Pesquisa associa consumo de álcool a mortes violentas em São Paulo

O estudo usou registros de vítimas do IML de São Paulo, cruzando dados sobre idade, sexo e concentração de álcool no sangue

Foto:Marcos Santos/USP Imagens
De acordo com a pesquisa, dos que haviam ingerido álcool, 32% tinham sido vítimas decorrentes de acidentes de trânsito e 30,5% de homicídios Foto:Marcos Santos/USP Imagens

Pesquisa da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) associou o consumo de álcool a mortes violentas ocorridas na cidade de São Paulo. O estudo foi feito a partir de dados coletados de vítimas registradas no Instituto de Medicina Legal do Estado de São Paulo (IMLSP), em 2015. Dos que haviam ingerido álcool, 32% tinham sido vítimas decorrentes de acidentes de trânsito e 30,5% de homicídios. Foram cruzadas informações sobre idade, sexo, causa da morte e a concentração de álcool no sangue das vítimas.

A pesquisa fez parte do doutorado Consumo de álcool e mortes violentas na cidade de São Paulo, em 2015, de autoria de Raphael Eduardo Marques Gonçalves, sob orientação da professora Vilma Leyton, da FMUSP. O trabalho gerou artigo publicado na revista Substance Use & Mususe.

Segundo Gonçalves, nos arquivos do IML foram identificadas cerca de 2.882 vítimas que tiveram mortes violentas na cidade de São Paulo, e que foram submetidas ao exame de concentração de álcool no sangue durante suas autópsias. A idade média delas era de 33 anos, sendo a maioria do sexo masculino (2.425 ou 84%) em comparação com as mulheres (457, ou 16%).

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O álcool foi detectado em amostras de sangue de 780 vítimas (27% do total), com concentração média de 1,92 grama de álcool por litro de sangue. Este valor corresponde a aproximadamente três vezes ao que criminaliza um motorista se for pego dirigindo sob a influência de álcool (0,6 g/l).

Entre as 780 vítimas que haviam ingerido álcool antes de morrer, em cada grupo de dez vítimas havia aproximadamente nove homens para cada mulher.

De acordo com Gonçalves, “entre o total de 2.882 vítimas da amostra, o homicídio foi a causa de morte mais prevalente na amostra (1.054 vítimas, ou 37% do total). Os acidentes de trânsito corresponderam a 20% dos casos (581 vítimas), os suicídios a 15% (427 vítimas) e outras causas de mortes acidentais, tais como quedas, afogamento, eletroplessão, intoxicação, entre outras, corresponderam a 28% dos casos (820 vítimas).”

Quando se atenta para as proporções das vítimas que ingeriram álcool segundo a causa da morte verifica-se que 30,5% (322) das vítimas de homicídio, a causa de morte mais prevalente, haviam ingerido álcool. Porém dentre as vítimas de acidentes de trânsito, esta proporção sobe para 32%, enquanto nos suicídios é de 26% e nas outras causas de mortes acidentais, 20%.

A análise estatística demonstrou diferenças significativas entre esses porcentuais. “A associação do consumo de álcool foi mais forte entre as vítimas de acidentes de trânsito. Mais além, entre as vítimas de acidentes de trânsito a quantidade de álcool consumido também foi maior,” observa Gonçalves.

A faixa de alcoolemia (presença de álcool no sangue) mais prevalente dentre as vítimas do estudo foi de 0,6 a 1,5 grama de álcool por litro de sangue (292 casos, ou 37,44% das 780 vítimas que consumiram álcool). Sendo também a mesma faixa mais prevalente dentre as vítimas de homicídio (136 casos, ou 42,24% das vítimas de homicídios que haviam consumido álcool), vítimas de suicídio (44 casos, 40% dos suicidas que haviam consumido álcool) e outras mortes acidentais (52 casos, 32,1%).

Descrição das vítimas decorrentes de morte violenta distribuídos por: sexo, idade, causa da morte e resultados de concentração de alcool no sangue.​
Descrição das vítimas decorrentes de morte violenta distribuídos por: sexo, idade, causa da morte e resultados de concentração de alcool no sangue.​

No entanto, quando se observa as vítimas de acidentes de trânsito, percebe-se que seu consumo de álcool foi bem maior: 87 casos, ou 46,77% das vítimas com alcoolemia positiva, consumiram entre 1,6 a 2,5 gramas de álcool por litro de sangue – muito mais do que todas as outras formas de morte violenta.

“Conclui-se, portanto, que os resultados obtidos neste estudo sustentam uma potencial associação entre consumo de álcool e mortes violentas na cidade de São Paulo, principalmente em vítimas de acidentes de trânsito,” afirma Gonçalves.

Mais informações: raedu@yahoo.com, com Raphael Eduardo Marques ou vileyton@usp.br, com a professora Vilma Lyton

Peter Moon/Agência Brasileira de Divulgação Científica

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