Queda de transmissibilidade da covid-19 no fim de março comprova eficácia do isolamento

Índices apurados em estudo recente apontam que a taxa de transmissão do coronavírus chegou a 0,9, em média. Antes do isolamento, número ficou entre 2 e 4

As medidas de isolamento social diminuíram muito o movimento na avenida Paulista, uma das principais de São Paulo – Foto: Léo Ramos Chaves via Revista Pesquisa Fapesp / CC by NC ND

A orientação para “ficar em casa” e demais medidas de higiene visando a prevenção da covid-19 registrou resultados positivos a partir da segunda quinzena do mês de março, quando foram adotadas medidas de isolamento na cidade de São Paulo. Um artigo publicado como preprint (sem revisão por cientistas externos ao grupo de autores) no medRxiv em 8 de abril, mostra que o índice ‘R zero’ (R₀) – que aponta a taxa de transmissibilidade da doença – chegou a 0,9, em média.

Segundo o médico e epidemiologista Fredi Alexander Diaz Quijano, antes das medidas de isolamento, o índice ‘R zero’ registrava, de acordo com alguns estudos, um número provável entre 2 e 4. Ou seja, uma pessoa infectada poderia transmitir o vírus para 2 ou 4. “Mas, algumas estimativas naquela oportunidade indicavam um ‘R zero’ ainda maior, atingindo valores entre 2 e 7”, aponta o cientista, que é professor do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP e um dos autores do estudo, juntamente com cientistas da Universidade de Brasília (UnB) e da Fundação Oswaldo Cruz de Campo Grande (MS).

O cientista também alerta para a questão dos assintomáticos ainda representarem um alto risco de transmissibilidade do vírus. Estudo recente realizado na China e publicado na revista Science mostra que que entre 86% e 90% das infecções podem ser assintomáticas”. De acordo com o mesmo estudo, os assintomáticos acabam sendo a fonte de 79% dos casos clínicos, aqueles apresentam a doença e suas complicações.

Com base nesses dados é possível calcular a redução de contatos necessária para controlar a doença, como consta em outro artigo veiculado recentemente (3 de abril) – assinado por Quijano e outros dois cientistas – na Revista de Saúde Pública da USP. Embora as pessoas sintomáticas devam ter um isolamento mais estrito, as assintomáticas também devem reduzir as atividades que envolvam contato com outras.

“Sem afrouxar”

Tendo vista que os casos assintomáticos são identificados somente mediante a realização de testes, o cientista recomenda que o isolamento deve ser mantido. Segundo o professor, entendendo a lógica dos indicadores de transmissibilidade, as pessoas poderão compreender porque é tão importante seguir à risca as determinações das autoridades sanitárias. Mas, como a eliminação completa de contatos sociais é quase impossível, os epidemiologistas trabalham com margens aceitáveis de contato, de modo que o chamado número reprodutivo seja menor que 1, como apontou a taxa do mês de março.

No entanto, chegar a um nível próximo de 1 só indica que as medidas preventivas funcionam, não quer dizer que devam ser interrompidas. Retomar atividades que envolvam contatos em momentos de circulação do vírus poderá levar a um aumento súbito da incidência, ultrapassando assim a capacidade do sistema de saúde.

Mais informações: e-mail frediazq@usp.br, com o professor Fredi Alexander Diaz Quijano 

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