Os professores Antonio Candido e Florestan Fernandes – Fotomontagem sobre fotos de Ana Luísa Escorel via Itaú Cultural, Antonio Candido e Arquivo Nacional, Florestan Fernandes

A formação do "jovem Florestan", segundo Antonio Candido

Primeiros dez anos da carreira de Florestan foram decisivos para a formação do sociólogo, disse o crítico

23/07/2020

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Por: Roberto C. G. Castro
Arte: Moisés Dorado

No dia 5 de outubro de 1995 – menos de dois meses após a morte de Florestan Fernandes -, a USP promoveu o evento Presença de Florestan, para prestar homenagens in memoriam ao sociólogo. Na ocasião, o crítico literário e professor da USP Antonio Candido (1918-2017) fez um pronunciamento em que destacou os primeiros dez anos da carreira acadêmica de Florestan. Segundo ele, esse período foi decisivo para o surgimento de um dos grandes intelectuais que no século 20 estudaram a sociedade brasileira, “da mesma importância que Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda”.

Como estudante de Ciências Sociais da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP, Florestan se distinguiu em todas as disciplinas que cursou, disse Candido, que foi contemporâneo do futuro sociólogo naquela faculdade. Seus trabalhos semestrais de aproveitamento estavam sempre acima dos requisitos exigidos e alguns eram estudos de alto nível, que logo foram publicados, ainda de acordo com Candido.

Quando se formou, em 1943, mais de um professor quis ter Florestan como assistente – lembrou o crítico literário -, entre eles Roger Bastide, de Sociologia, e Paul Hugon, de Economia Política. Acabou aceitando o convite de Fernando de Azevedo, que o indicou para a vaga de segundo assistente da Cadeira de Sociologia II. O outro assistente de Azevedo nessa cadeira era Candido. “Os seus primeiros trabalhos como jovem docente confirmaram a alta qualidade dos que havia elaborado como estudante, servindo de exemplo os que publicou sobre o bororo marginal Tiago Marques Aipobureu e sobre a obra folclórica de Mário de Andrade.”

Na época, Florestan escrevia artigos para jornais, a fim de complementar o salário de professor de tempo parcial. “Foi neles que publicou naquela altura diversos artigos seriados, verdadeiras exposições sobre teoria sociológica e comentários críticos sobre autores ainda pouco divulgados aqui, como Freyer e Mannheim. Esses artigos demonstravam a sua grande e precoce capacidade de reflexão teórica”, lembrou Candido. 

Formado, Florestan foi fazer mestrado na Escola Livre de Sociologia e Política, em São Paulo, onde recebeu orientação do antropólogo alemão Herbert Baldus para a elaboração da dissertação A Organização Social dos Tupinambá, apresentada em 1947. Publicada em 1949, a obra contrariou a expectativa dos estudiosos dos tupinambá, que achavam que a documentação existente sobre a cultura daqueles índios extintos não era suficiente para conhecer de maneira sistemática a sua organização social. “Mas Florestan Fernandes, com a ousadia intelectual e o poder de análise que sempre o caracterizaram e o levavam a enfrentar e mesmo a preferir as tarefas difíceis, submeteu o material disponível a um tratamento metodológico e interpretativo de grande força, produzindo um clássico da antropologia moderna.”

Não só a documentação sobre os tupinambá se mostrou suficiente como, com o material que recolheu para o mestrado, Florestan passou a elaborar sua tese de doutorado, defendida na FFCL, em 1951, com o título A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá. E mais: esse material serviu de base para a tese Ensaio sobre o Método de Interpretação Funcionalista na Sociologia, de 1953, com que obteve o título de Professor Livre-Docente. “Nessa altura, desenvolveu muito os estudos teóricos e, a pedido de Azis Simão, deu um curso famoso sobre metodologia. Foi então que se aprofundou na obra de Max Weber, que viria a ter importância no amadurecimento de suas concepções.”

Florestan Fernandes com Antonio Candido
na 1ª Jornada de Ciências Sociais, em
Marília, 1986 – Foto: Revista Fapesp

Um fato decisivo na carreira de Florestan ocorreu em 1950, contou Candido. Naquele ano, Roger Bastide aceitou o encargo de dirigir uma pesquisa sobre as relações raciais em São Paulo, a pedido da Unesco. A condição imposta por Bastide para assumir a função era que Florestan fosse codiretor da pesquisa. “Esse momento me parece corresponder à grande virada de sua carreira e de sua atuação sociológica. Ele tinha 30 anos e estava sendo considerado como igual por um sociólogo eminente, que fora seu professor. Ao aceitar a tarefa, pode-se dizer que assumiu simbolicamente a consagração que o destacava como o sociólogo mais completo de sua geração.”

A pesquisa da Unesco foi decisiva para Florestan também porque, segundo Candido, o estudo sobre a condição social do negro foi a “mola” que o lançou em rumos diferentes do que seguira até então. “Levado a encarar uma situação contemporânea altamente dramática, ele foi deslizando dos estudos de corte mais acadêmico para os que requerem um posicionamento político por parte do estudioso consciente. Em outras palavras, estava começando a atuação do sociólogo que conseguira modificar a natureza da sociologia no Brasil em nosso tempo, efetuando a operação difícil de combinar rigor científico e visão política, de maneira a tornar a sociologia não apenas instrumento de compreensão da realidade, mas contribuição teórica à transformação da sociedade”, destacou Candido. 

A partir da pesquisa da Unesco, o cientista e o revolucionário começaram a se fundir numa fórmula pessoal de grande alcance, que faria a originalidade singular de Florestan Fernandes.”

Em 1953, a convite de Roger Bastide – que se preparava para voltar à França e queria o jovem sociólogo como sucessor -, Florestan assumiu a Cátedra de Sociologia I, até então ocupada pelo professor francês. “A partir de então, deixamos de ser companheiros na mesma disciplina, a qual, aliás, eu próprio abandonei uns poucos anos depois, para me dedicar exclusivamente aos estudos literários, que foram sempre os de minha predileção, mas a nossa amizade continuou inalterada”, relatou Candido.

Desde essa época – início dos anos 50 -, a carreira de Florestan Fernandes experimentou uma ascensão constante no que se refere tanto à pesquisa científica como à militância socialista, segundo o crítico. “Ele passaria a privilegiar cada vez mais o marxismo nas suas concepções teóricas e se tornaria um marxista enriquecido pelas experiências de outras teorias”, acrescentou Candido.

O pronunciamento de Antonio Candido na homenagem a Florestan Fernandes feita pela USP, em outubro de 1995, foi publicado no livro Florestan Fernandes, de Antonio Candido, lançado em 2001 pela Editora Fundação Perseu Abramo, e no livro Florestan Fernandes – Leituras e Legados, de 2010, da Global Editora.

O texto acima faz parte da série de reportagens Florestan 100 Anos, produzida pelo Jornal da USP em comemoração ao centenário de nascimento do sociólogo e professor da USP Florestan Fernandes (1920-1995), completado nesta quarta-feira passada, dia 22.

A série será concluída nesta sexta-feira, dia 24, com o Especial Florestan 100 Anos.

Leia nos links abaixo as outras reportagens da série Florestan 100 Anos já publicadas:


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