A arte de Antonio Henrique Amaral é resistência

A inquietude do artista diante das pressões da ditadura é revivida em exposição virtual do Instituto Tomie Ohtake

 

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Fotomontagem da obra Diálogo Frustrado e seu autor, Antonio Henrique Amaral – Leda Abuhab/Estadão

 

“Quando a arte dá o seu recado, ela transcende o tempo.” Com essa reflexão em sua última conversa com o Jornal da USP, o paulistano Antonio Henrique Amaral traçou a infinitude de seus desenhos, gravuras, telas. E hoje, cinco anos depois de sua morte, no dia 24 de abril de 2015, ele atravessa o tempo para marcar presença em sua primeira exposição virtual no Instituto Tomie Ohtake.

Aglomeração Antonio Henrique Amaral – Uma Exposição em Processo tem a curadoria de Paulo Miyada, arquiteto e mestre formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. A mostra tem como meta aprofundar e divulgar a contemporaneidade da obra de Amaral. “É uma obra quase premonitória do momento atual”, observa Miyada. “A história da arte não é um repertório acabado. As transformações do presente fazem novas perguntas para o passado. O que há de mais incômodo e singular na linguagem de Antonio Henrique Amaral é justamente o que a torna pertinente hoje. O artista se relaciona com sentimentos conflituosos que estão na ordem do dia, enquanto lidamos com notícias de violência de Estado, abandono das comunidades que já viviam em condições precárias antes da pandemia, isolamento compulsório da população, associação de risco e ameaça à presença física e profunda cisão do debate social.”

 

Antonio Henrique Amaral, xilogravura sobre papel, 1967 – Reprodução

Miyada optou por destacar na exposição a associação histórica entre parte da produção do artista e a ditadura militar que afetou a população brasileira entre 1964 e 1985. “Esse período deixou uma marca em vários trabalhos de Amaral e refletir sobre aquela época está entre as prioridades atuais, quando a sociedade discute múltiplas formas de autoritarismo.”

Ao montar o projeto da exposição virtual, Miyada buscou o questionamento que considera mais relevante e que está além do debate sobre as mídias e espaços expositivos: “Quando tudo parece tão urgente, e é tão inquietante e dolorido, quais as histórias que realmente precisamos contar?”.

Miyada foi buscar a história de Amaral através da sua produção em papel: desenhos, gravuras e estudos. “Esses conteúdos incluem análises de obras, reflexões históricas, digressões ensaísticas e troca de imagem e palavra com artistas jovens, convidados a responder a obras específicas do artista”, explica. “Justamente em um momento em que o caráter cáustico, desconcertante, trágico e vistoso da produção de Antonio Henrique Amaral parece mais do que atual, as redes sociais do Instituto Tomie Ohtake se tornam um farol que projeta suas imagens ao mundo.”

 

A expectativa é mostrar que a obra de Amaral é singular, experimental e visceral, o que permite que ela seja lida de múltiplas formas, sejam elas diretamente políticas, sejam mais sensoriais ou formais.”

 

Antonio Henrique Amaral nasceu em São Paulo no dia 24 de agosto de 1935. Formou-se em Direito na USP. Mas defendeu a democracia, a igualdade e a paisagem brasileira através da arte. Uma trajetória que começou no final dos anos 1950, estudando na Escola do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e  tendo aulas de gravura com Lívio Abramo e de desenho com Roberto Sambonet. Passou um período entre os ateliês que montou em Nova York e São Paulo. Expôs no Brasil, Estados Unidos, América Latina e Europa. “Construiu uma poética marcada pela figuração expressiva e evocativa, capaz de condensar estados de espírito pessoais e coletivos”, destaca Miyada.

Na exposição virtual, há várias imagens que traduzem o seu pensamento crítico. A xilogravura Diálogo Frustrado, de 1967, traz a paisagem de duas mãos, uma negra e outra branca, abertas e espalmadas, mas que não se tocam. Estão espalmadas entre dois rostos, um branco e outro negro, com a língua para fora, como se quisessem berrar, protestar. “A gravura impressa em tinta preta define personagens complementares, no que se refere ao preenchimento ou não das linhas de contorno, mas redundantes no que tange a seu papel no processo comunicacional. Esquemáticos, os rostos se condensam em carrancas tomadas por bocarras que lançam gritos e perdigotos imaginários”, comenta Paulo Miyada.

Antonio Henrique Amaral, Bocas, 1967 – Foto: Rubens Chiri/Perspectiva

Também na gravura Bocas, de 1967, há várias bocas amarradas, formando um círculo, em destaque uma cor quase vermelha. Quem será que quis calar a boca do artista? Também em conversa com o Jornal da USP, Amaral respondeu que recebeu, em plena ditadura militar, visitantes inesperados que queriam ver o que estava pintando. Na época, estava se dedicando à série das Bananas, que pintou de 1968 até 1975. “Eles olharam e questionaram: ‘Nossa, mas você gosta muito de bananas’. Não entenderam nada e foram embora.”

O pintor com suas bananas espetadas por garfos, enforcadas, tinha dado o seu recado. Bananas para a ditadura. Uma gravura sem título, de 1974, com três bananas, uma pela metade, suspensas por uma corda como se estivessem enforcando dois seres e meio, está na mostra virtual. “A expectativa é mostrar que a obra de Amaral é singular, experimental e visceral, o que permite que ela seja lida de múltiplas formas, sejam elas diretamente políticas, sejam mais sensoriais ou formais”, explica o curador. “A principal resistência de Antonio Henrique Amaral foi resistir a acomodar-se no papel do artista que faz coisas belas e dóceis.”

 

“Trabalhos e estudos serão expostos enquanto continuarão a pesquisa e reflexão sobre a trajetória vivaz do artista por seis décadas.”

 

Quando os museus e centros culturais saírem do confinamento, o público vai poder ver e conferir a arte de Antonio Henrique Amaral pessoalmente. “A partir dessa reabertura, em cronograma ainda pendente, uma das salas do instituto vai dispor de forma despojada, similar a uma sala de estudos, diversas obras com papéis do acervo do artista. Trabalhos e estudos serão expostos enquanto continuarão a pesquisa e reflexão sobre a trajetória vivaz do artista por seis décadas.”

O Instituto Tomie Ohtake promove atualmente, informa Paulo Miyada, diversos projetos em suas plataformas. “Além da exposição de Antonio Henrique Amaral, temos uma linha editorial digital chamada #juntosdistantes, apresentando materiais educativos, debates e cursos on-line em nossas plataformas, sem saturar os nossos públicos.”

Antonio Henrique Amaral, Conflitos, guache sobre papel, 1976 – Reprodução

 

Antonio Henrique Amaral, Sob a Luz do Cruzeiro do Sul, óleo sobre tela, 1993 – Reprodução

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Antonio Henrique Amaral, Diálogo Frustrado, xilogravura, 1967 – Reprodução

 

Antonio Henrique Amaral, O Bicho – Reprodução

 

Antonio Henrique Amaral, sem título, 1962 – Reprodução

 

Antonio Henrique Amaral, sem título, 1974 – Reprodução

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A exposição Aglomeração Antonio Henrique Amaral – Uma Exposição em Processo está disponível neste link.

 

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