Quais os rumos da conservação e preservação dos acervos históricos?

Artigo na “Revista BBM” destaca as ações necessárias para a manutenção desses bens culturais em face das mudanças tecnológicas e dos ataques e desastres que destruíram acervos no Brasil e no mundo

 24/11/2020 - Publicado há 11 meses

 

Uma das etapas da conservação interventiva (restauro). Fonte: Laboratório de Conservação Preventiva da BBM-USP – Reprodução

As palavras preservação, salvaguarda e conservação estão interligadas e são indissociáveis quando se pensa em patrimônio, acervo cultural e defesa da memória em registros de bens que marcam a história da cultura brasileira. Em seu artigo na Revista BBM, no Dossiê Bibliofilia, o pesquisador Jayme Spinelli Junior traz orientações, caminhos e atitudes para a preservação e conservação de acervos. O autor conta sua trajetória como arqueólogo e pesquisador, caminhos que o levaram a atuar como conservador e restaurador na área de papel/livros e documentos. Como profissional da Coordenadoria de Preservação (COP) da Biblioteca Nacional, o autor relata as mudanças na gestão das grandes coleções documentais públicas e privadas em todo o mundo.

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Essas mudanças ocorreram em razão dos ataques ou desastres que destruíram muitos bens culturais no Brasil e no mundo e pela revolução tecnológica que mostra não haver mais tempo para improvisos e erros, pois “o caminho é a prática dos ensinamentos do que se convencionou chamar de conservação preventiva e reparadora”, destaca o arqueólogo.

O autor fala sobre o conceito de patrimônio, do período pós-Revolução Francesa, como um conjunto de bens fundamentais que expressam a riqueza de uma nação. A pesquisadora Maria Cecília Londres Fonseca insere, nesse contexto, “a noção de cidadania, na medida em que são identificados, no espaço público, bens que não são de exclusiva posse privada, mas propriedades dos cidadãos a serem utilizadas em nome do interesse público”.

Os danos mais comuns são os rasgos dos documentos e as perdas de partes dos suportes originais, as perdas de partes de encadernações, sendo as mais comuns a perda da lombada ou de partes dela e capas das obras. Fonte: Laboratório de Conservação Preventiva da BBM-USP – Reprodução

O artigo Rumos Atuais e Futuros da Conservação: Homenagem à Guita Mindlin mostra que, se o livro sempre foi visto como testemunha da informação, memória e fixação do conhecimento, “há sinais claros de que nossa memória coletiva está sendo gradualmente destruída”, diz o pesquisador, muito pela crescente falta de qualidade do papel. Livros que até hoje estão em ótimo estado de conservação, tidos como livros raros, foram compostos com materiais isentos de substâncias químicas nocivas, entre outras razões.

Ao se pensar em conservação preventiva e conservação reparadora, é preciso a manutenção das condições físicas, durabilidade dos acervos e dos edifícios, além do uso de novas técnicas de preservação e a salvaguarda do patrimônio cultural.

Para conservação de livros ou documentos, é preciso ter umidade relativa, temperatura e luminosidade adequadas. Outro fator importante é a higienização das áreas destinadas aos acervos, precisão do manuseio de obras, entre outros, que garantam a permanência estética e estrutural do material bibliográfico.

Livro em processo de higienização. Fonte: Laboratório de Conservação Preventiva da BBM-USP – Reprodução

A conservação reparadora requer procedimentos técnicos visando à recuperação de livros e documentos deteriorados como gravuras, mapas, partituras musicais, principalmente no que concerne a rasgos, perda de páginas, capas ou lombadas das obras. “A palavra salvaguarda refere-se a um mal a ser evitado, e por isso salvaguardar é assegurar a ausência de riscos e inferir sobre a previsibilidade de um futuro mais promissor”, explica o arqueólogo.

No intuito de prevenir e impedir riscos de acidentes e desastres nas instituições culturais, os conservadores-restauradores sugerem a criação de um programa de emergências pautado na elaboração da análise quantitativa da grandeza dos riscos, entre eles explosões nos edifícios, armazenamento inadequado de obras e gravuras; roubo e vandalismos; ação do fogo destruindo coleções, objetos e o próprio edifício; inundações que deformam ou destroem obras; pragas; poluentes; luz e radiações ultravioleta e infravermelha (que causam descoloração e enfraquecimento de livros e documentos); temperaturas oscilantes; e desaparecimento de uma obra dentro de um acervo.

Capa do livro Plano de Gerenciamento de Riscos: Salvaguarda & Emergência, de Jayme Spinelli Júnior e José Luiz Pedersoli Júnior – Reprodução

“Diante de um quadro de proporções limitadas de recursos disponíveis para questões culturais hoje em nossa sociedade, torna-se inexorável nossa compreensão quanto à preservação de nossos bens culturais para as sociedades que virão”, afirma a autora.

Ela enfatiza a importância de captação de recursos financeiros pelos dirigentes de instituições culturais e a implantação do chamado “plano de riscos”, com a prevenção de acidentes, sobretudo com água e fogo, os perigos mais comuns.

Para ela, também é importante a disponibilização de kits de materiais para uso de emergência, destinados às equipes de manutenção e administração, conservadores-restauradores, vigilantes e brigadas de incêndio civil. É fundamental a existência de ações bem planejadas para salvar patrimônios culturais arduamente elaborados, criados, construídos e, assim, preservados, visando à prioridade da proteção da vida humana.

Artigo: 

SPINELLI, J. Rumos Atuais e Futuros da Conservação: Homenagem à Guita Mindlin. Revista BBM  v.2 n.1 (2020) Dossiê Bibliografia. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2595-5802.v0i2p108-119. Acesso em 04 nov. 2020

Contatos:

Jayme Spinelli — Mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ). Pós-graduado como especialista em Conservação e Restauração de Bens Culturais pelo Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais (Cecor) na Escola de Belas Artes (EBA) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); pós-graduado em Arqueologia pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e bacharel em Arqueologia pela Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro – RJ. Atua como conservador-restaurador de bens culturais e coordenador de Preservação da Fundação Biblioteca Nacional.

Por Margareth Arthur, da Divisão de Gestão de Sistemas de Comunicação e Disseminação de Produtos / Serviços – DGCD.


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