Projeto propõe adaptação de ônibus para uso clínico de unidades móveis de saúde

Depois de prontas, as unidades podem atender usuários que deixaram de ir aos hospitais na quarentena por temerem contaminação com o coronavírus

Protótipo do projeto O-SI – Ônibus de saúde imediata. Propõe atendimento de pessoas que por insegurança deixaram de ir aos hospitais desde que foi decretada quarentena, em 23 de março, por temerem ser contaminadas com o novo coronavírus – Imagem: Pesquisa/FAU-USP

Projeto de um aluno da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP sugere um novo espaço móvel de unidade básica de saúde, voltado à população. A proposta prevê a reutilização de ônibus que foram retirados recentemente de circulação da região metropolitana de São Paulo e a adaptação de seus espaços internos para uso clínico. A ideia atende a uma demanda emergencial decorrente da atual pandemia, quando as pessoas estão evitando ir aos hospitais, às Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e às Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) para evitarem uma possível contaminação pelo novo coronavírus. Pesquisa de amostragem para desenvolvimento do projeto identificou que 83% das pessoas deixaram de procurar assistência médica desde o início da quarentena, em 23 de março.

Andre Enrico Cassettari Zanolla, do quinto ano de Arquitetura da FAU e coordenador do projeto, tem expectativa de que as primeiras unidades entrem em operação, no máximo, em 40 dias, uma vez que a proposta já foi encaminhada à Prefeitura de São Paulo para análise. O projeto também está na Câmara Municipal para discussão e viabilidade de implantação das unidades com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e a Secretaria Municipal de Transportes (SMT).

Quanto ao custeio da adaptação dos espaços internos dos ônibus, que deverá ficar em torno de 150 mil reais cada módulo, o estudante de arquitetura está apostando em parcerias públicas e/ou privadas de financiamentos. Poderá vir da própria prefeitura ou de bancos e empresas. Zanolla submeteu o projeto ao grupo Todos pela Saúde, formado por bancos privados que criaram um fundo de combate ao coronavírus. Até o fechamento desta matéria, ele ainda não tinha obtido resposta.

O passo seguinte seria a alocação de profissionais da saúde para atender no O-SI – Ônibus de saúde imediata, que ficaria estacionado por tempo determinado em lugares como no Serviço Social do Comércio (Sesc), Centros Educacionais Unificados (CEUs) e Escolas Estaduais de Educação Infantil (EMEIs). A consultoria médica do projeto foi feita pelo médico Sun Rei Lin, do Hospital São Paulo e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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Embora adaptável a qualquer ônibus urbano, o melhor é o modelo Padron de 13 metros de comprimento, contendo quatro portas, o que permite que o acesso das pessoas ao veículo ocorra de forma separada. De um lado, entrada de pacientes e médicos; e do outro, a circulação de insumos e parte técnica. A divisão interna será feita em três partes: a traseira abrigará a área técnica, destinada a estocagem de insumos, central de energia e gases e impressora 3D, em alguns casos; já a parte central, com 20 metros quadrados (m2), corresponderá à área clínica para atendimento médico; e a frente, isolamento do motorista.

Agendamento remoto de consulta

Paralelo à implantação do projeto, o estudante trabalha no desenvolvimento de um aplicativo para celular para agendamento remoto de consultas nessas unidades móveis e, assim, evitar aglomerações desnecessárias no local. Cada ônibus terá a capacidade de atender até três pessoas por vez, realizando avaliação de triagem e atendimento de baixa complexidade.

Zanolla explica que a ideia da unidade móvel de saúde foi desenvolvida a partir do resultado de uma pesquisa de amostragem que fez com mais de 200 pessoas dentro e fora da USP. Pelos retornos das respostas, identificou que um dos efeitos indiretos decorrentes da atual pandemia era a diminuição das idas a hospitais e UPAs por parte da população, o que, a seu ver, poderia acarretar eventuais complicações à saúde dessas pessoas. Dos entrevistados, quase 95% responderam que acreditam que seus familiares e amigos deixariam de ir a hospitais tratar problemas de saúde considerados leves, por temer serem infectados pelo coronavírus; e outros 83% responderam não ter ido a um hospital (público ou privado), posto de saúde, UBS ou UPA desde o início da quarentena, em 23 de março.

Pesquisa de amostragem feita com mais de 200 pessoas para identificar se tinham diminuído as idas aos hospitais por temerem ser infectadas pelo novo coronavírus – Imagem: FAU-USP

O O-SI – Ônibus de saúde imediata poderá aliviar o sistema de saúde em tempos de pandemia, porém, o aluno da FAU acredita que, depois que a crise passar, poderia permanecer como mais um legado deixado à população. Além de Andre Enrico Cassettari Zanolla, participaram do grupo de trabalho o escritório de arquitetura @Democratic_Architects, que deu origem ao projeto, Antônio Roberto Zanolla, ex-aluno da FAU, e Rennan Carlos, da Universidade Anhembi Morumbi. O Democratic Architects é um escritório de pesquisa e desenvolvimento de projetos arquitetônicos criado para produzir projetos de cunho social, formado por uma equipe multidisciplinar.

Mais informações: e-mail andre.zanolla@usp.br, com Andre Zanolla ou pelo Instagram @democratic_architects

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