Pandemia sobrecarrega os profissionais da comunicação

Roseli Fígaro explica que a pesquisa sobre o trabalho de jornalista apontou resultados preocupantes como aumento da carga horária e sentimento de medo

jorusp

A cobertura jornalística sobre o novo coronavírus começou ainda em janeiro, quando a pandemia com status de surto e, posteriormente, de epidemia, se espalhou da China para outros países asiáticos e a Europa. Tantos profissionais da comunicação lidando por muito tempo com um único tema, despertou o interesse de um grupo de pesquisa da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP em produzir um relatório sobre como trabalham esses profissionais neste período. A pesquisa foi coordenada pela professora Roseli Fígaro, do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da ECA-USP, que comenta os resultados no Jornal da USP no Ar.

“Em abril resolvemos pesquisar como esses trabalhadores se resolviam na situação de isolamento, já que seus trabalhos são de fundamental importância para a sociedade”, introduz Roseli. Contando com parcerias dentro e fora de São Paulo, como sindicatos e associações, a pesquisa colheu cerca de 550 respostas voluntárias de um questionário de profissionais de 25 Estados, do Distrito Federal e até de Portugal. “Não é uma pesquisa quantitativa e sim qualitativa, uma amostra por conveniência, um sintoma que podemos identificar sobre o que está acontecendo com esses trabalhadores” explica.

O relatório apontou para o sucesso de algumas das reorganizações do trabalho feito de casa, inclusive buscando respostas se esses profissionais da comunicação possuem as mesmas capacidades técnicas de produção de qualidade do local de trabalho, equipamentos e softwares. Outras questões levantadas foram a intensificação do trabalho com aumento da carga horária, que resulta em estresse e cansaço significativos; e a ocupação do tempo “total de vida” das pessoas, já que existe a sensação de disponibilidade em tempo integral para o trabalho, devido ao fato de a pessoa estar em casa.

O WhatsApp, aplicativo de mensagens instantâneas de texto e multimídia, sobressaiu sobre os demais com protagonismo nos grupos de relacionamento das equipes de trabalho e abordagens de jornalistas com suas fontes. “Isso aumenta o número de horas de conexão de aplicativos na internet para a realização do trabalho”, destaca a coordenadora da pesquisa. Somada às mudanças, de horas e ritmo de trabalho, uma preocupação que aparece na pesquisa é o sentimento de medo: de ser contaminado e contaminar as pessoas de sua casa; medo do desemprego; medo de não conseguir clientes (para os freelancers). Dos respondentes, 46% disseram ter filhos, sobretudo as mulheres que ainda precisam cuidar da casa e dos filhos, o que levou o relatório a produzir uma consideração final sobre o home office e gênero. 

“A questão da pandemia não é o afastamento social que instala essas dificuldades todas que já eram enfrentadas em um quadro já bastante problemático para os profissionais da comunicação”, observa Roseli Fígaro. Ela cita a desregulamentação da profissão do jornalista, os ataques que a profissão vem sofrendo nos últimos anos e a desestruturação do setor com grandes companhias. Para conferir a análise completa do relatório executivo do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da ECA clique aqui.

Ouça a entrevista na íntegra no player acima.


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