“Science” alerta sobre impacto de óleo em recifes de algas calcárias

Os recifes de algas calcárias possuem alto valor econômico e ambiental e são encontrados em extensas áreas da costa brasileira

A plataforma de Abrolhos, na Bahia, possui a maior área contínua de rodolitos do mundo, recifes de algas calcárias, com mais de 20 mil quilômetros quadrados -Foto: Henrique Chaves – CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons

Cartas publicadas pela revista Science em janeiro trazem um alerta sobre os impactos do derramamento de petróleo ocorrido na costa brasileira, em 2019, e que, possivelmente, ainda hoje pode estar afetando os bancos de rodolitos – recifes de algas calcárias incrustantes que cobrem boa parte da plataforma continental brasileira.

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O biólogo Flávio Berchez, um dos autores e diretor do Parque de Ciência e Tecnologia (Cientec) da USP, relata que o desconhecimento das pessoas em relação à importância socioambiental e econômica desse ecossistema contribuiu, na época, para o descaso e, consequentemente, para a falta de diretrizes para minimizar o problema.

Segundo o pesquisador, os bancos de rodolitos são encontrados submersos no fundo do mar e atingem extensa faixa litorânea brasileira desde o norte do Rio de Janeiro, passando pela Bahia e chegando à costa nordestina. A plataforma de Abrolhos, na Bahia, possui a maior área coberta de rodolitos do mundo, com mais de 20 mil quilômetros quadrados. Um mapeamento feito pelo Instituto Oceanográfico (IO) da USP mostrou que eles ocupam quase metade da área total do banco de Abrolhos, que no total tem 46 mil quilômetros quadrados. “É uma área de rica biodiversidade e esse ecossistema é a base para o desenvolvimento e a sobrevivência de uma grande variedade de espécies marinhas, algumas delas de alto valor econômico como a lagosta”, diz o biólogo.

Recifes marinhos formados por algas calcárias incrustantes que cobrem boa parte da plataforma continental brasileira – Foto: Amgauna – CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons

Ainda do ponto de vista econômico, as algas calcárias são bastantes exploradas por empresas para retirada de carbonato de cálcio e nutrientes, que são utilizados na fabricação de produtos para correção do Ph e adubação do solo; ação que põe em risco a biodiversidade desta região porque os rodolitos crescem lentamente e longe das demandas industriais, diz o pesquisador. O biólogo acredita também que se o ecossistema estiver mesmo sofrendo estresse em consequência do derramamento de óleo, como presume a carta Brazil oil spill response: protect rhodolith beds, serão necessárias “décadas para que ele se recupere do desastre ambiental ocorrido em 2019”.

Regulação do clima global

Flávio Berchez, professor pesquisador do Instituto de Biociências (IB) da USP e diretor do Parque Cientec – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Segundo Berchez, a biodiversidade brasileira é crucial para a regulação climática do mundo e os bancos de rodolitos também estão envolvidos no balanço global de gás carbônico (CO2), uma vez que “as algas calcárias absorvem indiretamente o dióxido de carbono da atmosfera para produzir o carbonato de cálcio, a principal substância com a qual elas constroem sua estrutura física”, diz. Se estiverem em equilíbrio, os compostos de carbono e carbonato atuam na regulação de longo prazo da acidificação do oceano e no acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera, as causas mais importantes das mudanças climáticas globais”, explica o pesquisador.

Tão grave quanto os impactos que podem ter ocorridos nessa região em virtude do derramamento de óleo, é o desconhecimento da população brasileira da existência e da importância dos bancos de rodolitos. Segundo o pesquisador, até mesmo na área acadêmica existem poucos trabalhos sobre o assunto. Quando houve o derramamento de petróleo em 2019, Berchez lembra que a própria mídia sequer deu alguma matéria falando sobre os danos aos bancos de rodolitos.

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Outra carta publicada na mesma seção da Science faz menção à fraca coordenação do governo brasileiro com as organizações não governamentais, com os militares e civis, com os Estados e os municípios, para avaliar a extensão do desastre ecológico e tentar resolver o problema. Embora tenha apontado negligência do setor público, o texto ressalta a disponibilidade de voluntários da sociedade civil que arriscaram suas vidas para ajudar a remover toneladas de resíduos das áreas atingidas, incluindo praias e manguezais. Os governos locais colaboraram, mas dependiam de recursos e diretrizes de agências federais para implementar as ações, completa.

Recifes marinhos formados por algas calcárias incrustantes cobrem boa parte da plataforma continental brasileira – Foto: Arquivo pessoal do pesquisador

Berchez recomenda a produção de mais pesquisas em instituições acadêmicas para compreender melhor o desenvolvimento desse ecossistema, a instalação de estações de monitoramento e a definição de áreas de conservação que resultem em proteção desses ambientes. Além disso, acredita que seja essencial a criação de iniciativas educativas voltadas aos diversos atores sociais mostrando a relevância dos bancos de rodolitos.

Além do professor Flávio Berchez, assinaram também o texto Brazil oil spill response: protect rhodolith beds Marina Nasri Sissini e Paulo A. Horta, da Universidade Federal de Santa Catarina, entre outros.

Mais informações: e-mail fberchez@ib.usp.br, com o professor Flávio Berchez

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