Paulo Freire e Lev Vigotski: conectados nas discussões sobre liberdade, educação e democracia

Artigo da revista “Educação e Pesquisa” traz reflexões sobre esses temas a partir da obra dos dois autores

 Publicado: 07/10/2021

Margareth Artur/Revistas da USP

O assunto tomou conta da cidade no dia 19 de setembro: Paulo Freire completaria 100 anos em 2021. A data foi bastante comemorada nos jornais, TVs, mídias sociais, escolas, em homenagens com sua foto em painéis de prédios e outros tantos tributos ao patrono da educação brasileira. O filósofo, educador e pedagogo brasileiro será sempre inesquecível pelas ideias inovadoras e polêmicas que o tornam único nos quadros da educação nacional e da pedagogia mundial. Freire, brasileiro, e Lev Vigotski, psicólogo nascido do outro lado do mundo, na antiga Bielorrússia, unem-se “na perspectiva da educação e dos direitos humanos”.

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As autoras do artigo da revista Educação e Pesquisa trazem uma reflexão sobre “a noção de liberdade a partir de um diálogo entre as proposições de Paulo Freire e Lev Vigotski”, na abordagem sobre a relação entre educação, liberdade e política, em Freire, tendo em vista as potencialidades do ser humano quando persiste em manter uma postura crítica, que leve em conta a mobilização e a criatividade, “a partir do conceito de conscientização”. A contribuição de Lev Vigotski é o enfoque na formação psicológica fundamentada no aspecto social, a reflexão da consciência e da liberdade, “destacando a dimensão afetiva”. O artigo mostra essas conexões dos dois educadores nas discussões, sempre polêmicas, entre liberdade, educação e democracia.

Sociedades mais justas socialmente levam, no caso da educação, a modelos de ensino solidários, com enfoque nas liberdades de escolha, de acordo com os educadores, em que a aprendizagem parte do cotidiano do aluno, de sua condição social, econômica e cultural, na interação do sujeito com seu meio para obtenção do conhecimento. Tanto para Freire como para Vigotski, o desenvolvimento educacional e psicossocial precisa andar de mãos dadas com a liberdade, o respeito e a solidariedade, estimulando-se a criatividade do aluno no ensino, de modo a transformar seu cotidiano em um universo justo que contemple todas as diferenças.

Nesse contexto, o artigo aborda contribuições históricas, etimológicas e filosóficas apresentando conceitos elucidativos sobre a palavra liberdade enquanto prática pedagógica e sobre educação em/para os direitos humanos. Em Freire, por exemplo, a educação é a prática da liberdade. Para ele, a educação deve estar ”junto do povo, pelo e com o próprio povo”, sem o paternalismo assistencialista do governo e o ensino que prega a passividade dos alunos perante o que é passado como conhecimento incontestável nas escolas. Nesse ponto, destaca-se Paulo Freire como “um dos principais idealizadores e mobilizadores da EP” – a Escola Popular – que transformou o ensino brasileiro.

 

Paulo Freire – Foto: UFPB/Reprodução

 

Consciência e conscientização que geram a liberdade social são temas comuns em Freire e Vigotski. Este último argumenta que a experiência humana é dramática, na medida em que “envolve a trama das contradições sociais, com choques de sistemas gerados pelas conflitantes posições sociais vivenciadas no interior da pessoa”. Para as autoras do artigo, a liberdade é a resistência à escravidão, às exclusões sociais e de gênero, e às condições deficientes de estudo, trabalho e de existência. A noção direcionada ao sujeito isolado, por sua vez, relaciona-se com uma lógica social individualista e consumista. Assim, no decorrer desse ensaio, as autoras buscam apresentar uma compreensão de liberdade “que refuta quaisquer perspectivas individualistas e homogeneizadoras”, uma liberdade “enquanto conquista social” a partir das contribuições teóricas de Freire e de Vigotski, entre outras já citadas, que propõem um “modelo de sociedade aberta” a influir sempre positivamente na educação.

Artigo
MOREIRA, A. U.; PULINO, L. H. C. Z. Liberdade é conquista social? Freire e Vigotski na perspectiva da educação em direitos humanos. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 47, p. 1-19, 2021. DOI: https://doi.org/10.1590/S1678-4634202147226278. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ep/article/view/186925. Acesso em 23 set. 2021.

Contatos
Andressa Urtiga Moreira – Professora pela Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal, artista e pesquisadora na área de desenvolvimento humano e educação no Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília. andressamoreiraprof@gmail.com

Lúcia Helena Cavasin Zabotto Pulino
– Psicóloga e professora associada pelo Departamento de Psicologia Escolar e pelos programas de pós-graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Psicologia Escolar (PGPDS) e em Direitos Humanos e Cidadania (CEAM) da Universidade de Brasília.
luciahelenaczp@gmail.com


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