A maior coleção de peixes brasileiros é reunida em livro

Produzidas no século 19, aquarelas de Jacques Burkhardt são publicadas pela Editora da USP

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Arte sobre foto: Cleber Siquette/Jornal da USP

Peixes do Brasil: Aquarelas de Jacques Burkhardt (1865-1866) apresenta, pela primeira vez, as aquarelas de peixes marinhos e de água doce reproduzidas pelo suíço Jacques Burkhardt. São 521 desenhos que trazem detalhes das espécies, captados com perfeição. Compõem a maior coleção de desenhos de peixes brasileiros feita por um único artista. Burkhardt acompanhou a Expedição Thayer, idealizada por Louis Agassiz, naturalista que percorreu o Brasil nos anos de 1865 e 1866.

O livro é um lançamento da Editora da USP (Edusp),  organizado por Antonio Britski e José Lima de Figueiredo, professores do Museu de Zoologia da USP. A edição é bilíngue e as imagens são todas coloridas, reproduzindo as características originais dos desenhos do artista, com datas, localidades e anotações manuscritas.

“Atualmente depositadas na Biblioteca Ernst Mayr do Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, as aquarelas são reproduzidas no livro em sua totalidade”, explicam os organizadores. Na apresentação, Britski e Figueiredo fazem um esboço histórico, mostrando a importância do naturalista Agassiz no surgimento do Museu de Zoologia da USP. Contam que a expedição Thayer foi integrada por jovens pesquisadores, entre os quais Charles Frederick Hartt, 24 anos, que embora tivesse o seu foco na geologia, coletou e fez observações sobre peixes brasileiros. “São dele algumas anotações que aparecem em aquarelas pintadas no Rio de Janeiro por Burkhardt.”

O geólogo ficou interessado pelo Brasil e retornou mais quatro vezes. Em sua terceira viagem, trouxe como seu assistente Orville A. Derby, que se estabeleceu no País, sendo designado diretor do Museu Imperial em 1886 e, posteriormente, diretor da recém-criada Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo. Derby propôs a criação de uma seção de Zoologia do Museu Paulista. “Em 1939, essa seção tornou-se uma instituição à parte, dando origem ao Departamento de Zoologia da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, o qual, três décadas depois, em 1969, foi incorporado pela Universidade de São Paulo, sob a denominação de Museu de Zoologia.”

 

“Os peixes da Expedição Thayer, depositados no Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard, foram estudados por um número considerável de ictiólogos em diferentes épocas.”

Embora seja uma referência para as pesquisas científicas, especialmente na área de zoologia, Peixes do Brasil é um livro de interesse multidisciplinar. Os professores Heraldo Antonio Britski e José Lima de Figueiredo contextualizaram a Expedição Thayer com o momento político e social do Brasil, resgatando a sua história. Preocuparam-se também com o cotidiano de Burkhardt, registrando os peixes, e destacam a importância da integração entre arte e ciência, já há mais de 150 anos.

“Os peixes da Expedição Thayer, depositados no Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard, foram estudados por um número considerável de ictiólogos em diferentes épocas”, relatam os organizadores. Lembram que, embora tivesse acompanhado os pesquisadores para desenhar os peixes, Burkhardt não se restringiu a esse tema. “Agassiz menciona em uma de suas cartas o número impressionante de 2 mil aquarelas feitas por Burkhardt durante a viagem, as quais representavam, além de peixes, grande número de paisagens, muitas delas utilizadas por outros artistas para a elaboração de ilustrações de livros.”

Britski e Figueiredo trazem detalhes curiosos sobre a forma e o ritmo da elaboração dos desenhos. “Os peixes, logo que apanhados, eram prontamente trazidos para a mesa de Burkhardt para serem desenhados. A expedição dispunha também de um aquário de vidro, que permitia conservar os exemplares vivos por horas ou dias, para observação do seu comportamento ou para serem desenhados com suas cores naturais”, esclarecem. “Seu trabalho era muitas vezes intenso, chegando a desenhar até 20 peixes por dia. Às vezes, não havia tempo para desenhar todas as espécies que Agassiz selecionava.”

O livro reproduz 521 aquarelas de peixes desenhados por inteiro e dezenas de detalhes de seus corpos. “Desses, 133 são peixes marinhos, a maior parte da costa do Rio de Janeiro e alguns da área de Belém do Pará. A maioria dos desenhos é de peixes de água doce da Amazônia, num total de 357, e poucos dos rios do Estado do Rio de Janeiro, principalmente do Rio Paraíba do Sul”, esclarecem os organizadores do livro. “É preciso notar também que, desses últimos, alguns são de Santa Cruz, localizada nos arredores do Rio de Janeiro e onde se situava a fazenda imperial. Os peixes dessa localidade foram doados ao Museu de Zoologia Comparada pelo imperador do Brasil, D. Pedro II.

Peixes do Brasil: Aquarelas de Jacques Burkhardt (1865-1866), de Heraldo Antonio Britski e José Lima de Figueiredo (organizadores), Editora da USP (Edusp), 480 páginas, R$ 160,00 - Foto: Reprodução/Peixes do Brasil

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