A Lua é pop

As viagens espaciais e a chegada do homem ao nosso satélite natural inspiraram livros, discos e filmes

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MARCELLO ROLLEMBERG

Lua vista da Apollo 11 - Foto: NASA

Desde que o primeiro ser humano olhou para o céu e avistou, flutuando lá longe, aquele disco prateado, nunca mais as coisas foram as mesmas. A Lua inspirou temor, curiosidade, paixões. E uma incrível fascinação. Na prolífera imaginação humana, o nosso único satélite natural já foi habitado por São Jorge, foi esconderijo de monstros espaciais metálicos e transformistas, já teve seu solo cravado por um monolito estranho que zumbia, serviu de pretexto para poemas e poetas dos mais variados naipes – bons e ruins, ambos.

“Porque estava lá”, respondeu sir Edmund Hillary quando lhe perguntaram a razão de ter sido o primeiro a subir os 8.850 metros do Everest. Da mesma forma, pode-se dizer que o homem resolveu ir à Lua também porque ela estava lá – já há alguns bilhões de anos e a 384 mil quilômetros de distância. Porque ela, já se disse isso, sempre inspirou curiosidade e fascinação. E no dia 20 de julho de 1969, um domingo, aquela curiosidade começou a ser saciada, enquanto a fascinação só aumentava. Junto com o satélite que visitavam, Neil Armstrong (e sua famosa frase), Buzz Aldrin – os primeiros a saracotearem pelo solo lunar – e seu companheiro astronauta Michael Collins, que orbitava a Lua a 96 mil metros de altura à espera dos outros dois, entraram no imaginário popular.

Na verdade, engordaram esse imaginário. Se a Lua já serviu de fonte inspiradora para poetas, faz tempo também que ela e as viagens espaciais servem de inspiração para escritores, músicos e cineastas. Isso, sem se falar de séries televisivas que vivem na memória afetiva de muitos, principalmente as dos anos 1960, como Perdidos no Espaço, Star Trek e Jeannie é um Gênio – o major Nelson era astronauta, lembram? Na ficção ou na realidade, a Lua é pop. 

Leia o livro, veja o filme

Stanley Kramer Productions / Wikimedia Commons

Há muito tempo viajar pelo cosmo – e mais precisamente, ir à Lua – tem sido uma fonte onde os escritores não cansam de encher seus cântaros de ideias. Pode-se citar, por exemplo, Cyrano de Bergerac – o próprio, não aquele ficcionado por Edmond Rostand no século 19 -, que no ano de 1657 escreveu Histoire Comique des Etats et Empires de la Lune (História Cômica  dos Estados e Impérios da Lua), talvez a primeira obra moderna a tratar de viagens espaciais – isso, quando o homem não tinha sequer inventado a bicicleta.

Mais conhecido do que o trabalho do narigudo Cyrano é De la Terre à la Lune (Da Terra à Lua – ou Viagem à Lua ou ainda, Viagem ao Redor da Lua, dependendo do editor brasileiro), do francês Julio Verne, um dos precursores da ficção-científica na literatura. Publicado originalmente em 1865, a história serviu de inspiração – ao lado de The First Man in the Moon (O Primeiro Homem na Lua), de H.G. Wells, publicado em 1901 – para aquele que é considerado o primeiro filme SciFi de todos os tempos: Voyage dans la Lune (Viagem à Lua), do francês Georges Méliès. Lançado em 1902 e eleito pela publicação americana Village Voice como um dos cem melhores do século 20, o filme é uma deliciosa – e improvável – alegoria da chegada do homem à Lua. É dele a cena que se tornou clássica, com o foguete sendo lançado por um canhão e acertando o olho de uma Lua atônita e enfurecida.

A relação livro-filme, com adaptações para as telas do que autores colocaram no papel das mais variadas qualidades, é uma constante. Mas quando se trata de viagens à Lua ou do tão propalado programa espacial americano, essa relação é ainda mais intensa. Muito do que saiu em livro acabou virando filme – e de sucesso.

Para a lista não ficar muito extensa, cita-se aqui pelo menos dois: Os Eleitos, de Tom Wolfe (um dos criadores do new journalism), e O Primeiro Homem, de James Hansen. O primeiro trata dos primeiros 15 anos de trabalhos da Nasa, ainda nos anos 1950, quando pilotos militares eram arrebanhados para fazer parte de um projeto que poucos entendiam e menos ainda sabiam do que se tratava. Nada demais: era só colocar o homem no espaço. A corrida espacial tinha tido a sua largada. Lançado em 1983, o filme dirigido por Philip Kaufman – como o livro – centra força na figura de dois astronautas que se tornaram ícones americanos: John Glenn e Alan Shepard.

O Primeiro Homem entrega o enredo logo no título: é a biografia de Neil Armstrong. Livro e filme foram lançados juntos, ano passado, na marqueteira ideia de aproveitar a curiosidade do consumidor por todos os lados. No filme, que ganhou Oscar de efeitos visuais, Armstrong é interpretado por Ryan Gosling – e sua performance de chuchu finalmente encontra guarida na personalidade casmurra e distante do primeiro astronauta a pisar na grudenta poeira lunar. 

Nesta lista de filmes lunares e espaciais, não poderiam faltar pelo menos dois, quase uma obviedade inescapável (tanto como citar 2001, Uma Odisseia no Espaço, de Kubrick, que fica aqui como hors-concours): Apollo 13 e Perdido em Marte. Eles, pode-se dizer, tratam daquilo que não foi, ou do que poderia dar muito errado e acabou se consertando. Enquanto Perdido em Marte conta, entre drama e comicidade, a história de superação de um astronauta (Matt Damon) deixado no planeta vermelho por engano por seus companheiros, Apollo 13 é a história real da missão que não chegou nem perto da Lua. No meio do caminho, uma explosão no módulo de serviço fez com que a missão fosse abortada e o que se vê no filme é justamente a epopeia dos astronautas para voltarem vivos para a Terra.

Houston, we have a problem” (“Houston, temos um problema”) se tornou uma frase quase tão emblemática quanto aquelas dos passos de Armstrong, só que com polaridade invertida. E talvez o problema fosse quem a proferiu: o astronauta e comandante da missão Jim Lovell (vivido no filme por Tom Hanks). Ele estava na tripulação original da Apollo 11, mas problemas de saúde de Michael Collins – que estava na equipe da Apollo 8 – obrigaram a Nasa a fazer um reescalonamento, com Lovell e Collins trocando de lugar. Tudo bem, haveria a Apollo 13. Mas não houve. Definitivamente, não era para Lovell ir à Lua.  

Música no espaço

Toda boa história merece uma trilha sonora adequada. E a Lua e as viagens espaciais inspiraram muitos artistas, principalmente a partir da década de 1960, quando idas ao espaço, rock e cultura pop acabaram por criar um amálgama inextricável.

Para começar de uma forma mais suave, pode-se escolher Fly me to the Moon – e não qualquer versão, já que ela foi gravada por vários cantores. Melhor ser a que Frank Sinatra gravou com Tom Jobim em um de seus últimos álbuns, aquela em que Tom convida: “Francis, let’s fly…” O ambiente está pronto.

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A partir daí, é entrar no clima quase lisérgico que a Lua e outras viagens ao cosmo criaram. Em 1966, por exemplo, o grupo americano The Byrds lançou Mr. Spaceman e criou seu pequeno rebuliço, já que falava abertamente de vida extra-terrestre e outras aventuras estelares. Essa música ganhou uma versão em português em 1974 pelas mãos de Raul Seixas, com o título de S.O.S. (Disco-Voador), só que sem qualquer menção à autoria original, de Jim McGuinn. Outra curiosidade: ela foi usada para despertar os astronautas do ônibus espacial Discovery durante sua missão em setembro de 1984.

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Já nos anos 1980, os britânicos do The Police deram seu passo em direção à Lua. Menos afamada do que Every Breath you Take, por exemplo, Walking on the Moon tem o mérito de, em seu videoclipe, trazer imagens originais do lançamento da Apollo 11, enquanto Sting e seus companheiros passeiam entre foguetes Saturno V. Vale a pena, mas mais como reminiscência histórica do que excelência musical.

De tantos artistas que se inspiraram olhando para o céu, talvez aquele que chegou mais longe nesse objetivo tenha sido David Bowie. Para começar, ele lançou seu primeiro grande sucesso, justamente chamado Space Oddity – quando ele apresenta ao mundo o astronauta “Major Tom” -, em julho de 1969, exatamente para coincidir com o pouso da Eagle em solo lunar. Três anos depois, ele chegou ao seu paroxismo pessoal, criando a persona andrógino-alienígena Ziggy Stardust e lançando mais um sucesso intergaláctico: Starman. Ao longo dos anos 1970, Ziggy foi deixado de lado, mas isso não impediu Bowie de, em 1980, revisitar – e desconstruir – seu “Major Tom”. Em Ashes to Ashes, o velho astronauta é apresentado como “Major Tom is a junkie” – “Major Tom é um viciado”. E a poesia foi para o espaço. 

Marcello Rollemberg é editor de Cultura do Jornal da USP

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