O que uma criança nascida no semiárido brasileiro há 1.500 anos revela aos dentistas de hoje

Análise dos ossos e dentes indicou problemas de crescimento e erosões causadas por vômitos, um possível sinal de doenças gastrointestinais ou neurológicas

Esqueleto de criança que nasceu há 1.500 anos, encontrado em sítio arqueológico no interior de Pernambuco, traz revelações sobre problemas de saúde frequentes nos consultórios de hoje como anorexia, bulimia e refluxo gastrointestinal – Fotomontagem: Jornal da USP

Na região do semiárido pernambucano, no lugar conhecido como Pedra do Cachorro, uma criança morre aos três anos de idade. A análise dos ossos revela problemas de crescimento. Os dentes apresentam marcas de erosão causadas por vômitos, um possível sinal de doenças gastrointestinais ou neurológicos. Um caso comum, a não ser pelo fato de a criança ter nascido há 1.500 anos e seus ossos terem sido encontrados por uma equipe de arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e enviados para análise no Instituto de Biociências (IB) da USP. Os estudos revelaram também que as marcas nos dentes são similares às encontradas em pacientes com anorexia, bulimia e refluxo gastrointestinal, problemas frequentes nos consultórios de hoje.

Localização do sítio arqueológico da Pedra do Cachorro, no Parque Nacional do Catimbau, no semiárido pernambucano – Imagem: Dental Antrhopology/UFPE/USP

O estudo é descrito em artigo da revista Dental Anthropology. O local pesquisado fica no Parque Nacional do Catimbau, no interior de Pernambuco. “É uma área do semiárido nordestino e com algumas formações de arenito típicas da região”, descreve o pesquisador Rodrigo Elias de Oliveira, que analisou o material. “O sítio arqueológico estava embaixo de uma espécie de abrigo e o solo do local, cujo pH que é de neutro para básico, ajudou a preservar muito bem o esqueleto”, disse o pesquisador ao Jornal da USP.

Esqueleto de criança encontrado na região da Pedra do Cachorro, em Pernambuco; dentes apresentavam alterações que não eram comuns ao uso habitual para mastigação – Imagem: Dental Anthropology

De acordo com Oliveira, a criança tinha alterações nos dentes e nos ossos. No caso dos ossos, a alteração era diferente do desgaste natural dos dentes causado pela mastigação. “Isso chamou a atenção dos pesquisadores da UFPE, que foi a equipe que escavou o sítio arqueológico entre 2015 e 2016”, conta.

“Ao perceber essa pequena alteração nos dentes anteriores superiores dessa criança, o material foi enviado à USP para exames e, a partir de uma análise prévia, decidiu-se pela elaboração de um artigo para apresentar as possíveis causas dessa alteração, tanto nos dentes quanto nos ossos”. A equipe em Pernambuco enviou para São Paulo fotos e radiografias da ossada, além de dois dentes que tiveram alterações, os quais passaram por análises físicas, macroscópicas e microscópicas (microscopia eletrônica).

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“As análises indicam que essa criança teve episódios frequentes de vômito ao longo da vida, o que fez com esses dentes fossem corroídos na parte de trás, junto à língua, e isso também é associado às marcas nos ossos”, relata o pesquisador. “O pouco crescimento dessa criança, que ao morrer apresentava estatura similar a de um bebê com um ano e meio de idade aponta que, muito provavelmente, ela passou por muitos períodos de desnutrição, possivelmente devido à doença que tinha e que deixou marcas nos ossos, conhecidas como linhas de Harris, e que mostram a interrupção do crescimento”, conta ao Jornal da USP.

Segundo o pesquisador, as marcas nos dentes podem evidenciar doenças sistêmicas no organismo da criança, e não apenas algo local, como uma cárie, por exemplo. “Apesar do trabalho ter sido feito com material arqueológico, que tem pelo menos 1.500 anos, ele chama a atenção aos dentistas atuais, pois marcas muito parecidas são deixadas nos dentes de pessoas com refluxo gastrointestinal, cada vez mais frequentes na atual sociedade pós-industrial”, ressalta, “ou em casos de bulimia e anorexia, onde a provocação de vômitos frequentes também deixa essas marcas”.

Todas essas marcas são encontradas com frequência nos consultórios odontológicos, destaca Oliveira. “Os dentistas precisam ficar atentos a essas evidências, porque elas podem estar indicando, como é mais comum hoje em dia, casos de anorexia, bulimia e refluxo gastrointestinal”, afirma, “mas também podem estar indicando, como no caso descrito no artigo, uma doença sistêmica, um tumor, ou um problema anatômico do sistema gastrointestinal, e também doenças do sistema nervoso central que provocam vômitos frequentes”.

Comparação entre uma dentição atual e a dentição da criança; desgaste dos dentes é similar ao encontrado atualmente em casos de anorexia, bulimia e refluxo gastrointestinal – Imagem: Dental Anthropology/USP/UFPE

 

A pesquisa foi realizada no Laboratório de Arqueologia e Antropologia Ambiental e Evolutiva do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do IB. Os estudos tiveram a participação do professor André Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnografia (MAE) da USP, e de Ana Solari, Sérgio Francisco Silva, Gabriela Martin e Caio Belém Soares, da UFPE, que realizaram as escavações em Pernambuco e enviaram material para análise.

 

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As conclusões do estudo são descritas no artigo Dental corrosion in pré-industrial societies: A case study of a child from ‘Pedra do Cachorro’, dating to 1.470 BP, Northeastern Brazil, publicado na revista Dental Anthropology.

Mais informações: e-mail eliaso@usp.br, com Rodrigo Elias de Oliveira

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