“Tratamento precoce” e “kit covid”: a lamentável história do combate à pandemia no Brasil

Artigo de cientistas da USP descreve como o “tratamento precoce” contra a covid foi incentivado por autoridades brasileiras. Além do uso de drogas ineficazes, as medidas de eficácia comprovada, como uso de máscara, distanciamento social e vacinação, foram desestimuladas

 Publicado: 14/10/2021
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Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP relatam, em artigo na revista científica The Lancet, como o “tratamento precoce” e o “kit covid” – com o uso de medicamentos sem respaldo científico – foram amplamente incentivados pelas autoridades públicas brasileiras. Os autores ainda cobram um posicionamento oficial do Conselho Federal de Medicina quanto à proibição do “tratamento precoce”. O presidente Jair Bolsonaro, no jardim do Palácio da Alvorada, mostra uma caixa do medicamento hidroxicloroquina para uma ema – Foto: Reprodução/Sérgio Lima/Poder360

 

Pesquisadores da USP relatam em artigo na revista científica The Lancet Regional Health – Americas como ocorreu a disseminação do “tratamento precoce da covid-19” com o chamado “kit covid” no Brasil. Referendado – sem comprovação científica – por autoridades públicas e médicos e bastante difundido nas redes sociais, o “kit covid” inclui drogas como hidroxicloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e corticosteroides sistêmicos, e tem sido amplamente utilizado no País porque, supostamente, poderia tratar a covid-19 de forma precoce e, assim, evitar hospitalizações e mortes. Os pesquisadores também cobram um posicionamento oficial do Conselho Federal de Medicina quanto à proibição do “tratamento precoce”.

Lenardo Furlan, pesquisador da Faculdade de Medicina da USP nas áreas de Neurofisiologia e Reabilitação – Foto: Arquivo pessoal

O artigo foi publicado em outubro na sessão viewpoint, sob o título The regrettable story of the “Covid Kit” and the “Early Treatment of Covid-19” in Brazil (A lamentável história do “kit covid” e do “tratamento precoce da covid-19” no Brasil), de autoria dos pesquisadores Leonardo Furlan, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) nas áreas de Neurofisiologia e Reabilitação, e Bruno Caramelli, médico cardiologista, diretor da Unidade de Medicina Interdisciplinar em Cardiologia do Incor e professor da FMUSP.

Os pesquisadores explicam ao Jornal da USP que no início da pandemia de covid-19, em 2020, o número crescente de hospitalizações e mortes causadas por infecções pelo sars-cov-2 motivou profissionais da área da saúde e pesquisadores a buscarem possíveis tratamentos para a covid-19, de modo que, nessa época, vários medicamentos começaram a ser testados contra a doença, tanto de forma empírica quanto por meio de pesquisas.

Algumas drogas foram reposicionadas e passaram a ser utilizadas de forma off-label, ou seja, fora da indicação da bula, principalmente em pacientes hospitalizados. Mesmo sendo reprovado pela comunidade científica, o uso off-label de drogas como a hidroxicloroquina e a ivermectina passou a ser adotado em larga escala em diferentes países, inclusive nos Estados Unidos e no Brasil, especialmente depois de serem promovidas pelos presidentes dos dois países, Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Na mesma direção, desde o início da pandemia, houve um desestímulo do governo federal brasileiro a intervenções como uso de máscara, distanciamento social e vacinação e, em contrapartida, outras ações passaram a disseminar o uso dessas drogas, que faziam parte de um “kit” para combater a covid-19. Foi também nessa mesma época que o Conselho Federal de Medicina do Brasil emitiu uma nota autorizando a prescrição de hidroxicloroquina para casos de covid-19, inclusive já no início dos sintomas (tratamento precoce), e o Ministério da Saúde publicou um protocolo orientando o uso de hidroxicloroquina e azitromicina em pacientes com covid-19 não hospitalizados. Isso tudo ocorreu mesmo diante da ausência de evidências científicas que demonstrassem a eficácia e a segurança dessas drogas contra a covid-19, relata o artigo.

Promoção do “kit covid” nas redes sociais

Segundo o artigo, com o respaldo e até mesmo estímulo da decisão do Conselho Federal de Medicina e do protocolo do Ministério da Saúde, uma associação médica chamada “Médicos pela Vida” foi criada, no começo da pandemia, para promover o “tratamento precoce da covid-19” no Brasil. Por meio de uma forte presença nas redes sociais e de um apoio explícito do governo federal, essa associação tem influenciado muitos profissionais de saúde e a população leiga sobre o uso do “kit covid”. Além disso, já nos meses iniciais da pandemia, operadoras de planos de saúde e prefeituras passaram a distribuir esse kit a seus médicos para que eles o prescrevessem aos pacientes, o que também contribuiu para a disseminação do “tratamento precoce” no País, diz Furlan.

Para os pesquisadores, “o ‘kit covid’ tem sido promovido e prescrito no Brasil com base em evidências anedóticas, experiências e opiniões pessoais, estudos in vitro com dosagens de medicamentos excedendo os limites de segurança em humanos, estudos clínicos de baixa qualidade metodológica, revisões sistemáticas com metanálises sem qualquer credibilidade, ideologia política e a chamada ‘autonomia médica'”, dizem.

Bruno Caramelli, médico cardiologista e diretor da Unidade de Medicina Interdisciplinar em Cardiologia do Incor e professor da FMUSP – Foto: Arquivo pessoal

Segundo Furlan, nunca houve um embasamento científico que justificasse a prescrição desses medicamentos fora de um contexto de pesquisa, além de haver diretrizes claras de entidades médicas e científicas internacionais, como National Institutes of Health (NIH) e Infectious Diseases Society of America (IDSA), e nacionais, como a Associação Médica Brasileira (AMB) e as Sociedades Brasileiras de Doenças Infecciosas e de Pneumologia e Tisiologia, que, há muito tempo, contraindicam o uso do “kit covid” não só pela ausência de benefícios clínicos comprovados mas também pelos malefícios que essas drogas podem trazer aos pacientes.

Para os pesquisadores, “o ‘kit covid’ tem sido promovido e prescrito no Brasil com base em evidências anedóticas, experiências e opiniões pessoais, estudos in vitro [em células de laboratório] com dosagens de medicamentos excedendo os limites de segurança em humanos, estudos clínicos de baixa qualidade metodológica, revisões sistemáticas com metanálises sem qualquer credibilidade, ideologia política e a chamada ‘autonomia médica’”, dizem.

Segundo o cardiologista Caramelli, “em comparação com o placebo, a hidroxicloroquina não reduz os riscos de infecção por sars-cov-2 e de hospitalização de pacientes ambulatoriais com covid-19, e seu uso para profilaxia aumenta o risco de efeitos adversos”. Além disso, essas duas drogas podem causar sérios problemas cardíacos, ainda mais quando em combinação e na vigência de uma doença que pode comprometer o coração, o que é particularmente preocupante no ambiente ambulatorial, sem controle clínico rigoroso. Os corticosteroides sistêmicos mostraram benefícios apenas para pacientes hospitalizados recebendo suporte respiratório. Em relação à ivermectina, há diversos relatos de pessoas hospitalizadas após automedicação e intoxicação com o medicamento, diz.

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Os pesquisadores chamam a atenção para a crença das pessoas de que há medicamentos inofensivos e amplamente acessíveis que previnem ou tratam a covid-19, no entanto, eles ressaltam que esses medicamentos ainda não existem. “Essa crença pode levar os pacientes ao abandono de medidas de proteção mais onerosas, porém mais eficazes e seguras, como distanciamento social e uso de máscara, por conta de uma sensação de proteção assegurada pelas drogas”, dizem. Isso, por sua vez, pode deixar as pessoas mais expostas ao vírus, além de fragilizar sua saúde (especialmente a de pessoas mais idosas que, invariavelmente, possuem comorbidades), uma vez que essas drogas têm efeitos colaterais.

Por fim, os pesquisadores lembram que a variante delta é uma real ameaça no Brasil e finalizam o artigo recomendando que o Conselho Federal de Medicina proíba oficialmente o “tratamento precoce da covid-19” no País com os medicamentos do “kit covid” e que os recursos e esforços que até o momento vêm sendo empregados por autoridades públicas e médicos na promoção desse projeto/estratégia sejam direcionados para maximizar a adesão da população à vacinação e às medidas de proteção não farmacológicas.

Mais informações: e-mail bcaramel@usp.br, com Bruno Caramelli; e-mail leonardo.furlan@fm.usp.br, com Leonardo Furlan


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