Curso mostra a “batalha da abstração” de Mário Pedrosa

Nesta quarta-feira, dia 16, o professor Guilherme Wisnik fala sobre a obra do crítico de arte

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Mário Pedrosa: defensor da arte abstrata no Brasil – Foto: Reprodução / Livro Mário Pedrosa Primary Documents

Mário Pedrosa (1900-1981) é um dos maiores “críticos de arte e arquitetura do Brasil”, segundo o professor Guilherme Wisnik, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e colunista da Rádio USP. “Ele tem um papel fundacional na prática da crítica, até porque foi um ‘crítico militante’, como ele dizia.” Optou não pela carreira acadêmica, apesar de ser erudito, mas pela profissão de crítico, “que escrevia colunas semanais em jornais, fazia curadoria de exposições e defendia publicamente, às vezes polemicamente, suas opiniões”.

Esse é o perfil de Mário Pedrosa que Wisnik abordará na aula intitulada “Mário Pedrosa: arquitetura e arte na batalha pela abstração”, a ser realizada nesta quarta-feira, dia 16 de maio, às 19 horas,  no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc, em São Paulo. A aula inaugura o curso “Dilemas da Crítica: Para onde vamos?”, promovido pelo CPF, que se estenderá até 20 de junho, sempre às quartas-feiras, com a participação de especialistas ligados às áreas de filosofia, literatura, urbanismo, gênero, raça e psicanálise (leia mais informações abaixo).

Segundo Wisnik, Mário Pedrosa tem uma formação rica e complexa, porque é ao mesmo tempo marxista, em especial trotskista, mas com uma formação do que se chama de “estética da visibilidade pura”, ou seja, o formalismo em arte. “Ele foi um pensador muito sofisticado por conseguir combinar essas duas matrizes muito divergentes. Também através da teoria da fenomenologia, que ele conhecia muito bem, e da proximidade com o surrealismo – foi amigo pessoal de André Breton e depois do artista Alexander Calder.” Mário Pedrosa era vinculado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), com uma militância política importante, e ao mesmo tempo diretor de museus e com atuação no campo institucional.

Inicialmente foi defensor da arte engajada, da arte social, interpretação que extraia do Expressionismo Alemão, sobretudo das gravuras da artista Käthe Kollwitz, que foram expostas no Brasil no período em que ele começou a escrever, nos anos 30. Dessa época Pedrosa tem textos importantes sobre o artista Candido Portinari. “Naquele momento, para Mário Pedrosa, o grande artista brasileiro é Portinari, em uma espécie de vinculação entre arte moderna e uma ideia de trópicos e país periférico, mais ou menos sendo Portinari uma espécie de tradução brasileira de Siqueiros, de Diego Rivera, e dos muralistas mexicanos. Um artista que era moderno e que fazia uma arte engajada, expressando o sofrimento e as dores do povo, o operário, o retirante.”

Foi uma grande luta pela causa da arte abstrata nos meios artísticos brasileiros, compostos por artistas e por pensadores que defendiam o regionalismo, a arte moderna e questões sociais.”

Mário Pedrosa foi entrando em crise e foi superando essa concepção nos anos 40, à medida em que se convencia de que a grande arte internacional não era a arte de teor realista, e sim a arte abstrata, a arte das vanguardas construtivas, de Mondrian e Malevich. A arte abstrata ainda não tinha chegado ao Brasil. Segundo Guilherme Wisnik, foi o artista Alexander Calder, uma mistura improvável de surrealista e construtivista, que trouxe essa percepção para Mário Pedrosa. É a partir daí que Pedrosa se engaja na defesa da arte abstrata e passa a ser o “grande batalhador”, como ele dizia na época. “No final dos anos 40, era mesmo uma batalha pela causa da arte abstrata. Foi uma grande luta nos meios artísticos brasileiros, compostos por artistas e por pensadores que defendiam o regionalismo, a arte moderna e questões sociais.”

Auto-retrato de Candido Portinari: para Mário Pedrosa, o grande artista brasileiro é Portinari – via Portal Portinari

“Mário Pedrosa é esse grande apóstolo da abstração, que acaba vencendo a batalha no início dos anos 50, com a 1ª Bienal de São Paulo, dominada pelas vanguardas abstracionistas”, afirma Wisnik. A arte abstrata no Brasil acaba ganhando o nome de arte concreta, que para alguns parece uma contradição, “mas no fundo é quase a mesma coisa”. Fomenta-se então uma nova geração, uma vanguarda construtiva concretista em São Paulo e no Rio de Janeiro, que tem o apoio crítico de Mário Pedrosa. Nesse ponto, Ferreira Gullar passa a ser um discípulo de Mário Pedrosa e se liga fortemente ao grupo carioca chamado Neoconcreto.

Wisnik ainda informa que, para essa batalha da abstração, Mário Pedrosa invoca a arquitetura brasileira, que desde os anos 30 era reconhecida internacionalmente como uma grande vanguarda moderna e “que atestava a nossa capacidade, a nossa habilidade para sermos abstracionistas”. O professor diz que Niemeyer, Lúcio Costa e os irmãos Roberto são exemplos que funcionam também como legitimação para a entrada da arte abstrata no Brasil e como um diálogo e uma combinação da produção dessas duas vanguardas, e Mário Pedrosa é a figura dessa articulação. “Ele é crucial e isso acontece sobretudo nos anos 50, quando ele tinha uma coluna fixa no Jornal do Brasil e escrevia semanalmente, e escreve muito aguerridamente nos últimos anos, durante o período do concurso do plano-piloto de Brasília e durante a construção da cidade.

Dos anos 30 aos 70, Pedrosa tem um arco de produção intelectual muito rigoroso e importante, que atravessa muitas mudanças de sentido.”

Nesse momento, Pedrosa é um grande entusiasta do projeto moderno e entende que Brasília era construída como sendo símbolo daquilo que ele chamou de “síntese das artes”. “Pode-se dizer que, apesar de ter sido muito crítico à ideia de se construir Brasília e aos pressupostos políticos de Juscelino Kubitschek para construção da cidade, ele foi um grande entusiasta de Brasília como projeto estético, e isso está claro nos textos que escreveu nesse período”, afirma Wisnik. Mas, depois que a cidade ficou pronta, “com todas as suas contradições, e com o golpe militar de 1964, que acaba fazendo de Brasília a capital do seu poder centralizado e autoritário, percebe-se uma grande desilusão de Mário Pedrosa em relação a Brasília e àquele projeto construtivo do qual ele tinha sido um grande porta-voz”.

Projeto Brasília: Mário Pedrosa foi um grande entusiasta da construção da cidade como projeto estético – Foto: Uri Rosenheck via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0

Por isso, nos anos 60 e 70 ele passa a ser “um crítico mais amargo diante dessas perspectivas de futuro, por um lado, e, por outro, engajado nas aberturas das experiências artísticas, no limite da fronteira entre arte e vida, como as experiências de terapia de Lygia Clark, a explosão do objeto também de Lygia Clark, Lygia Pape, Hélio Oiticica e de outros artistas, e ampara essa ideia da produção da arte como uma forma marginal na sociedade, como uma experimentação de práticas de liberdade, como ele vem a dizer sobre Oiticica, a quem qualifica pioneiramente como um artista pós-moderno, numa época em que não se usava essa expressão”, informa Wisnik. “Dos anos 30 aos 70 ele tem um arco de produção intelectual muito rigoroso e importante, que atravessa muitas mudanças de sentido e que fazem de Mário Pedrosa esse pensador tão complexo, rico e estimulante para todos nós hoje”, conclui.

A crítica vista por diversos ângulos

O curso Dilemas da Crítica: Para onde vamos?, promovido pelo Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc, propõe um trânsito entre as áreas da filosofia, literatura, urbanismo, gênero, raça e psicanálise. Além de Wisnik, ele terá a participação de mais dois docentes da USP. No dia 23 de maio, a professora Eliane Robert Moraes, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), abordará o tema “Beatriz Sarlo: a crítica pelas bordas”, em que vai apresentar as principais linhas do trabalho da ensaísta argentina. Já no dia 20 de junho, o professor Ricardo Fabbrini, também da FFLCH, dará a aula “Fredric Jameson: arte e imagem”, em que vai situar a crítica estética marxista do teórico marxista norte-americano em relação à teoria crítica da sociedade da Escola de Frankfurt e ao pensamento francês pós-estruturalista.

O curso traz ainda outras três aulas: Bell Hooks: a cultura e as políticas da diferença, com Renata Bittencourt, mestre e doutora pela Unicamp (30 de maio); Georges Didi-Huberman: história, imagem e tempo, com Taisa Palhares, professora do Departamento de Filosofia da Unicamp (6 de junho); e Hal Foster: o retorno ao real e o contexto brasileiro, com Rafael Vogt Maia Rosa, pós-doutorado pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP (13 de junho).

O curso Dilemas da Crítica: Para onde vamos?, promovido pelo Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc, acontece de 16 de maio a 20 de junho, sempre às quartas, das 19 às 21 horas, no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc (Rua Plínio Barreto, 285, Bela Vista, em São Paulo). O valor varia de R$ 18,00 a R$ 60,00. Inscrições e informações no site. Mais informações pelo telefone (11) 3254-5600.

 

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