Com base nesse contexto repleto de delações, é possível compreender as dificuldades enfrentadas por docentes e alunos da USP para permanecer na instituição, realizando trabalhos de pesquisa e atuando na vida administrativa. Se todos os nomes de pessoas e instituições citados por Krikor tivessem sido afastados ou expulsos – como ocorreu com o Departamento de Parasitologia da Faculdade de Medicina, logo depois do golpe civil-militar –, a pesquisa na Universidade teria se tornado inviável.

Os 400 professores citados por Krikor como “marxistas infiltrados” e que, segundo ele, deveriam ser eliminados eram, na sua maioria, professores doutores com grande capacidade de pesquisa e titulação em suas áreas de especialidade. A exclusão desses professores e a eliminação dos institutos de pesquisa arrolados no documento sobre o professor Oscar Sala representariam um golpe de morte para a pesquisa na Universidade de São Paulo.”

Os anos 70 foram marcados pela tragédia humana. Gilberto Gil e Chico Buarque compuseram a música e a letra de Cálice como metáfora da censura, da dor, da tortura, num sábado de aleluia. A música foi proibida.

Desfrutem e escutem, agora, o sabor da liberdade.

 

Como é difícil acordar calado

Se na calada da noite eu me dano

Quero lançar um grito desumano

Que é uma maneira de ser escutado

Pai, afasta de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue

Gilberto Gil e Chico Buarque

 

Janice Theodoro da Silva é professora titular aposentada do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

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